27/06/07

Crónicas de José Cardoso (2)

No ano do meu enlace em 1957, com a Laura, minha actual esposa, José Soares Martins, sobrinho do Bispo da Beira, D. Sebastião Soares de Resende, assume a chefia da redacção do “Diário de Moçambique” emprestando-lhe uma dinâmica e uma cultura de mudança, que muitas esperanças trouxeram aos citadinos e alarmaram sobremaneira as hostes fascistas da “União Nacional” e os governos provincial e central da colónia.

Alguém teria dito na altura, que a redacção do “matutino” era o ponto de encontro do aguerrido e numeroso grupo do “reviralho” do sítio. Este facto, e as notícias que íamos recolhendo todos os dias, das furtivas escutas nas emissoras que emitiam em português e que alguma confiança nos mereciam, como as da “Rádio Brazzaville”, “Rádio Moscovo” e “B.B.C.”, davam-nos algum alento e a certeza de que a mudança estava próxima e que era irreversível. Também as notícias inseridas num ou noutro jornal estrangeiro como o “L’Humanité” ou o “Portugal Democrático”, este último editado em São Paulo no Brasil, e ambos de circulação subterrânea, limitada e clandestina. Chegavam-nos às mãos por diversas vias, e constituíam, sem sombra de dúvida, motivos mais do que suficientes para manter em polvorosa desusada os “unionistas” e de uma maneira geral todos os colonos ineptos, vazios de ideais e de bom senso.

Preocupado o poder com o evoluir de uma situação desumana e monstruosa que ele próprio criara, alimentando práticas arbitrárias e devaneios de grandezas territoriais, tão impossíveis quanto injustas, começava a dar mostras de fraqueza e de incapacidade para controlar e conter a voracidade do “monstro” que ele próprio concebera, e que acordara dos sonos mitológicos ancestrais, que séculos de escravidão e letargia, transformavam em lendas.

Quanto a nós, os “democratas” – as aspas são voluntárias, porque a experiência me dizia que nem todos o eram nem a muitos reconhecia condições para que o viessem a ser algum dia -, a conjuntura era propícia para nos manter mais unidos, activos e confiantes. Pelo correio, ou porque a vigilância abrandasse em alguns momentos na censura às encomendas postais, ou porque não considerassem algumas publicações de carácter cultural potencialmente perigosas, recebíamos com alguma regularidade a “Vértice” e a “Seara Nova” que muitos de nós assinávamos. Com mais regularidade a primeira que a segunda, talvez pelo que esta pudesse sugerir nas cabeças dos censores, com a combinação das “explosivas” palavras “Seara” e “Nova”. Vocábulos transcendentais de múltiplas leituras.

Estes jornais e revistas corriam de mão em mão cumprindo a sua missão de informar e educar consciências, mas sobretudo de estimular ideias e acções solidárias, a exemplo da “Chama Olímpica” que de mão em mão percorre países e gentes, proclamando os nobres ideais da solidariedade, e da necessidade de todos se conservarem sãos, tanto de corpo como da mente.

Mantínhamo-nos, ou fazíamos por isso apesar de tudo, razoavelmente bem informados sobre a evolução dos acontecimentos, quer dos que aconteciam na região, que nos eram escamoteados por uma censura feroz, umas vezes cega, outras imbecil, quer nos que ocorriam no resto do mundo, que também passavam pela mesma peneira de rede fina.

A 14 de Fevereiro de 1958, o “Diário de Moçambique” escrevia: “ Esta África está na encruzilhada da sua história (...) e teima-se em continuar em África a fazer colonialismo!...” Inesperada e ousada opinião numa época e num regime em que, o simples facto de a ter não era saudável, e muito pior era publicá-la em letra de forma.

Outras incursões pela verdade e pela denúncia de abusos, injustiças e despotismos, não tivemos oportunidade de as ler, a não ser através de cópias clandestinas e panfletárias que passavam de mão em mão. A acção das tesouradas da censura, obrigavam o jornal a aparecer a público com grandes manchas a negro, nos lugares onde se presumia deverem estar crónicas, artigos de opinião ou simplesmente notícias importantes e de interesse público, que não interessava ao regime dar a conhecer, porque eram libelos insofismáveis contra o regime e o acusava. Porém, até essas manchas negras ou brancas, a dada altura, pela frequência com que apareciam, passaram a ser por sua vez censuradas e proibido o seu uso como subterfúgio, interditando ao jornal a possibilidade de, dessa forma, informar o leitor da frequência e extensão dos cortes do censor e do tamanho da sua prepotência e desavergonhice.

Apercebíamo-nos no entanto com natural satisfação, que o “Diário de Moçambique” começava a ser o “calcanhar-de-aquiles” dos poderosos e dos políticos de direita, que defendiam uma imprensa cinzenta, cobarde e bajuladora, tanto da local, representada pelo “Notícias da Beira” do Victor Gomes, como pelo “Notícias” de Lourenço Marques, capital da “colónia-província”, representado pelo capitão Vaz!

A isso se recusava a sua direcção, nas pessoas de D. Duarte de Almeida – o elefante branco como era conhecido -,e José Soares Martins, mas também dos seus trabalhadores como o Rui Cartaxana, o Fernando Gaspar, o Correia Paulo e o novato e prometedor Mário Ferro, que são tantos quantos os que a minha memória ainda conserva. Ele provocava ainda sem dúvida, o desnorteio das “bússolas” orientadoras da polícia política e dos “bufos” sem política, que começavam a aperceber-se da existência de um preocupante avolumar de alvos para tão poucas munições.

Do “Arquivo Histórico de Moçambique” de Outubro de 1989, retiro, com a devida vénia, alguns apontamentos de um artigo de José Soares Martins, como contributo para a história do jornal: “Se o “Diário de Moçambique” viria, a partir dos últimos anos da década de 50, a ser considerado como um órgão de imprensa extremamente incómodo para a autoridade colonial, que, por isso, o carregou de multas e o suspendeu por várias vezes (a última das quais pelo espaço de 30 dias), de facto, nos primeiros tempos da sua publicação, nada indicava tratar-se senão de um jornal perfeitamente acomodado ao “establishment”. Mais adiante continua: “ Foi um escândalo que o jornal, e um jornal propriedade da igreja, na campanha eleitoral em que interveio o general Humberto Delgado, tomasse uma posição liberal, não privilegiando o candidato oficial.

O que hoje é ridículo era, então, motivo para represálias e dissabores de toda a ordem. Como era grande escândalo nesse tempo, um jornal apesar de tudo produzido em África, relevar os acontecimentos da política africana. Como lhe provocou suspensões o atrevimento de noticiar os primeiros acontecimentos que assinalaram o começo da luta de libertação.


