27/04/07
O caldeirão do Chiveve
Em "A Cidade da Beira", na 1ª Exposição Colonial do Porto,
apresentada pela Comissão de Administração da Beira, 1934
24/04/07
Beira, nos seus primórdios
16/04/07
José Pádua
De 1979 a 1981 foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, frequentando cursos de gravura em metal e de litografia. Em 1980 e 1981 foi distinguido com os 2º e 1º prémios, respectivamente, em exposições sobre temas de Lisboa.
Entre 1962 e 2003 realizou mais de trinta exposições individuais em Moçambique, Portugal, Zimbabwe, África do Sul e Suécia.
Está representado em inúmeras colecções particulares em Portugal e no estrangeiro, nomeadamente na África do Sul, Zimbabwe, Malawi, Moçambique, Angola, Espanha, Suécia, Áustria, Brasil, Venezuela, EUA, Canadá, Israel, Japão e Austrália.
O mussopo
Ao cantor Madala, lembrando Ponessa musi wango
Ao Pintinho, iluminando as andanças do passado
Porque seria que pelas águas estagnadas homens, mulheres e crianças passavam horas a fio, de dorsos curvados sob as cinturas, segurando latas cilíndricas sem fundo por onde metiam as mãos?
Eu apenas conseguia vê-los naquilo que supunha ser suas cogitações movidas pelos tempos coléricos e pestíferos. Parecia subsistir ali a sobrevivência. Mesmo parecia que os homens andariam a buscar ali as esperanças que tinham perdido, parecia ainda que as pessoas tentavam regatear umas esperanças que eventualmente teriam sobrado nas estagnadas águas. Até que alguém me dissera que andava equivocado, pois o pântano continha aquilo que meu ouvido percebeu tratar-se de um nome estranho: o mussopo ou ncone.
O esclarecimento por si não bastara. Que peixe seria aquele que se captura com latas sem fundo? Para melhor aclarar-me, afigurou-se-me necessário conhecer o "estranho bicho" que, conforme viria a saber, habita junto às faixas de rios salobros e ainda nos pântanos e lamas por alturas chuvosas e secas.
Um dia, os meus amigos Alexandre e João Nhabombo acabariam por me levar para o pântano que se formava após períodos chuvosos por detrás da Casa das Irmãzinhas de Caridade, na ex-zona da Fundação Salazar, no Macurungo. Uma vez aqui os tipos desataram a apanhar o "estranho bicho" a anzol, quando os outros convivas faziam-no com as referidas latas.
Levou bastante tempo até que visse um ncone a ser capturado. Cá deste lado de fora eu e meus amigos só víamos os pescadores palmilhando cada perímetro do charco. A gente contemplava os captores imergidos no pântano de dorsos inclinados, num ritual revestido de sepulcral silêncio por sua vez quebrado por movimentos a cada ondulação circular da água, com que se detectava e se localizava a presa, o que servia para espetar a armadilha sobre a área agitada. Era um exercício ritmado, em que se viam os protagonistas inclinando mais fundo e a meter a mão para dentro daquela armadilha a ver se apanhavam os peixes à mão.
O mussopo é um peixe, por assim dizer, incomum nessa classe de vertebrados, pois as suas barbatanas cobrem o dorso inteiro, prolongando-se até à cauda . E não só, de compostura e pele escorregadia, por não possuir escamas, o mussopo é deste modo difícil de apanhar à mão, correndo o captor o risco de ser violentamente atacado com uma feroz mordida que lhe pode custar a sua amputação.
Aliás, sendo a criatura feroz, nunca entendi o motivo que os levava a perseguir de forma acerada o "bicho" que detém a particularidade estranha de resistir não menos de três dias fora da água. Mas os protagonistas da faina evocavam o sabor da sua carne que diziam ser bastante apreciada, motivo porque lá pela Europa tornou-se uma espécie protegida, tal como se justificavam. E eu a sorrir da desculpa que então dava por esfarrapada, só agora acordei para a realidade.
Dizem que nesta fase a cauda contém micro-organismos essenciais à sua sobrevivência. Mas não me suporto a imaginar um "bicho" debaixo da terra com a cauda enterrada na boca.
Foi pois, esse, o meu primeiro ofício. Apanhar mussopo e cacanas, uma espécie de peixe de água salgada disponível nos canais do Chiveve. Aliás, verdadeiramente quem os apanhava (os mussopos) eram aqueles amigos que considerava bastante corajosos, enquanto o Djidja, outro amigo meu a viver em Durban, preferia pescar cacanas, que capturava comigo, na pesca desportiva, lá para as praias do Clube Náutico, Monumento dos Descobrimentos e Beira Terrace. Porém, admirava-me a habilidade e flexibilidade dos meus amigos que tiravam-nos das águas argilosas a anzol inventados a partir de alfinetes.
E quando não vendêssemos os mussopos, o bicho podia permanecer ao relento sem ser congelado. Era uma vantagem excepcional, ademais não poderíamos levá-los às geleiras dos pais pois sabíamos de antemão, tal daria sarilhos.
Enquanto não tivéssemos clientes que nos pagassem como deve ser, lá o pescado (mussopo) gozava os ares, refrescando-se ao sol ou à sombra. Tal como nos desse na real gana. Às vezes testávamos a resistência do bicho dando umas pedradas e açoutadas de vara. O bicho reagia dando gemidos semelhantes aos de um ser humano: "uff". Será por isso que alguém nos terá dito que não o devêssemos comê-lo porque o mussopo era uma reencarnação dos ancestrais. Aperfeiçoámos o nosso ofício quando descobrimos um freguês, esse que passou a levá-los a crédito de cinquenta centavos por unidade. O freguês jamais nos terá pago. Assoma assim uma dívida com juros que se viesse a liquidar hoje, atendendo às desvalorizações consecutivas que a moeda vem sofrendo desde então, resultar-nos-ia numas economias que dariam para comprar um apartamento.
Nós que pouco entendíamos de ciências ocultas até chegámos a acreditar que as plantas que emergem das tumbas são outras formas de reencarnação dos defuntos. É uma discussão que reservaria aos mais sabidos, embora ainda hoje a lembrar-me dos mussopos seja apossado pela impressão dos seus gemidos, que me pareciam os dos mortos a zangarem-se connosco, por sermos diabos em pessoas. Terá sido este facto que me levara uma vez a confessar-me ao padreca, pois vi-me atingido por manifesto sentimento de culpa, se bem que em toda aquela área onde os buscávamos os indígenas haviam usado para acoitar a alma dos seus.
O mussopo tem uma derme verde-cinzenta, que o tornava ainda menos visível a meio do lodo, o que nos dificultava ainda mais a pesca. Assumiu outra dimensão no meio da malta. E tornou-se este pescado o mascote de um jogador do clube de Belinho e Sérgio Sadique, hoje donos do Benfica do Macúti. Estou a falar do avançado Memba, o mais negro de todos os negros que alguma vez terei visto na vida. O Memba dificilmente se distinguia na penumbra crepuscular daquela tarde em que os adversários metiam bolas na nossa baliza e o tipo, como um mussopo, zás catrapuz surgia escorregadio e a correr e a fazer o gosto com o pé direito, após driblar o nosso guarda-redes.
Por Adelino Timóteo
Diário de Moçambique, Página Diálogo, 14 de Abril de 2007
Nota: O mussopo é um peixe da família dos murenídeos tais como a enguia, o congro e a moreia.
08/04/07
As incursões do mar
Toda a área compreendida entre a Praia Nova e a zona leste do Macúti, parecia igualmente defendida e, se assim não fosse, não teriam sido construídos o antigo Farol da Ponta Gêa, a casa do Inspector Arnald, a de Heitor Morgado, a do padre Maxwell e, por fim, o Farol do Macúti, construções estas que, com largos intervalos, se alinhavam ao longo do mar, separadas deste por aquelas centenas de metros de areias soltas, ou dunas, com vegetação.
No entanto, por 1907-1908, as incursões do mar começaram. Logo ao princípio, caiu a árvore grande, a «conspicuous tree», com grande desgosto dos navegantes e, desde então, até 1919-1920, as incursões foram contínuas e, pode dizer-se que, cada maré equinocial trazia novos estragos. Ruíram assim aquelas centenas de metros de defesa; e, ao mesmo tempo, ia-se formando um cabedelo no prolongamento da Praia Nova, para oeste. De certo modo, parecia haver grande deslocação de areias, porque, à proporção que as praias iam sendo corroídas, em toda a sua extensão, o cabedelo aumentava em comprimento e altura.
Por outro lado, a formação deste parecia obra providencial, porque se constituiu um quebra-mar e defesa da cidade, impedindo o batalhar forte das ondas do alto, contra a muralha. Estamos convencidos de que esta já não existiria, ou teria tido de ser reconstruída, se aquele batalhar não tivesse cessado.
Nas marés de águas vivas e, sobretudo, nas equinociais, a rebentação sobre a muralha oferecia um espectáculo admirável e, ao mesmo tempo, assustador. Aquela rebentação incidia principalmente sobre o trecho que fica por detrás do actual edifício Paládio e sobre o ângulo que a muralha forma ao lado da antiga casa J. D. Martini. A cada choque, era a água atirada a dezenas de metros de altura em seguida o forte ruído e abalo, semelhantes aos de um bombardeamento. Ainda se encontram pela Beira alguns dos seus habitantes desse tempo e, decerto, se lembram do receio que havia de que o pequeno burgo de então viesse um dia a desaparecer sob a acção daquele batalhar das ondas.
Veio, pois, o cabedelo, obra providencial da natureza, a remediar o grande mal e perigo, fazendo de quebra-mar e evitando que a ondulação do largo viesse a desfazer-se sobre aquela defesa.
Mas, nesse tempo, outro mal havia, que era a entrada franca das águas pelo extremo sul da muralha. Por aí vinha a ondulação até às construções situadas à direita da actual Avenida da República, ameaçando, cerca de 300 metros, no prolongamento da muralha, obra esta que ainda hoje existe, quase soterrada, e que se denominava, ao tempo o «perré» da Ponta Gêa.
Foi útil porque quebrada a entrada violenta da ondulação; mas, mais útil ainda, foi o cabedelo que acabou também com mais esta ameaça.
Não havia técnicos na terra que pudessem determinar as causas da grande erosão da praia, o novo perigo que havia surgido, e recomendassem o necessário remédio. Fez-se obra por tentativas: pensou-se na defesa pelo sistema de esporões; construíram-se muretes com sacos de cimento perpendiculares e oblíquos à linha de água, etc. De tudo quanto ocorria se foi fazendo um pouco, mas a erosão avançava sempre e, no fundo da área que hoje é mar, ao largo da praia, devem encontrar-se essas defesas que não foram, talvez, suficientemente sólidas para oferecer a necessária resistência.
E as opiniões variavam, quanto àquelas causas. Afirmavam os marítimos conhecedores da costa que se estava operando qualquer mudança no curso das correntes, no Canal de Moçambique; diziam outros que as mudanças de «thalweg», no estuário, estavam a influir na entrada e saída das águas das marés e, daí, a erosão; finalmente, e por último, veio a observação colhida no Observatório, de que se havia alterado a direcção do vento predominante, o que estava a influir no movimento das águas, causador da erosão.
Seja como for, a maior das ameaças apareceu em 1919-1920, quando o mar chegou aos alicerces do Farol do Macúti. Reunidas as entidades competentes para o estudo do grave problema, foi resolvido proceder-se à construção imediata de um novo farol provisório, a cerca de 2 quilómetros ao norte do Macúti, e apear-se a lanterna do farol ameaçado. Esta segunda parte entrou logo em execução: foi construído um andaime do lado do farol, com a altura deste, e a lanterna foi apeada, com despesa que seria, hoje, de alguns contos. Havia, no entanto, quem tivesse a opinião de que era este o melhor expediente e que se deveria tentar, por todas as formas possíveis, a defesa da construção.
Acabava de ser suspenso o serviço do Farol à navegação e apeada a lanterna, quando chegou à Beira o comandante Raul Nunes Frade, engenheiro hidrógrafo, contratado naquela altura, para o Serviço da Companhia de Moçambique.