In “Memorandos da Vida”III Volume, de José Cardoso

19/06/07

Erosão nas praias

Invasão da praia pelo mar

... Os sinais de erosão que observei, a inclinação da praia, e pobreza das dunas de areia tanto pelo que respeita a extensão como a peso, e o baixo nível a que se encontram os terrenos situados por detrás dessas dunas, nível que regula pelo das preia-mares de águas vivas vulgares ou poucas polegadas mais alto, tornam indispensável a adopção tão rápida quanto possível de quaisquer meios de defesa. Pelos sinais visíveis na praia pude verificar que as marés mais altas alcançaram já a base daquelas dunas, as quais, conforma tive ocasião de observar, têm apenas 33 a 36 pés de largura na base e cerca de 4 a 5 pés de altura.
Segundo o relatório elaborado em Julho de 1910 pelo ..., o mar tem avançado continuamente e em poucos anos árvores que dantes estavam em terreno firme vêem-se agora na praia.
É evidente que o primeiro passo a dar no sentido de combater a erosão é averiguar quais sejam as causas que a determinam, mas como para isso seriam indispensáveis observações feitas durante um período de tempo muito mais longo do que aquele que a prudência aconselha que se espere para tentar qualquer medida no sentido acima mencionado, torna-se necessário assentar desde já em qualquer coisa, de modo a serem postas em prática ao menos medidas experimentais tendentes a defenderem das invasões pelo mar os terrenos por detrás das dunas.
Há dois aspectos principais sob que pode manifestar-se a erosão. Pode ser determinada apenas pela acção das marés e do vento desde um pouco abaixo do nível da baixa-mar até ao da preia-mar, ou pode ser devido ao abaixamento do fundo do mar lá fora e à gradual aproximação de maiores fundos em direcção à praia. Se a razão for esta tornar-se-á extremamente difícil, se não impossível, remediar o caso, pois que o mar iria infraescavando e lançando por terra quaisquer obras de defesa que se construissem.
Eu creio, porém, que toda esta costa tende a elevar-se de um modo muito semelhante ao que se observa mais ao sul, na Zululandia, e não me parece que na foz de um rio como o Pungué, cheia de materia aluvial, possa ter lugar um grande abaixamento, especialmente a uma pequena distância para o norte. E os aspectos dos bancos indicados na carta do Almirantado tende a confirmar esta suposição.
A formação do banco na Ponta Gêa denota igualmente a deslocação para sul das areias que formam a praia a um nível superior ao da baixa-mar, pela acção do vento e da ressaca; e por isso se me afigura que a erosão se dá apenas na faixa compreendida entre um nível um pouco inferior ao da baixa-mar e o da maré cheia, dando assim lugar à grande inclinação que a praia tem actualmente.
O único remédio para este mal está a meu ver na construção de "groynes" (quebra-mares) e, talvez mais tarde, de uma pequena muralha acima da linha do preia-mar.
Como está averiguado que a fuga das areias da praia tem lugar em direcção ao sul, e que a conservação do banco da Ponta Gêa está dependente dessa condição, torna-se necessário que a construção dos "groynes" se comece a partir daquela extremidade da praia e se continue gradualmente para leste. Se se procedesse pela forma inversa e se começasse o assentamento dos "groynes" em qualquer ponto a leste e se fossem construindo em direcção à Ponta Gêa aconteceria que esses "groynes", sendo bem construídos, impediriam a marcha das areias da paria e aumentaria a erosão ao sul dos mesmos, isto é, para os lados da Ponta Gêa ...

in relatório de 1911 do célebre engenheiro inglês capitão Calhcart W. Methven

18/06/07

Crónicas de José Cardoso (1)

A 24 de Dezembro de 1950, quatro anos após o meu desembarque na Beira, surgia na cidade um segundo diário, o “Diário de Moçambique”, cujo proprietário era a Diocese da Beira.

Pouco tempo depois, em 1952, o engenheiro Jorge Jardim, afilhado de Salazar e membro influente do partido único a “União Nacional”, fixava-se na Beira, mais propriamente no Dondo, onde tinha interesses e “tachos” como os da “Lusalite de Moçambique”, e onde constituiria o seu quartel-general, para as actividades de que estava incumbido por alguém e de outras, possivelmente mais obscuras, de sua própria iniciativa.

Aparece como deputado à Assembleia Nacional Portuguesa, na qualidade de representante da “colónia”, que entretanto vestira como todas as outras, novas roupagens de enganosa e inventiva nomenclatura: a de “Província Ultramarina”, numa tentativa de alterar o “nanismo” de um pequeno corpo da Europa mediterrânica, para o “gigantismo” de um território, superior em duas vezes e meia aproximadamente, à soma das áreas ocupadas pela Espanha e pela França.

Já neste tempo o fenómeno endémico da “obesidade” física, que hoje preocupa as classes médicas de muitos países ricos, era doença que não preocupava as classes políticas da metrópole colonial, no que se refere à dimensão do país, mostrando ter “mais barriga do que olhos da razão”, quando propalavam obscenamente uma falsa e utópica grandeza territorial, com a condescendência de uns e a conivência de outros, igualmente interessados na manutenção das suas áreas de influência, dos seus interesses económicos e dos seus impérios.

Deixávamos portanto de ser por simples “decreto”, odiosos e refinados “colonos” para nos transformarmos em bons samaritanos, como que a modos de “provincianos” ou coisa que o valha, em obediência ao novíssimo vocabulário do “faz de conta”.

Os pretos, esses, deixavam de ser colonizados para ser “provincianilizados” e o mundo que fosse “pró carvalho que os carregasse”, ou pentear macacos porque, nestes miraculosos e abençoados mimetismos, “quem tem um olho é rei” e o rei, ‘tá mais que visto, é quem tem o ceptro do poder, a cruz de Cristo ao peito e a decisão num “cospe fogo moderno de repetição”, a tiracolo. Tudo o resto é estúpida ignorância de plebeu e de sabidas heresias de cortesã, como diria Ramalho Ortigão: “Ide resplandecer... no ceptro dos reis e nas chinelas das cortesãs”. (em A Holanda p.183).

Mas não resisto em voltar a referir-me a essa famigerada personagem que tanto odiei nos silêncios das minhas clandestinas cogitações, o Jorge Jardim que, como se verá mais adiante, teria sido para a Beira e para Moçambique, como um tumor maligno, com ramificações obscuras e perigosas de sua lavra, inspiradas nas sinistras “escolas” do nazi-fascismo de Salazar, seu padrinho, onde era mestre e principal ideólogo.

25 de Agosto de 1954, surgiam no éter limitado do espaço beirense, as ondas hertzianas da “Rádio Pax”, estação emissora também anexa à diocese que, a par das notícias escritas do “Diário de Moçambique”, constituíam reais ameaças ao “status quo” da sociedade beirense, o antivírus possível às acções corrosivas dos “contras”, que tentavam parar com as mãos, os ventos da evolução irreversível da nossa história e até da história do mundo, consubstanciada nos conflitos caseiros de uma cidade que se afirmava dinâmica, inconformada e progressista, tanto quanto retrógrada e reaccionária se apresentava por banda dos pregadores da soberba e da imoralidade.