Posto ao corrente do grave problema, foi o Comandante Nunes Frade de opinião de que se deveria tentar nova defesa do farol e, assim, mandando rebocar para o local um dos velhos barcos que se encontravam abandonados no porto, fê-lo encalhar mesmo em frente daquela construção. Não tardou que as areias começassem a juntar-se e a almejada defesa fosse restabelecida. São passados 32 anos e ainda hoje se mostra que o expediente deu os mais lisonjeiros resultados. Escusado será dizer que a lanterna voltou para o seu lugar e o farol continuou, como ainda hoje, a prestar serviços à navegação.
Outros cascos foram, seguidamente, trazidos e encalhados noutros pontos da praia, entre o Macúti e a Praia Nova, sendo o resultado o mesmo, juntaram-se novamente as areias, impedindo a erosão. Prova isto à evidência que, como primeiro expediente, é este o processo de que é preciso lançar mão para evitar a repetição do perigo.
Muito bom serviço prestou à cidade aquele distinto oficial e, recordá-lo e dizer que se lhe deve um profundo agradecimento, não distante do que merece quem salva outro da morte.
Há alguns anos, recordando estes transes do passado com o ilustre oficial, dissemos-lhe que era necessário que a sua obra tivesse continuação: novos encalhes por toda a praia, de forma a consolidar a sua defesa, e permitir melhores obras no futuro. Esteve plenamente de acordo, e afirmou: «Sim, é preciso escorar a praia toda».
E quando não houvesse cascos de barcos, que se construíssem jangadas, de qualquer modelo tosco, mas sólido, que servissem para o mesmo fim: impedir a deslocação das areias e fazê-las juntar.
Vem este relato a propósito da Estrada Marginal. Há quem tenha criticado e condenado esta obra, com o fundamento de que, prejudicando a duna e sua arborização, prejudicava também a defesa da cidade contra o mar. Temos a impressão de que estão em erro. Dunas, muitas dunas, cobertas de vegetação, existiam em mil novecentos e oito, quando começou a acentuar-se a erosão, e todas elas foram tragadas pelo mar. As dunas só por si, no nosso caso, não são tudo e isso ainda agora se mostra no trecho desprotegido da praia que vai da Praça da Índia até ao Macúti, ao qual é preciso acudir.
São precisos os encalhes na própria praia, enquanto se não constroem esporões, muralhas ou outras obras adequadas. Vem do passado uma lição altamente aproveitável; cumpre não a esquecer.
E quanto à estrada marginal assentemos, com a verdade, que a obra é boa, oportuna e de valor turístico incontestável; assim o reconhece também o público, como se mostra pelo uso que faz dela. O que é preciso é melhorá-la, asfaltá-la e levá-la ao Macúti, logo que os recursos o permitam.
E, repetimo-lo, escore-se a praia toda, como muito bem recomendava o Comandante Nunes Frade.
05/04/07
A Porta da Cidade
O almoxarifado esteve aqui instalado até 1903, altura em que virá a ser alojada provisoriamente a repartição dos correios. Anteriormente, esta última estava instalada numa velha casa abarracada, de madeira e zinco, que viria a arder em Janeiro de 1902, com o alastramento do incêndio no Beach Hotel. A esta situação juntava-se ainda o facto de se pretender colocar o Almoxarifado sob a dependência directa da Fazenda. Esta junção não se tinha efectuado ainda porque, no edifício da Fazenda, não existia espaço para a sua instalação. Numa fase inicial, os correios estiveram mal alojados mas, posteriormente, após a transferência do almoxarifado e a execução de algumas obras no armazém, pôde-se ali instalar as seguintes divisões: sala para o público, sala para a correspondência apartada em “boxes”, sala para a posta-restante e para encomendas postais e registos. Numa outra parte do edifício encontrava-se o gabinete do director, o arquivo e o depósito e, no restante, estavam ainda aquarteladas algumas praças da Guarda-Fiscal. Com a nova instalação, foram ainda adquiridas 300 caixas de ferro para a correspondência apartada, tipo alemão, permanentemente abertas ao público, ficando o recinto iluminado à noite e com uma sentinela permanente. E, durante alguns anos, foi considerada, “uma das melhores instalações dos serviços da Companhia de Moçambique”.
A partir de 1906, o director dos correios sugere que as “quatro portas voltadas para a nascente” sejam transformadas em janelas envidraçadas, pois nos dias de chuva as mesmas tinham de ser fechadas, privando a repartição de ar e luz. Mas propunha ainda uma modificação mais radical, com a ampliação do edifício em casa de habitação, construindo-se para isso um primeiro andar. As razões apresentadas pelo chefe daquela repartição prendiam-se com o facto do pessoal dos correios ser dos mais mal pagos no território de Manica e Sofala. Julgava este que podia reverter esta situação, dando-lhes casa ao mesmo tempo que se conservava o mesmo ordenado.Esta última sugestão nunca chegou a ser efectuada, apesar de esta ampliação se tornar inadiável, agora motivada pelo grande desenvolvimento que se tinha dado neste serviço público.
Os correios, que se tinham instalado aqui provisoriamente, mantiveram-se no armazém até 1929, altura em que se mudaram para uma casa alugada, situada no segundo andar do edifício Lacerda. Nessa altura, o velho armazém era já considerado “desprovido das condições higiénicas indispensáveis a uma repartição onde trabalham diariamente 50 indivíduos”, mas também porque já era olhado como inestético e de uma pobreza extrema.
A partir desta data podemos apenas levantar suposições sobre o que terá então acontecido. Provavelmente terá voltado à posse da Repartição da Fazenda, já que tinha sido construído propositadamente para os serviços do Almoxarifado. Pelo menos, na década de 60 do século XX, estava já entregue a estes serviços, ainda que não existisse ali ninguém. Penso que era apenas um armazém daqueles serviços e assim terá permanecido mesmo após a independência do país. Na década de 80, pude localizar ali os arquivos da antiga Repartição de Fazenda da antiga Companhia de Moçambique. Foi primeira e única vez que estive no seu interior. Mas é também desde aquela altura que se pretende dar um futuro mais condigno ao edifício, já que era então um dos mais antigos da cidade da Beira. O historiador Alexandre Lobato, então director do Arquivo Histórico de Moçambique, numa primeira tentativa de descentralização destes serviços públicos, pretendia instalar nele a delegação centro do Arquivo Nacional. Ficou apenas a ideia, já que nunca viria a concretizar-se.
A entrega do velho edifício do Almoxarifado à associação Casa do Artista, por decisão do Ministério das Finanças, veio repôr a justiça, garantindo-lhe um futuro condigno, ao mesmo tempo que se tornará num espaço cultural ao serviço dos beirenses. Uma nova etape começa agora na sua existência, após as obras de recuperação e transformação.
Apesar da sua recente criação em 2003 e de ainda não possuir uma sede própria tem desenvolvido inúmeras actividades culturais, tais como: exposições de pintura e fotografia, saraus culturais, espectáculos de rua, lançamentos de livros, debates culturais e ainda uma “Feira do Livro” em parceria com o Instituto Português do Livro e das Bibliotecas e o Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa. De notar que nesta feira foram vendidos em 2,5 dias cerca de 17.000 livros.
Conseguiu, depois de muito esforço, uma concessão por 30 anos do ex-almoxarifado da Beira, edifício cuja construção se iniciou em 1897 (possivelmente o mais antigo edifício em alvenaria da cidade), agora em ruínas, que pretende restaurar para sua sede.
02/04/07
Exposição de Sitoe "O Passado, o Presente e o Futuro", Dezembro de 2006
Ainda jovem viajou um pouco o mundo e rapidamente se tornou num dos poucos pintores de referencia desta nossa cidade.
Mais tarde teve de partir atrás dos seus sonhos e instalou-se na capital, em Maputo.
Mas sempre fui acompanhando a evolução, o crescimento daquele que sonhou “num sonho cheio de magia, que era artista e se chamava Sitoe”.
As suas telas com as suas cores, as suas formas, o movimento, contam-nos as suas magias, levam-nos a um mundo de encantamento, um mundo que nos traz uma Arte (com A maiúsculo) cheia de calor e sensualidade.
Este amigo é um apaixonado pela mulher, mulheres cuja beleza o inspiram quase que como uma obsessão. Através delas os seus quadros transmitem-nos mensagens de amor, ternura, voluptuosidade.
Assim do poema “Receita de Mulher” dedico-te os seguintes versos:
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como ao âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo.
...........................................................
Por isso este amigo está hoje aqui connosco e traz-nos o passado, o presente e o futuro.
21/03/07
Obra de beirenses
Lançada em ambiente emocional, a iniciativa do Auditório-Galeria de Arte foi não só uma ideia inteligente, mas um impulso do coração, obra de beirenses, fruto legítimo de um bairrismo respeitável,compensa-nos largamente das desilusões que nos trazem outras manifestações ditas suas irmãs e na verdade filhas de interesses de concorrência e despeitos de oficiais do mesmo ofício. Do Auditório-Galeria de Arte pode afirmar-se verdadeiramente que tem o fim exclusivo de servir o povo da Beira, sem poder assacar-se aos promotores do empreendimento a intenção de se servirem de um negócio fantasiado de nobre causa.
Do Auditório-Galeria de Arte podem orgulhar.se todos - e já são muitos - os que, desde início deram o seu esforço, contribuíram com o seu entusiasmo e com o seu dinheiro, adicionaram a sua quota de trabalho ou de capital, dedicaram ao empreendimento horas de labor ou dávidas materiais para que a sua cidade ganhasse um palácio das artes.
Neste ano de 1967, em 20 de Agosto, dia da cidade da Beira, é possível inaugurar-se a primeira fase da notável obra, que, assim, poderá começar já a ser útil: há que prestar homenagem aos que tornaram possível este facto jubiloso; homenagem impessoal indiscriminada, a uma cidade inteira, à qual se deve o que até agora foi conseguido e da qual se espera, justificadamente, a continuação do edifício até à sua completa realização. Depois, o moderno conjunto arquitectónico ficará através dos tempos a valorizar a Beira atestando o amor à sua terra dos beirenses de hoje.
Legado de pioneiros, será o testemunho de que, ainda jovem, a Beira começou a preocupar-se com a sua promoção cultural.
Gouvêa Lemos, na inauguração do Auditório-Galeria de Arte
19/03/07
Desenvolvimento Cultural da Cidade da Beira
DESENVOLVIMENTO CULTURAL DA CIDADE DA BEIRA.
Por : Silva Dunduro (*)
(Tema apresentado num debate cultural promovido pela Casa do Artista em 16-11-06)
Não vamos neste debate apresentar ideias acabadas sobre o desenvolvimento cultural da cidade da Beira. Não se trata de uma sessão de perguntas e respostas ou seja onde os convidados levantam questões e os apresentadores do tema respondem. Não é isso o que se pretende. Pretende-se sim que todos os presentes contribuam com o seu saber ou experiências vividas dentro ou fora desta cidade.
Quais foram as dificuldades encontradas para a apresentação deste tema?
A primeira;
A primeira é a inexistência de informação sistematizada sobre o movimento cultural da cidade da Beira. Existem muitos estudos sobre a cidade da Beira, contudo não se encontra em nenhum, algo de substância que possa facilitar a pesquisa para o tema. Por isso, este texto foi elaborado tendo como pano de fundo as marcas da arte pública da Beira (pintura, alto e baixo relevos, escultura e murais).
A segunda;
É a ausência total de fontes ou de locais ou ainda de instituições de investigação de aspectos antropológicos sobre a cidade. Como se sabe a cidade da Beira não possui nenhum depósito museológico activo que contribua para a recolha de dados. Algumas das marcas que provavelmente podiam servir de ponto de partida encontram-se em avançado estado de degradação ou simplesmente ruíram. Contudo, esperamos que os antropólogos nascidos nesta cidade algum dia se preocuparão em nos trazer uma abordagem mais rica, que não seja apenas na perspectiva etnolinguística, pois, como defende Evans Pritchard, “... a antropologia social é, pelo menos em teoria, o estudo de todas as sociedades humanas e não só das sociedades primitivas...”