In “Memorandos da Vida”, III Volume, de José Cardoso.

09/06/07

Início do Porto e Caminhos de Ferro da Beira

De início não existiam quaisquer facilidades além do fundeadouro de difícil acesso e o abrigo natural que oferecia o estuário do Pungué, mas tudo evoluiu com o desenvolvimento do caminho de ferro de penetração. A carga era simplesmente baldeada para lanchas que seguiam a reboque para Fontesvilla (junto á actual ponte ferroviária do Pungué) ou eram descarregadas na praia destinadas à incipiente cidade que começava a tomar forma e a ensaiar os primeiros passos, muito difíceis, perante a ameaça, sempre presente, da força devastadora do mar.
A Beira Railway Company começou em Setembro de 1892 a construção da do caminho de ferro a partir de Fontesvilla para Umtali (actual Mutare). Inicialmente foram empregues um grande numero de trabalhadores indianos e chineses para a construção da linha, mas a taxa de mortalidade (principalmente devido à malária) era tão elevada que tiveram de passar a recrutar trabalhadores locais.
Só mais tarde em 1895 se faria o troço Beira-Fontesvilla. Era uma linha de bitola reduzida (2 pés , 0,607 m).

À medida que a linha férrea era assente, abriu-se paralelamente uma estrada por onde transitaram velhas diligências australianas do tipo Cobb, emprestando o mesmo colorido dos tempos da corrida para o ouro na Austrália e na América do Norte.
Em Maio de 1899 ficou concluída uma linha de via larga (1,067 m) de Umtali para Salisbury (actual Harare) e só então iniciou-se o alargamento da linha para a Beira a partir de Umtali.
Em 1899 rebentou a guerra entre os “boers” e os ingleses e ao princípio isso pouca influência teve na linha, mas com as primeiras vitórias “boers” e depois o cerco posto a Mafeking, que fez cortar a linha do sul de Bulawayo (atravessando o actual Botswana), o panorama mudou por completo em toda a Rodésia, bem como na região situada ao sul de Bulawayo, que se tornou inteiramente dependente da linha da Beira e do seu porto.
Por essa linha, cujo alargamento de bitola só estava realizado entre Umtali e Bamboo-Creek (posteriormente Vila Machado e actual Nhamatanda), passou todo o fluxo do esforço de guerra britânico contra os “boers”. Por ali passaram contingentes de tropas australianas, neozelandesas, uma bateria de artilharia canadiana e outras tropas inglesas levadas em socorro de Mafeking. Mais de 7.000 homens do exército inglês foram transportados pela linha Beira-Umtali por essa época, além de muitas centenas de cavalos vindos da Hungria e da Argentina e mulas da Argentina e do Texas.

Fonte: História dos Caminhos de Ferro de Moçambique, Alfredo Pereira de Lima, 1971.

30/05/07

Cine-Clube e Auditório (2)

As instalações adquiridas por um processo que hoje à distância considero de compulsório e fruto de um sentimento de medo generalizado, que evitou que os seus legítimos proprietários, os sócios das três agremiações que constituíam o “Auditório Galeria e Arte”, lutassem pelos seus direitos e os seus sonhos. Ocupado e de “mão beijada”, satisfaziam pelos vistos as necessidades culturais da Direcção Provincial de Cultura que ao tempo, gatinhava ainda na busca das raízes de uma moçambicanidade cultural, mas caminhava a passos largos na destruição de outras culturas que se recusavam em assumir como património conquistado mas que, no mínimo, deveriam ter sido respeitadas porque afinal, três décadas depois, viriam a assumi-las com exageros de interpretação e de tolerâncias subordinadas!...
De uma coisa estou seguro. O processo não foi regular, não foi justo, nem obedeceu a critérios de legalidade. As nacionalizações, tanto quanto sei, referiam-se a prédios de rendimento e a outros, que não o sendo, se encontrassem abandonados por ausência dos seus donos, que preferiram abandonar o país definitivamente. O “Auditório” não era um prédio de rendimento nem se poderia considerar de abandonado. De entre os mais de l.000 associados que o constituíam e ajudaram a construir, muitos eram ainda os que viviam na Beira e que desde sempre se consideraram como moçambicanos, por opção ou nascimento. Uma reunião com eles, convocada pelos responsáveis provinciais da cultura, era o mínimo que se poderia esperar, para legalizar a situação e dar ao “Auditório” o encaminhamento que fosse decidido, para bem da cultura e da revolução.
Se estou errado na análise que faço sobre o assunto, que me corrijam os expertos da política e das leis deste país que é também o meu, para que dê a mão à palmatória se for caso disso.
* * *
Na realidade, pondo de parte os acabamentos, o edifício estava completo e funcional, com salas e oficinas para pintura, desenho e escultura, salões espelhados para o ensino e prática de “ballet” e outras danças, diversos departamentos para reuniões e secretarias destinadas a cada uma das agremiações que faziam parte do complexo, além de um café-bar comum e finalmente, uma sala de espectáculos com cerca de 600 lugares, um palco que na época, foi considerado um dos maiores do País, e uma cabina apetrechada com projectores de 16 mm e de super 8, bem como os respectivos sistemas sonoros.
Todas as salas estavam apetrechadas com o equipamento indispensável para o seu funcionamento e o palco, de uma tela gigante de transparência e de um “órgão” de luzes com cerca de uma quinzena de projectores, desde os “babys” aos pesados “canhões” e às “panelas”, como dádiva, a nosso pedido, da fundação “Calouste Gulbenkian”.
As pesadas cortinas que fechavam a “boca de Cena” foram confeccionadas pela Laura que a elas dedicou muitas horas de trabalho à frente da sua máquina de costura, tal como muitos outros associados o haviam feito noutros misteres.
A larga escadaria dava acesso a um átrio amplo e totalmente coberto onde, à direita, se encontravam as salas de trabalho do Cine-Clube, seguindo-se-lhes o café esplanada, voltado para um pequeno jardim interior a céu aberto. Um pequeno lago artificial repleto de peixes de água doce, que evoluíam em redor de uma estátua esculpida em pedra, ou melhor, em material que a sugeria, feita pelo Jorge Vasconcelos, e que representava, na figura de uma jovem semi-nua, a tranquilidade, a arte e a inocência, complementava o pequeno e agradável espaço verde, sobranceiro à esplanada do café-bar. Para além deste espaço, encostado às margens do Chiveve ficava o bloco que comportava as salas de “Ballet”, da música, da pintura e da escultura.

Na fachada principal, a parede que nos ficava à direita da escadaria que dava acesso ao átrio, estava totalmente preenchida por uma bela e elucidativa pintura da autoria de Malangatana, executada nos princípios dos anos 70, aquando de uma das suas visitas que fez à cidade, tendo ficado hospedado em casa da Maria Helena e do Álvaro Simões.
Durante muitos anos, era na casa a que me refiro acima, nas Palmeiras, antes da Maria Helena enviuvar do Joaquim José Elias, que um grupo de amigos se reunia para conversar e ouvir boa música. Recordo-me dos irmãos João e José Afonso, do Álvaro Simões, do arquitecto Ramalhete, do Noronha Marques, do Rafael Nunes de Carvalho e mais recentemente dos jornalistas José Catorze e Peixe Dias, entre muitos outros.
Com a obra de arte a que me referi - o mural pintado na parede do “Auditório” -, surgiram logo a seguir ao seu término alguns problemas com as autoridades locais que, incomodadas com o que pudessem querer dizer as suas figuras, num momento crucial de luta armada pela libertação do povo e a independência do território, de confusão política e social, nos pressionaram para que a eliminássemos com umas borradelas de tinta neutra. A justificação era a de que, ela representava a resistência do povo através dos tempos, e presumia, nas “entrelinhas” das figuras amarguradas, por onde espreitavam armas e decisões, a sua próxima libertação. Mas o que mais os perturbava parecia ser o tamanho do mural, além da sua simbologia, porque era ampliada para se ver à distância, tomando proporções intoleráveis de uma ostensiva provocação.
Por sinal, a leitura que fizeram da obra era correcta porque os simbolismos utilizados eram por demais evidentes e o seu autor ao criá-la, demonstrara coragem assim como nós, que recusámos em fazer-lhes a vontade, não cedendo às suas pressões e curiosa e estranhamente tímidas ameaças. Talvez porque o momento conturbado por indefinições e incertezas porque passávamos, devido ao recrudescimento da luta armada pela libertação do país, não fosse propício a tomar decisões, normalmente mais prepotentes e drásticas e ficaram-se por aí. A obra lá continua, esbatida pelo tempo, pelas intempéries, pela humidade salubre do “Chiveve”, mas sobretudo por ausência de restauro e abandono total.
Curiosamente, à coragem que precisámos ter na altura, para não nos subordinarmos às pressões das autoridades coloniais, contrapôs-se mais tarde uma apatia generalizada e até a empatia do contrário, por acção do fenómeno do “deixa andar” que se apegou como tinha na sociedade moçambicana do pós independência, pseudo-revolucionária nos primeiros tempos e depois acomodatícia à “democracia” global que lhe foi imposta, como lapa mediterrânica em rocha dura.
Os anos vão passando e pelo andar da carruagem que é muito lenta, não aproveita ninguém para saltar no apeadeiro das decisões e desembaraços, interessado em convidar o autor do mural, o velho mestre Malangatana, para dedicar um pouco do seu tempo a restaurá-lo. Não pode nem deve esta obra de arte, se ainda existe, ser considerada como herança do colonialismo, como muita coisa foi rotulada para justificar abandono e vandalismos de toda a espécie. Os responsáveis neste País pela Cultura, deviam ter mais país e mais cultura dentro deles, para que pudessem respeitar uma e outro.
Compete ao Ministério de tutela que “herdou” o complexo do “Auditório Galeria e Arte”, assumir a responsabilidade da sua conservação e restauro, incluindo o mural que faz parte do mesmo património. Mas também competia ao autor tomar iniciativas próprias para restaurar e conservar a sua obra e não a abandonar como produto menor da sua arte, porque nunca o considerámos como tal, antes pelo contrário. A sua arte e o seu labor, surgiu como fruto maduro de um embondeiro que nos deu sombra e nos ajudou a tomar consciência do que acontecia no país. O abandono da obra, como sucede com muitos que nada reconhecem nem se reconhecem a si próprios, é como que abandonar um filho indesejado e pouco querido, por ter nascido fora de tempo e com sequelas de distúrbios emocionais que o indiciam como fruto indeiscente. Perspectiva terrível que, de tão inglória e inoportuna, me recuso em aceitar como a adoptada pelo meu velho amigo Malangatana Valente!...

Cine-Clube e Auditório (1)

O realizador cinematográfico José Cardoso, nasceu a 6 de Abril de 1930 e viveu na cidade da Beira de 1946 a 1976. Foi fundador do Cine-Clube da Beira. Em 1976 rumou para Maputo para o Instituto Nacional de Cinema. Realizou o primeiro filme de grande metragem integralmente moçambicano "O Vento sopra do Norte". Criou a empresa "Publicita".


excertos dos "Memorandos da Vida - Volume III" de José Cardoso

No “Grupo de Amadores de Cinema da Beira” a que já me referi, tomávamos consciência de que, afinal, a diferença entre o sonho e a realidade, não era tão curta como julgávamos a princípio, embalados pela impetuosidade cega da juventude, tão confiante quanto imprudente e ingénua. Assim, o projecto impossível que tínhamos inicialmente, de querermos transformar a capital de Manica e Sofala numa “Califórnia” africana nas margens do Chiveve, deu lugar a outro mais realista e de maior impacto para grande parte dos citadinos e em especial para um núcleo de amigos mais sensatos e experientes, que conservavam os pés bem assentes na terra e a cabeça liberta de quimeras absurdas.

Juntámos as nossas ideias e energias a outras, igualmente motivadas mas mais judiciosas e objectivas, e lançámo-nos na criação de uma organização afim, mais viável e abrangente, que seria um “Cine-Clube”, devidamente filiado – porque lhe dava um estatuto de maior seriedade - na Federação Portuguesa dos Cine-Clubes.

Reconhecemos a importância deste projecto, que poderia aglutinar um maior número de pessoas, receber apoios e o reconhecimento da “Federação Portuguesa”, que estava por sua vez filiada na “Federação Internacional dos Cine-Clubes”, criada em Setembro de 1947, durante a realização do Festival de Cannes, no decorrer de um “Congresso Internacional” em que estavam representados 13 países, entre os quais Portugal.

Em 1958, nascia então o “Cine-Clube da Beira”, que em poucos anos viria a ser o segundo maior de todo o território português de aquém e de além-mar, logo a seguir ao “Cine-Clube do Porto”, quer em número de associados, quer em quantidade, qualidade e importância das suas sessões cinematográficas e de outras realizações congéneres.


Em resumo e de acordo com a definição da Federação Internacional dos Cine-Clubes "É considerado um Cine-Clube toda a associação com fins não lucrativos, tendo por objectivo principal a projecção de filmes em sessões privadas. O das trocas culturais cinematográficas entre os povos e para o encorajamento do filme experimental. Os Cine-Clubes e Federações não podem, em caso nenhum, ter fins lucrativos ou comerciais.” Em conformidade com esta definição, a produção de filmes passou a ser da responsabilidade do Cine-Clube da Beira, a coberto da sua "Secção de Cinema Amador" que passou a publicar um “Boletim” informativo, terminando assim a vida efémera do “Grupo de Amadores de Cinema da Beira”.