A terceira;
A terceira dificuldade reside no facto de não haver condições para uma análise conjunta do desenvolvimento cultural devido ao contexto político e histórico da época. Quer dizer, os espaços culturais que se foram criando eram concebidos segundo interesses sociais dos grupos que foram se fixando na cidade da Beira tendo em conta o seu carácter cosmopolita. Este aspecto fez com que parte de valores culturais fossem considerados marginais em relação à cultura dominante ou hegemónica.
Deste modo, a participação das comunidades da periferia limitou-se aquilo a que o sistema chamava de cultura indígena.
Perante estas dificuldades vou apresentar este tema tomando em linha de conta três períodos:
1. O desde finais de 1800 até meados de 1900;
2. O período de meados de 1900 até à independência;
3. O pós-independência.
1.
Em finais dos anos 1800, a cidade da Beira conheceu um grande impulso na construção de infraestruturas de serviços públicos.
Logo a seguir, nas primeiras duas décadas dos anos de 1900, surgiram vários estabelecimentos hoteleiros, como por exemplo os “ Avenida Hotel”, “Savoy Hotel”, “Queens Hotel”, etc. Estes estabelecimentos hoteleiros visavam responder à crescente procura de serviços para os visitantes vindos de diferentes regiões do país e do estrangeiro. Como se sabe, o "hinterland" era e continua ligado à cidade da Beira.
Interessa frisar aqui que este desenvolvimento sócio- económico e cultural não era inclusivo a todas as comunidades ou estratos sociais da cidade. Isso porque à medida que a ”civilização” ocidental ou asiática ia ocupando espaço, as comunidades locais afastavam-se cada vez mais dos novos ocupantes. Ainda hoje, nota-se esta tendência. Muitos dos nativos encontram-se fora do espaço urbano e mesmo das zonas suburbanas.
O desenvolvimento da cidade e o seu carácter cosmopolita como já fiz referência, fez com que as minorias se preocupassem em criar espaços culturais próprios onde fosse possível apresentar suas práticas culturais.
No caso dos grupos sociais de origem asiática, por exemplo, embora houvesse relações entre essas comunidades, de modo algum encontraram encaixe na cultura portuguesa, a dominante.
Como resposta a esta lacuna, começaram a surgir clubes e associações das diferentes comunidades residentes. Assim, as comunidade hindu, inglesa, goesa, chinesa, entre outras, iniciaram a construção de infraestruturas próprias. Estes espaços visavam promover a identidade cultural de cada grupo social, como explica Domingos do Rosário: “um facto comum é o de que quase todos os clubes eram frequentados por determinados grupos sociais e étnicos. Eram nesses clubes onde regularmente se encontravam para os seus tradicionais convívios – jogos, gastronomia, música, cerimónias, etc.”
Esta perspectiva demonstra claramente a preocupação dos grupos minoritários para a promoção e preservação da sua identidade cultural dado que não cabiam no contexto da cultura portuguesa ou pelo menos, na política cultural para a colónia, como já se disse. Aliás, como acontece em todas grandes cidades onde naturalmente a cultura é heterogénea.
Um dos exemplos mais salientes quando se fala dos subgrupos preocupados com a sua cultura é a comunidade chinesa residente nas regiões de Manica e Sofala.
Fundaram na cidade da Beira o “ Chee Kung Tong Club” ou “Clube Chinês”, em 1922.
Se concordarmos com Guy Rocher, ao definir cultura como “um conjunto ligado de maneiras de pensar, de sentir e de agir mais ou menos formalizadas que, sendo apreendidas e partilhadas por uma pluralidade de pessoas, servem, duma maneira simultaneamente objectiva e simbólica, para organizar essas pessoas numa colectividade particular e distinta”, então facilmente perceberemos o porquê do surgimento destes clubes e sua função social, pois, como se sabe o desenvolvimento sócio-económico contribui para uma maior expressão da cultura.
A procura da afirmação cultural tendo como base a cultura do ponto da origem e a passagem de testemunho a outras gerações era obviamente uma das principais preocupações dessas comunidades. Um espaço delimitado que, embora pequeno, constituía território autónomo onde fenómenos seculares tinham lugar.
Qual foi o papel do Governo no processo do desenvolvimento cultural nessa altura?
Concordando com o ponto de vista de Fernando Marques Pereira, que classifica a cultura como ideologia de classe dominante ou como instrumento de hegemonia, o governo colonial permitiu neste período o surgimento de clubes nocturnos. Estes espaços tornaram-se centros difusores da cultura dominante. Além destes, foram construídas casas de cinema para aproximar a cultura ao cidadão distante da metrópole. O interesse quanto a mim, não terminava apenas em servir o cidadão. Mais do que isso, a cultura desempenhou papel fundamental para a fortificação da sua hegemonia.
A complexidade da vida urbana e a ideologia do governo em relação às comunidades indígenas fez com que nos bairros suburbanos houvessem culturas típicas segundo afinidades etnolinguísticas.
Por exemplo, grupos vindos do sul de Moçambique, eram tratados por “mabazaruto” mais tarde “manhambane”, independentemente das coordenadas geográficas da zona de origem. Grande número dessas comunidades vivia nos Bairros de Inhamudima e Chipangara Mussanga.
Esta atitude demonstra claramente a intenção de dividir para reinar. Ou seja, o conceito de país não existia em toda a extensão do território que é hoje a república de Moçambique. Consciente da importância da cultura para a identidade dos povos, as culturas típicas foram simplesmente ignoradas.
Tendo em conta o factor etnolinguístico que servia para separar ou juntar pessoas, como já fiz referência, as comunidades do sul tinham danças típicas: chigadigadi, zorre e makwaela. Um dos seus habituais locais era o recinto da Dona Adelaide, nas mediações da escola primária de Chipangara.
Estes locais, marginalizados pela cultura dominante, transformaram-se num dos maiores centros de lazer para as comunidades desses bairros e não só.