É importante registar para conhecimento dos que não tiveram o privilégio de partilhar connosco estes admiráveis tempos, que foram tão importantes para a cidade, para o nosso crescimento e as nossas vidas, os nomes de alguns dos companheiros que tornaram possível a criação do “Auditório e Galeria de Arte” e em particular o “Cine-Clube da Beira”, que foi o grande dinamizador, o “sangue e a alma” que lhe deu vida e um estatuto ímpar no panorama cultural da cidade.

Dos que me lembro - porque da maioria deles fui amigo e camarada, com quem, naturalmente, me relacionei com maior frequência e intensidade -, aqui deixo registados os seus nomes porque o merecem, com o prazer que nos dá o sentimento de um dever cumprido e para que as novas gerações “Chivevianas” se lembrem dos seus nomes, como exemplos de dedicação e luta em prol da sua cidade que tanto amavam mesmo na condição de colonos e que, na sua óptica de apaixonados, era a melhor de todas. Na “Galeria de Honra” que proponho de forma aleatória, constam os nomes de: Joaquim José Elias, João Afonso dos Santos, Hernâni Rodrigues, Álvaro Simões, Nunes Cordeiro, Noronha Marques, Fernando Couto, Carlos Ferreira, António José Gomes Martins, Artur Crespo, Rafael Nunes de Carvalho, Francisco Maia, Marco António, Celestino Senes, António Sopa, Almeida Valgode, Figueiredo Jorge, Artur Costa, e as respectivas esposas dos que eram casados evidentemente, e alguns outros de que não me ocorrem os nomes, além de mim próprio que fui sócio fundador nº 6 do “Cine Clube”, e de todo o grupo que me acompanhou no primeiro projecto de cinema, o “Grupo de Amadores de Cinema da Beira” a que me refiro antes, como o Luís Aboim e o Gil Delgado.

Durante alguns anos, a sede esteve instalada no primeiro andar do prédio da “Associação Comercial”, um dos que ladeavam a Praça do Município e era aí, num dos seus salões, que se realizavam as sessões para as crianças, com filmes indicados para as suas idades e palestras esclarecedoras sobre os temas, em obediência às preocupações educativas porque se devem gerir os Cine-Clubes. As sessões para os sócios seniores, numa dada altura, passaram a ser nos cinemas “Olympia” e “Palácio” que alugávamos, porque o número de sócios era já significativo, (aproximava-se do milhar), com tendências para, num breve trecho, ultrapassar essa marca.

Assim, o “Cine-Clube da Beira”, na área da educação cinematográfica, exibição de filmes de qualidade e da produção cinematográfica amadora; o “Grupo Dramático Actor Eduardo Brasão” e o TAB, “Teatro de Amadores da Beira”, no desenvolvimento e divulgação das artes cénicas e ainda o “Centro de Cultura e Arte”, no âmbito da música, da dança e das artes plásticas, em reuniões conjuntas que se prolongaram por algum tempo, para limar arestas e encontrar consensos, decidiram - com o apoio da população mobilizada para o efeito e a aderência de alguns grupos económicos que se prontificaram em apoiar a iniciativa -, construir o "Auditório e Galeria de Arte", de características polivalentes, que pudesse acolher o conjunto daquelas agremiações e dar-lhes capacidade material e espacial para a efectivação regular de todas as suas actividades em condições ideais.

Em conjunto se estudaram as necessidades presentes e futuras em termos espaciais, para satisfazer as exigências culturais a que todas elas se propunham. De posse desses dados, o arquitecto Ramalhete ou Garizo do Carmo (não posso precisar qual deles foi), ambos amigos e associados a todas as iniciativas que respirassem preocupações culturais, ofereceu-se para fazer o projecto gratuitamente.

Há uma ideia actual e generalizada de que o “Auditório” teria sido construído com o apoio financeiro da “Gulbenkian”. Nada mais falso e injusto. O Álvaro Simões a quem pedi recentemente que confirmasse ou desmentisse as recordações que tinha sobre o assunto, de que tal obra se deveu exclusivamente à dedicação e ao trabalho de uma boa parte da população da Beira, respondeu-me sucintamente: “o apoio que tivemos da “Gulbenkian” foi em equipamento, nomeadamente um Órgão de luzes, alguns projectores de iluminação, um Ciclorama e uma boa colecção de filmes do “Charlot” e livros especializados sobre cinema.

O “Auditório” foi construído com o esforço conjunto de todos nós (os “tesos”), que conhecíamos alguns que tinham “algum” e contribuíram com dinheiro e trabalho e com materiais de construção doados por algumas empresas.”

Portanto, depois de colocados os pontos nos ii, entreguemos definitivamente o “seu a seu dono”.

Ainda houve tempo para provar que a obra era funcional para as diferentes actividades instaladas, embora nunca tivesse sido concluída até hoje, passados 44 anos, nalgumas áreas de lazer que se ficaram pelos pilares e em pormenores de acabamento. Da nossa parte, por falta de mais apoios e financiamentos, que foram sendo reduzidos à medida da exagerada lentidão com que decorriam as obras e da sua imprevisível conclusão, que levaram gradualmente ao cansaço e à desmobilização dos doadores e por comodismo, da parte dos que se seguiram a nós, após a independência do País em 1975, por ter sido incluído no lote dos imóveis nacionalizados por presumível abandono dos proprietários.


Dele se assenhoreou o governo para aí instalar a “Casa da Cultura”, desinteressando-se o ministério de tutela em concluir a obra. Teriam achado penso eu, que o “Auditório”, tal como o tínhamos deixado e eles tomado de assalto, era suficientemente funcional e que não valeria a pena gastar tempo nem dinheiro - aquele porque implicava dedicação e trabalho e este porque era escasso para as necessidades de um país que renascia das cinzas de um passado colonial -, com pormenores de somenos importância e perfeitamente dispensáveis na sua lógica acomodatícia. A política do deixa andar, infelizmente, tinha-se manifestado muito cedo, na madrugada de uma revolução que ainda dormia a sono solto, sonhando em demasia!...


texto gentilmente cedido pelo autor


T


29/05/07

A BEIRA em 1891 e 1892: Vista por António Enes (2)

Uma visita à Beira

Já havia um panorama de povoação a impor-se à vista. Tinha sido varrido do pontal do Chiveve o montão de lonas pardas e encerados negros com que se abrigara o corpo expedicionários, e sobre o seu tapete fulvo prolongavam-se duas fileiras de casas de coberturas vermelhas e paredes verdes, apaineladas por janelas de ombreiras e caixilhos brancos. Mais para o fundo, num terreno descoberto à borda do rio, estampava-se na tela espessa do arvoredo o perfil duma edificação com soberbias e galanices palacianas, diante de cuja frontaria verdejavam debuxos dum jardim, donde subiam trepadeiras e enroscavam-se nas nervuras dum caramanchão abobadado e a entretecerem um gradeamento, dentro do qual passeava uma sentinela de arma no braço. Para o lado da antiga residência do comando militar do Aruângua, formavam pinha as construções, os tapumes, os armazéns, os esqueletos ainda nus de novas vivendas e sobre esse confuso acervo de paredes, de tectos, de janelas, de portas, de toldos, de estacarias, de formas, de linhas, de cores hiantes, ondulavam bandeiras de muitas tintas, algumas com letreiros flamantes. Pelo país fora na direcção da Ponta Gêa a cortina de vegetação estava de quando em quando remendada com quadrados encarnados ou cinzentos de edifícios. Os barracões da alfândega tinham tomado uma aparência mais civilizada, pintado o seu zinco, eliminadas as coberturas de colmo, e saíam deles a miúdo vagonetas Decauville, que iam largar fardos e caixas nos armazéns, resvalando nos carris de ferro estendidos a todo o comprimento da povoação. Raro se entraria no porto sem lá encontra fundeado algum paquete; o «Countess of Carnarvon» sargenteava frequentemente no fundeadouro rebocando barcaças de carga; na entrada do Chiveve estavam quase sempre varadas lanchas e pangaios; montavam-se embarcações em picadeiros improvisados na praia; e as vistas que penetravam pelos arruamentos descobriam pequenos vultos, movendo-se em todos os sentidos sobre a areia. A Beira já tinha vida. Estes progressos tinham sido devidos em parte a uma acção oficial, em parte à iniciativa particular, estimulada pela febre do ouro.
Uma determinação governativa tinha transferido para a foz do Pungué a sede do distrito e do concelho de Sofala, suprimindo o antigo comando militar de Aruângua, e esta transferência levara à Beira um funcionário prestante, o tenente Alpoim, em cujo cérebro não lampejariam faculdades transcendentais de administrador, mas era laborioso, provido e arranjado como uma boa dana de casa da velha escola portuguesa, e aprendera na penúria do mato tirar grandes proveitos de mínimos recursos. Esse activo militar, constituído depositário do formidável espólio do corpo expedicionário, em cujo inventário avolumavam muitas casas destinadas ao alojamento de oficiais e soldados, que tinham ficado dispersas nas praias, tábua aqui, estaca acolá, chapas de zinco aos montões, tudo baralhado e em parte estragado, aproveitou daquela tralhoada quanto era aproveitável, descobriu utilidades no que parecia mais inútil, e não só arranjou instalações tais ou quais para os serviços públicos, se não que acudiu às necessidades de desenvolvimento da população, sem para isso tirar um real dos cofres distritais, antes assegurando-lhes um rendimento apreciável. Realizou até fantasias sumptuosas! Tendo destinado a antiga residência do comandante militar, já então desmascarada das fortificações caricatas, para hospital e farmácia, engendrou para a sede do governo um edifício relativamente vasto, ligando umas às outras e unificando diversas casas de oficiais, e prendeu-o com regalos e adornos que em nem em sonhos me atreveria a apetecer na mísera palhota em que meses antes vivera. Assim dotou-a com uma sala de jantar onde caberiam os convivas de Sardanapalo; e quem se regozijava com a sua vastidão e o seu pé direito, não percebia logo que estava simplesmente dentro duma barraca Tollet, antigo hospital que as artes de Alpoim transformara em fábrica de indigestões. O esqueleto de ferro de outra barraca semelhante aguardava que crescessem e bracejassem as plantas que o enleavam para formar um átrio abobadado de verdura. Posteriormente a fábrica ensoberbeceu-se com um pavimento superior, o primeiro que a Beira viu levantado do chão de cuja larga varanda se alongava a vista pelo mar fora. Lá dentro havia alcovas para hóspedes com belas camas de colchões de Madagáscar, mosquiteiros diáfanos, e uma sala de visitas com estofos e étajères; pequenos pátios interiores guardavam a provisão de chuva em tanques de ferro, sobre os quais esvoaçavam pombos e se empoleiravam aves de orgulhosos diademas; filtros purificavam a água; candeeiros pendentes com vidros lavrados coavam luz baça nas estâncias; comia-se a clássica canja bem preparada em louça fina de Vista Alegre. Quase todo esse luxo, porém, se não tinha vindo de Sofala, tinha em alguma parte a marca CEM que as lavagens ainda não tinham apagado. E, cá fora um colossal cevado, algum tanto simpático, costumava aproveitar a sua liberdade coçando os couros atoucinhados contra as pernas nuas dum cipaio, que fazia sentinela de honra ao mastro em que aos dias santos se arvorava a bandeira portuguesa.
Esta obra de arte veio contribuir para a morte do infeliz artista. Localizara-a mal. Situada à beira do Chiveve, o rio repassava-a de humidades e enfrascava-a nos aromas da sua vasa, além de lhe oferecer duas vezes por dia, o espectáculo do seu fundo negro sulcado por uma rede de filetes de água amarela, onde parecia estarem a borbulhar biliosas. Mas se fosse só isso! Desrespeitosas para com a autoridade, as correntes começaram a furtar sorrateiramente a areia em que ela firmara o seu alcaçar, prometendo a si próprias de ir com ele no atoleiro. Travou-se então uma luta assanhada entre o Alpoim e o rio. Por mais que ele opusesse à corrosão pérfida, estacarias, entulhos, faxinas, engenhocas, o Chiveve destruía-lhe com uma espreguiçadela todas as obras de defesa, e afinal já se entreviam ondulações de água pelas fendas do sobrado dum dos quartos. Alpoim, porém, não se rendia, e quanto lixo produzia a Beira todo ele vazava no talude esboroado para o ver nadar horas depois nos jorros da vazante. Foi essa a preocupação afanosa dos seus últimos dias. O desgraçado tinha febres, como nunca vi em ninguém. Nos acessos de frio tiritava com tal violência que a cama sacudida pelo seu corpo convulso estremecia a casa toda, e urrava, rangia dos dentes, ululava como um bando de feras assanhadas; metia medo. Tomava, porém, um pouco de quinino em bolos feitos com mortalhas de cigarros e no dia seguinte quem ia saber dele com receio de ouvir dizer que estava morto, encontrava-o à solheira na ladeira do Chiveve, com os pés cravados no lodo, dirigindo o trabalho, talvez planeado nos intervalos dos acessos, de proteger os alicerces da casa com barricas de farinha e latas de petróleo cheias de areia!