Além desta função (diversão e lazer) também tinham a função antropológica que a olho do governo colonial não tinha qualquer significado. Na verdade serviam para transmitir e preservar valores típicos desses grupos sociais.
Enquanto isso, as comunidades das regiões do norte da Província de Sofala, atraídas pelo desenvolvimento dos caminhos de ferro de Moçambique começaram a povoar terrenos baldios formando bairros suburbanos igualmente afastados do centro ou do núcleo da cidade ou ainda dos luxuosos bairros que iam sendo erguidos como são os casos de Palmeiras I e II.
Deste modo a cidade da Beira começa caracterizar-se cada vez mais pela heterogeniedade não só das comunidades vindas de outros continentes mas também pelas vindas de diferentes pontos do território, como nos mostra Gans, ao afirmar que “... a população urbana é constituída por indivíduos heterogéneos, arrancados que vindos de outros sistemas organizacionais são vítimas da anarquia social da cidade”.
É assim que enquanto na zona de cimento aflorava a cultura mais elaborada e cuidada, obediente a padrões universais, contrariamente, nos bairros emergentes, o forte era a cultura popular.
Esta visão do governo colonial fez com que o desenvolvimento cultural seguisse duas direcções como tenho estado a demonstrar.
2.
O segundo período pode ser considerado como o ponto mais alto do desenvolvimento cultural da cidade da Beira. Trata-se da década de 60. É no meu ponto de vista, o que mais se destacou em realizações de grande vulto.
Um dos legados desta época que quanto a mim, constitui ponto de referência, foi a inauguração do Auditório Galeria de Arte a 20 de Agosto de 1967, actual Casa Provincial da Cultura de Sofala.
Aliás, o surgimento do Auditório Galeria de Arte na cidade da Beira, duma ou doutra forma está relacionada com mudanças do regime em Portugal. Foi uma reacção à política cultural que com o seu “autoritarismo” procurava criar condições para uma ideologia cultural baseada na propaganda do regime. Julgo que o Auditório é uma das demonstrações de descontentamento da comunidade portuguesa residente na cidade da Beira, 34 anos depois da criação do Secretariado da Propaganda Nacional que no dizer do próprio Salazar, não era um instrumento do Governo mas um instrumento de governo. Tinha como objectivo “elevar o espírito da gente portuguesa no conhecimento do que realmente é e vale, como grupo étnico, como meio cultural, como força de produção, como capacidade civilizadora, como unidade independente no concerto das nações ...” (Fernando Marques Pereira).
Apesar do Auditório ter surgido como forma de rejeitar o regime, podemos concordar que mesmo assim a cultura portuguesa foi tomada de algum modo como um veículo “civilizador” do ponto de vista do colonizador.
Ao analisar a plástica da cidade e seus autores, nota-se que poucos moçambicanos, mesmo aqueles que tinham aceite a assimilação, tiveram possibilidade de participar nesse movimento.
Portanto, havia um segmento apenas para satisfazer a comunidade portuguesa e as restantes manifestações indígenas não partilhavam nesse desenvolvimento. Logo, a ideia de “elevar o espírito da gente portuguesa.”
Qual foi o papel da sociedade civil, do governo e das instituições privadas?
Retomando Fernando Marques Pereira quando diz : ”... os nossos governantes caseiros que da cultura fazem pretexto, uma pose, um pedestal em cima do qual se tenha a ilusão de que existem”, nota-se neste período a cedência por parte do Governo colonial no sentido de que as comunidades locais mesmo as de origem europeia cultivassem uma identidade própria.
Pressionado pelos ventos de mudança e pelo novo espaço geopolítico, interessava ao Governo colonial “largar a corda”.
Uma das formas dessa tendência é no meu entender a cedência do espaço onde foi erguido um palácio das artes em pleno “coração” de Moçambique. A construção do Auditório Galeria de Arte constitui um dos marcos mais importantes do desenvolvimento cultural da cidade da Beira como já disse. No acto da sua inauguração, em 1967, o escritor Gouvêa Lemos disse que se tratava de ”... homenagem impessoal indiscriminada, a uma cidade inteira, à qual se deve até agora, e da qual se espera, justificadamente, a continuação do edifício até à sua completa realização”. Espelha-se nestas palavras o sentido de liberdade espiritual que não iria perdurar por muito tempo.
Nota-se também que a obra provocou uma grande mudança. A cidade da Beira nunca mais seria a mesma. Esta ambição e privilégio que a Beira teve de ser pioneira em ter um espaço verdadeiramente cultural e parte da sua comunidade poder apresentar suas aptidões artísticas foi uma importante conquista no mundo das artes.
Para perceber a importância do Auditório Galeria de Arte para a cidade da Beira, retomo uma vez mais Gouvêa Lemos. Quando ele se referia a este empreendimento a dado passo afirmou: ”legado de pioneiros, será o testemunho de que ainda jovem, a Beira começou a preocupar- se com a sua promoção cultural”.
Importa referir que a sociedade civil jogou um papel importante para que o Auditório fosse erguido. Foi a iniciativa da sociedade civil que deu origem a uma das ideias mais brilhante que a Beira já teve, pelos menos na perspectiva cultural.
Contudo, não se pretende dizer que antes da inauguração da Galeria não houvesse manifestações culturais. Como mostrei no ponto 1, muito antes do Auditório Galeria de Arte (actual Casa Provincial da Cultura), a cidade da Beira já era um palco de manifestações culturais sobretudo de Arte Pública. Existia um pouco por toda a cidade uma forte presença deste tipo de arte, principalmente nas artes plásticas.
Nesse período uma das incontestáveis figuras é José Pádua. A sua obra encontra-se distribuída em quase todos os bairros de cimento da cidade. Desde o desenho, passando pela pintura e desaguando no alto e baixo relevos. Grande parte da arte pública nesta cidade é da sua autoria. É possível apreciar a sua obra nas paredes exteriores do Clube Ferroviário da Beira, na sala VIP do Aeroporto Internacional da Beira, na sala de espera do Gabinete do Presidente CMB (pintura), no ginásio da Universidade Pedagógica delegação da Beira entre outros lugares públicos e privados.