Depois de ter alojado as repartições oficiais, o incansável trabalhador armou as casas de madeira e zinco, que lhe restavam disponíveis, para as arrendar a particulares por conta do Estado, e assim remediar a falta de habitações, tão grande que estava dificultando a imigração. Fez com elas um pequeno bairro armado na ponta do Chiveve, e erigiu outras muitas nos lugares mais procurados pela população. Eram modestas, mesquinhas até, e insalubres. Semelhavam grandes barracas de banhos, medindo geralmente 10 metros por 6, e sendo esta acanhada superfície dividida interiormente em três ou quatro cubículos. Aqueciam como fornos, vedavam mal a chuva, os seus sobrados gretados recebiam todas as exalações do solo; nalgumas a chapa de zinco nem era revestida por dentro de taboado. Assim mesmo alugavam-se à porfia por fabulosas rendas, por 8, por 10, por 12 libras cada mês, para moradias ou para estabelecimentos. Alpoim tirou, pois, só dos casunchos, um rendimento anula de sete ou oito contos de réis, e, animado por este milagre financeiro, empreendeu explorar o movimento da formação da Beira para dotar a sua administração com receitas próprias, que a emancipassem do cofre central da província, sempre avaro e refilão para com os distritos. Empenhou-se exagerando até o empenho, em tirar partido de tudo quanto, no espólio do corpo expedicionário podia ter um valor realizável, e se na realidade abusou das necessidades da população também lhe proporcionou benéficas satisfações. Tendo prolongado a linha Decauville, que a expedição encetara para seu serviço, pela rua principal da vila, alugou aos comerciantes o serviço das vagonetes para descarga das mercadorias. Atamancou os fornos de panificação deixados pelas tropas, e arrendou-os à indústria particular. Extraiu receita da mais vil barraca, do mais desmanchado telheiro; fez render as embarcações; achou quem lhe comprasse por bons preços víveres avariados e sobejados do Corpo; e deste modo, tendo feito a mudança e a nova instalação das repartições do distrito, tendo desenvolvido materialmente a Beira, tendo sido uma espécie de providência, cara mas útil, dos seus habitantes e imigrantes ainda juntou nos cofres distrital e no do concelho, quantias de que os pobrezinhos nem suspeitavam a existência! Quando o visitei em fins de Maio de 1892 estava ele radiante! Tinha à cabeceira da cama, num cofre de ferro usado, também herdado da expedição, uma dúzia de contos de réis, com cujo auxílio, disse-me ele, poderia ocorrer a todas as despesas da sua administração durante mais de um ano sem pedir um real a Moçambique! Que ufania! Nenhum outro distrito da província podia gabar-se de tal façanha. A Beira era uma mina; Sofala estava independente!
Não faltava, porém, quem murmurasse da sua sovinice, e o facto é que para ter casas para arrendar desatendeu necessidades públicas. As dos serviços judiciais, por exemplo. A prisão era tão segura que um criminoso trepou pela paredes fazendo estribo dos buracos, levantou o telhado e fugiu. Ao juiz e delegado de Inhambane, então em correcção na Beira, fora dado para habitação, cartório e tribunal, um casebre onde o vento que se engolfava por baixo da cobertura fazia esvoaçar a papelada, e que ia convencendo os pobres magistrados de que havia lá dentro coisa má. De vez em quando desaparecia-lhe um processo. O delegado achou-se uma bela manhã sem a gravata e o colarinho que deixara à noite à cabeceira da cama. Entrariam ladrões? Os pretos opinavam pela intervenção dos feitiços. Depois de muitas inquirições, levantam-se tábuas do sobrado, e descobrem-se por baixo um arquivo jurídico e um guarda-roupa coleccionados pelas ratazanas.
Também os munícipes lastimavam que não tivessem maior impulso os serviços da edilidade; deve dizer-se, porém, que o diligente Alpoim, que presidia à comissão municipal, já andava tratando de construir nas ruas principais passeios de argamassa, e tinha um plano mirífico para iluminar a povoação com candeeiros feitos de latas de bolachas!
Mais seguros e valiosos eram, porém, os progressos da povoação devidos à livre iniciativa particular. Os últimos meses do ano anterior foram desastrosos para a Beira e para o seu comércio. Retirou-se o corpo expedicionário que colectiva e individualmente deixara dinheiro grosso nos armazéns e nas baiúcas; parou de todo o trânsito para o interior; a construção da linha férrea foi adiada e pareceu problemática; principiou-se a descrer das riquezas auríferas de Manica. A estação das chuvas, passou-se, pois, triste e desalentadamente nas margens do Pungue, e as inundações de Fevereiro e Março arrastaram na sua invernia muitas esperanças e confianças. Tão grossas e impetuosas foram que em Neves Ferreira alagaram as casas, obrigando um destacamento que lá esteve a empoleirar-se no vigamento das coberturas e depois a fugir quase a nado, e na Beira as águas cortaram e levaram pedaços enormes de areal; de uma vez pegaram no pátio interior dum estabelecimento comercial, com as pilhas de madeira que nela estavam arrumadas, e foram esfacelar e espalhar aquela ilha flutuante no mar e no porto.
Mas, tanto que melhorou o tempo e soou voz nas colónias do sul, que a construção do caminho de ferro estava definitivamente contratada com um tal Van-Lanne, testa de ferro da South Africa, voltou a foz do Pungué a ser demandada por emigrantes, ávidos de explorar, não os jazigos metalúrgicos, não a produtividade da terra, mas essa construção, cujos trabalhos deviam começar com a primavera. Reanimou-se então a Beira. Foram ocupados novos terrenos estendendo-se a ocupação pela praia fora perto da Ponta Gêa, e os que eram situados nas proximidades dos lugares de desembarque tornaram-se objecto duma especulação desenfreada. Chegou-se a pagar centenas de libras pelo simples título de posse provisória de meia dúzia de metros quadrados de areia!
Improvisaram-se mais casas, inauguraram-se mais estabelecimentos mercantis, abriram-se cafés e restaurantes, passaram pelas alfândegas montanhas de latas de conservas e de garrafas de bebidas alcoólicas, estrearam-se algumas pequenas indústrias das mais indispensáveis nos centros de população. Em volta da chusma dos pequenos comerciantes a retalho apareceram agências de algumas casas mercantis importantes do Natal, do Cabo e da província de Moçambique. A povoação alargou-se a olhos vistos; o chão que numa semana ainda estava vestido de mato, aparecia na semana seguinte limpo, fechado com estacas e fios de arame, e coberto de materiais de construção dentre os quais surgiam esqueletos de casas, depois de revestido com uma presteza de cena de mágica. Quando fui visitar a minha palhota que deixara a mais de quilómetro de distância do povoado, percorri intermináveis arruamentos, demarcados por edificações ou vedações, e fui encontrá-la humilhada atabafada por vizinhos, que orgulhosos do seu zinco e tabuado , protestavam já contra o contacto de tão inflamável monumento da Beira. E, efectivamente a pobre choça abrasou-se numa bela noite estrelada, ficando dela apenas uma fotografia e as minhas recordações gratas!