Além destes pintores, em 1970, Malangatana Valente Ngwenha, o mais notável pintor deste país, pintou “Vovó Chipangara está Zangada” na parede frontal do Auditório-Galeria de Arte. Este mural encontra-se actualmente completamente degradado e a clamar por retoques urgentes. É provavelmente o único mural deste artista na cidade da Beira, pelo menos em lugares públicos e se calhar em toda a região centro e norte do país.
Shikhani, contemporâneo de Malangatana, pintou um mural no Centro Social da actual Casa Provincial de Cultura.
A sua plástica é marcada principalmente pela escultura e alto relevo, pelo menos no que toca a arte pública. Os rituais de nascimento, casamento e de morte representados em alto relevo no Palácio dos Casamentos é, no meu ponto de vista uma das principais obras públicas que Shikhani deixou nesta cidade.
À plástica de Shikhani junta-se a de Carlos Beirão (já falecido), homem multifacetado e multicultural. Beirão, não deixou grandes marcas de arte pública e nas artes plásticas plásticas em geral mas, não se pode negar o seu contributo para o desenvolvimento da cultura do Chiveve.
O papel das instituições
As instituições do Estado e privadas jogaram um papel muito importante para o desenvolvimento cultural da cidade da Beira.
Para além da fundação Calouste Gulbenkian, principal impulsionador da produção da arte pública, instituições como a Celmoque, Shell, Banco Nacional Ultramarino e Banco Pinto & Sotto Mayor, entre outras, foram importantíssimas.
O estágio que se atingiu deveu-se em grande medida a estas instituições. Este facto demonstra que a cultura não é algo isolado do processo da evolução sócio-económica. Fica igualmente demonstrado que a ausência da participação de instituições inibe o desenvolvimento cultural de qualquer sociedade.
3.
A terceira e última fase, no meu entender pode ser subdividida em duas partes.
A primeira que vai de 1975 até meados da década de 80, é banhada pela euforia pós independência. Caracteriza-se pelo resgate da identidade cultural negada ao povo durante séculos. Como dizia Gil Pinto, “a independência abriu as portas para os artistas. As bandas dos subúrbios apareceram na zona do cimento para tocar a sua música, particularmente no Auditório-Galeria de Arte.”
A cultura popular tomou o espaço. Emergiu. O canto e dança, a música ligeira e outras formas de expressão cultural ganharam corpo. A cultura é do povo e para o povo. O tambor pela primeira vez entra no espaço onde antes não podia.
Surgiram grupos de canto e dança em todos os cantos da cidade. Na escola, no bairro, na empresa, etc. Os ventos da revolução tomaram conta de tudo e de todos.
A cultura tomou a dianteira para a moldagem de um homem novo e para a consolidação da unidade nacional. A libertação significa tornar-se cidadão com identidade cultural e com nacionalidade. A cidade da Beira não deixou em mãos alheias este grande movimento que teve grande repercussão na nova perspectiva da cultura.
Desta maneira a Casa Provincial da Cultura, transforma-se num dos melhores espaços difusores da cultura.
Que transformações ocorreram nessa altura?
No meu entender, uma das principais transformações foi o gradual desaparecimento da arte padronizada. Ou seja, o populismo substituiu de imediato o desenvolvimento cultural dos anos 60. A arte pública foi destruída, particularmente a escultura que simbolizava o colonizador. De modo geral, a música, o canto e a dança, a pintura, o teatro, etc., com rigor profissional desapareceram pouco a pouco.
Este facto viria a traduzir-se numa cultura onde o folclore é a fonte de inspiração. A preocupação pela técnica é relegada para segundo plano.
Uma das razões pode ser o problema que inicialmente expliquei: a criação de dois espaços, onde num havia a preocupação de uma cultura (dominante) mais elaborada e com padrões universais, como é o caso de Pádua, e noutro, onde a cultura indígena era desenvolvida nos bairros sem qualquer acompanhamento técnico.
Quer dizer, durante o sistema de governação colonial as periferias não tinham a possibilidade de aprender técnicas sobre as artes cénicas e visuais ou mesmo audiovisuais como acontecia aos artistas da zona de cimento.
Alguns que haviam aceite a assimilação e tiveram acesso às escolas oficiais e mais tarde ao ciclo preparatório, aprendiam algo relacionado com trabalhos manuais. Mesmo assim, não se podiam considerar como aptos para dar resposta ao grande movimento que nascera da revolução em pé de igualdade com os nomes a que fiz menção.
Nessa altura qualquer um podia considerar-se pintor, escultor, bailarino, coreógrafo, actor, etc. Por exemplo ainda hoje, existem indivíduos que se auto-intitulam de coreógrafos só porque estiveram durante algum tempo a dançar num grupo polivalente; dramaturgos, porque criaram um grupo de teatro que durou apenas seis meses; pintores, porque gostam de pintar; e assim por diante.
O reducionismo que se assiste hoje em relação à concepção da cultura, pode ser herança desse período, pois muitos pensam que na cultura não há especialização, o que conta é a experiência individual. Por isso qualquer um pode considerar-se artista e até se apelidar de coreógrafo ou de qualquer nome que lhe apeteça.
A geração de artistas deste período não teve a mesma oportunidade que Pádua e Shikhani tiveram.
Quais as razões que motivaram esta tendência? Qual é o papel das instituições neste momento em relação à cultura?
Estas questões podem ser respondidas se retomarmos a ideia de Fernando Marques Pereira, segundo a qual “a cultura acompanha as transformações da sociedade, da estratificação social e da própria organização do Estado.”
Na altura, o novo Estado pós-colonial precisava impor a sua ideologia e a cultura torna-se um dos principais veículos.
As potencialidades que já existiam, particularmente nas áreas da música e da dança, iriam ocupar lugar de destaque. Muitos desses artistas nunca tinham ouvido falar de espaço cénico, do palco convencional. Surgiram nesse período, algumas figuras que se destacaram, sendo Álvaro Zumbire uma referência obrigatória, quando se fala das artes cénicas. Aliás, Álvaro Zumbire viria a ser um dos pioneiros na criação da Companhia Nacional de Canto e Dança. Nessa altura, as artes plásticas (pintura e escultura) perderam o brilho e o seu peso.
A segunda parte inicia-se em finais de 1980 até ao presente momento.
Relativamente à pintura, para além dos já citados Shikhani e Carlos Beirão, nos finais da década de 80 surge uma geração de pintores com visões diferentes.
Esta geração, já com alguma formação na área das artes plásticas, revoluciona a cultura na cidade da Beira, continuando o sonho deixado na década de 60 quando foi inaugurado o Auditório-Galeria e Arte.” Os seus nomes sonantes são: Helder do Nascimento Ferrão (já falecido), Silvério Sitoe (a residir em Maputo), Silva Dunduro e Anísio Páscoa.
Mais tarde surgem Paolos e Alex Dunduro, . Estes são no meu entender os que mais se destacaram.
Na literatura o nome mais relevante é sem dúvida o do poeta Heliodoro Baptista, para além de Bassane Adamogi, e mais recentemente de Adelino Timóteo.
No caso da dança e música, com os gira-discos que os “madjonjones” traziam da África do Sul, começaram a fazer-se bailes ao ar livre que ficaram conhecidos como “tchingwere”. Por exemplo, na Mananga e Munhava, onde vivia uma numerosa comunidade ndau, era frequente haver manifestações culturais como as Marozwi, Mandoa, Mandiki e outras danças espirituais. Enquanto isso, o bairro da Manga transformava-se num dos maiores pólos de convergência dos residentes dos subúrbios da Beira. Nessa altura surgiram vários grupos musicais, sendo de destacar os Irmãos Beirenses, O. K. Jazz e Andorinha Rock da Munhava. São assimilados que tocam principalmente música de outros artistas mas também música própria.
Conclusões
Sobre este tema, penso poder-se concluir que:
1- Desde o surgimento da cidade da Beira, como acontece em qualquer outro lugar onde se desenvolvem grupos humanos, que a cultura está presente. Isto é, à medida que a cidade vai ganhando corpo a partir de diferentes grupos sociais provenientes de diferentes lugares, foram-se moldando características específicas para cada um. Por isso, uma das primeiras reacções foi o surgimento de clubes. Os clubes, como foi mostrado por Domingos do Rosário, tinham como objectivo promover as identidades culturais desses grupos.
2- O surgimento dos clubes era uma resposta da heterogeneidade cultural, pois, a cultura oficial era a portuguesa. Todas as outras culturas ou grupos que não se identificassem com a cultura hegemónica ficavam à margem dela. Porque a cidade é constituída por diversos grupos homogéneos, estes procuravam sempre criar espaços, ainda que pequenos como é o caso de um clube, mas que condensavam toda a complexidade cultural dessa comunidade. Esta atitude leva a que grupos minoritários apesar de se submeterem a certos princípios mantenham os aspectos mais originais. O exemplo do clube chinês é o mais evidente na cidade da Beira. Apesar dos chineses aprenderem português, jamais deixaram de se comunicar em chinês, utilizar pauzinhos, e outros rituais básicos da sua identidade.
3- Enquanto se assistia ao desenvolvimento urbano e cultural da cidade, os nativos eram cada vez mais isolados deste processo. Como resultado, a participação no desenvolvimento cultural no centro urbano por parte da maioria negra era quase nula.
Enquanto hindus, ingleses e outras nacionalidades se preocupavam em criar seus clubes, os indígenas não tinha espaço para promover a sua cultura no centro urbano. No entanto, na periferia, as culturas típicas eram praticadas com muita euforia, o que ficou demonstrado no período imediatamente a seguir à independência nacional.
4- A cidade da Beira, nesse período, atingiu elevados níveis de desenvolvimento cultural nas diferentes manifestações culturais, sobretudo nas artes plásticas como pode ser constatado em quase todos os lugares públicos da cidade. A música, o teatro e a literatura tiveram o seu maior impulso com a inauguração do ”Auditório-Galeria e Arte” a 20 de Agosto de 1967.
5- O estágio actual de desenvolvimento cultural é mau. Apesar de haver esforços empreendidos pelos artistas, não existe correspondência por parte das autoridades quer municipais quer governamentais, nem por parte de qualquer outra instituição.
Por exemplo, o atelier da Casa Provincial de Cultura que foi concebido para os artistas plásticos, foi dividido para outros fins, depois de, em 2003, os artistas serem chamados para retirarem as suas obras. A sala de exposições que acolhia mostras quer individuais quer colectivas está abandonada.
Também o CMB, presta mais atenção ao desporto do que à cultura em geral e particularmente às artes plásticas. Em nenhum momento foi realizado nesta cidade um evento de artes plásticas de relevo onde o CMB comparticipe como acontece com as realizações desportivas.
Mais grave ainda é que as iniciativas da sociedade civil são tidas como um desafio à Casa de Cultura e por isso as autoridades tentam marginalizá-las.
Por exemplo, a "Galeria Bangwé”, que surgiu como uma forma de minimizar o problema de espaço por um lado e para divulgar o que se faz na Beira nas artes plásticas por outro, e a própria "Casa do Artista" foram consideradas pelas ditas autoridades da Cultura como um desafio para enfraquecer as actividades da Casa de Cultura.
Este comportamento, impede o desenvolvimento das artes plásticas na cidade da Beira.
(*) Geógrafo e artista plástico, membro fundador da Casa do Artista
Beira passa a cidade
Em 1907, "tendo em consideração o notável desenvolvimento que tem adquirido a povoação da Beira", "atendendo à excepcional importância da sua posição e manifesto valor do movimento do seu porto e do tráfego do caminho de ferro" e para comemorar a visita que lhe iria fazer o Príncipe Real D. Luís Filipe, foi a mesma elevada, por decreto régio de 29 de Junho, "à categoria de cidade com a denominação de - Cidade da Beira".
Finalmente, por decisão da comissão administrativa da Câmara Municipal da Beira, na sua sessão de 27 de Maio de 1943, foi adoptado o dia 20 de Agosto, data da instalação da sede do comando militar de Aruângua, no "sítio de Chiveve", como seu feriado municipal, o vulgarmente chamado dia da cidade.