Não estando a terra preparada para receber tantos hóspedes, apesar de muitos deles levarem consigo os meios de proverem às suas necessidades, a vida tornou-se cara e difícil.
Pagavam-se aos carpinteiros para armarem casas salário de 3:600 a 4:500 réis; as casas construídas valiam rendas de 10 e 12 libras mensais, e faltavam alojamentos. A base da alimentação eram as conservas também encarecidas.
Quando um agenciador empreendeu, um dia por outro fornecer carne fresca de bois vindos de Sofala ou de Madagáscar, vendia pelangas e ossos esburgados a 500 réis o quilograma. Escanzeladas galinhas, que mais pareciam frangos crónicos, valiam uma e duas rupias, e de quando em quando apareciam monhés vindos de longes terras para oferecerem ovos a 50 réis cada um. A modesta batata, pão dos pobres europeus, fora promovida a acepipe de milionários, pois custava 500 réis o quilo, sujeita à quebra da podridão. O mesmo e maior preço se pagava por uma garrafa de zurrapa nacional. Não faltavam artigos de vestuário, mas para os adquirir era preciso deixar a pele na loja. Parecia que a competição entre os comerciantes era do qual venderia mais caro. Escasseando pessoal, indígena ou europeu para trabalhos e serviços inferiores, também por eles se pagavam quantias exorbitantes.
Estava calculado que a despesa de simples descarga das mercadorias era superior ao encargo dos direitos de importação. Além de ser tudo caro faltava muita coisa necessária. Faltava principalmente água. A que se podia recolher em caves abertas na praia, não era potável. Iam barcaças buscá-la ao Búzi, muitas milhas a montante da foz, mas levavam na viagem uns poucos de dias, às vezes só traziam lodo, e traziam-no pelo preço de vinho de Champagne. Recorreu-se à chuva guardando-a em depósitos, e um estrangeiro previdente montou uma fábrica de tanques de zinco; mas este mesmo recurso era precário, até porque as habitações não tinham capacidade para meterem em si provisões de água para um ano inteiro. Portanto a Beira não se lavava, pois que no mar havia tubarões e jamantas e o Pungué era um lameiro, e a Beira padecia sede que mitigava quantidades fabulosas de beberagens engarrafadas.
A terra nada lhe fornecia a não ser alguma caça, que os gastrónomos arrancavam da boca um dos outros. Nem um fruto, nem uma folha de hortaliça! Naquela sociedade em organização as necessidades anteciparam muito os meios de se satisfazerem, e todas as satisfações tiveram de ser importadas. Os indígenas ao menos nos primeiros tempos conservaram-se de parte, desconfiados, amedrontados, não pensando em tirar proveito dos hóspedes que se lhes impunham, nem lhes dando proveito a eles. A nova povoação teve, pois, de se criar e de viver apenas com o que se podia transportar em navios; tivera um nascimento e levava uma existência artificial, de acampamento num deserto. Economicamente a situação não se modificara. Apenas havia mais quem vendesse. Tinham crescido os capitais empregados na grande feira, mas a maior parcela desses capitais permanecia imobilizada nos armazéns, senão perdida nas instalações, e a menor girava apenas dentro dessa própria feira, passando das gavetas duns para a de outros feirantes, e voltando das gavetas destes para as daqueles. O consumo do pessoal oficial era limitado pelos seus vencimentos, taxados ainda em harmonia com um regime saudoso e lendário em que se comprava um boi por dois fios de missanga, e a pouca gente que passava para o interior quase toda trazia do Sul farnel para gasto ou pacotilha para revenda. As bebidas alcoólicas continuavam a ser o único artigo que tinha movimento.
Nestas circunstâncias os credores dos comerciantes da Beira – e a grande maioria deles, viviam só do crédito, - só deviam receber por conta dos dinheiros adiantados e das mercadorias fiadas, remessas pontualíssimas de esperanças, mas essa mesma moeda ia estando depreciada, porque o caminho de ferro que lhe determinava o valor, não principiava nunca apesar de se anunciar para cada paquete a chegada do pessoal técnico e material para a construção. Sempre que uma nuvemzinha de fumo à tona de água anunciava um vapor demandando a barra, a praia enchia-se de hospedeiros sem hóspedes, de negociantes sem negócio, que perguntavam ansiosos: Será agora? E não era nunca. Mas não havia demora, nem decepção, nem prejuízo, nem sacrifício, que afugentasse e descoroasse a Esperança a boa fada que, sozinha, presidiu à nascença da Beira e lhe ditou os destinos! Não chegava nunca a linha férrea; numa bela manhã de Julho chegara a bordo dum vapor inglês a Companhia de Moçambique, a nova, que representada pelo seu governador, ia tomar posse dos territórios dos antigos distritos de Sofala e Manica até o Save. Inaugurava-se uma nova era para esses territórios e para a Beira sua capital.
Até aí e a contar da data dos seus desastres em Mutassa e Macequece, essa companhia, fénix renascida de cinzas inglórias, não dera sinal de vida activa no meio dos empreendimentos e aventuras que no litoral e no interior prometiam, cumprindo pouco, revolver até às ínfimas camadas a terra que lhe fora destinada para domínio; reservara-se primeiro de braços cruzados, por fim nem braços tinha já. No meado de 1893 ainda vendia géneros de mercearia ao balcão em Neves Ferreira e na margem do Chiveve, e quem passava pelo arruamento principal da Beira, entrevia pela porta aberta duma modesta casa de mataca situada perto do comando militar, um engenheiro francês pago por ela, com o vermelho nariz pendente sobre o papel-tela em que desenhava planos da linha férrea, estudados a bússola e pedómetro.
Também nesse tempo constava que ela tinha em África um administrador pomposo que de quando em quando se movia através do sertão no meio duma caravana pitoresca, sultanesca. Ultimamente, porém, estes mesmos funcionários, o famigerado Madeira, as tendas, tudo desaparecera ou fechara as portas e a única coisa da Companhia que ainda bulia era uma grande bandeira com um C e um M estampados nas cores nacionais, que aos domingos e dias de festa ondulava, se havia aragem, num tope dum alteroso mastro aprumado na margem direita do Chiveve. Os que na outra margem trabalhavam e lutavam mal sabiam que bandeira era aquela que parecia estar amarrada a uma corda.
Deste retraimento, deste abandono de facto das antigas concessões, saiu abruptamente a Companhia para tomar posse das concessões novas, gritando às iniciativas que realmente haviam criado a Beira, que se arredassem porque tudo aquilo era dela. E o próprio Estado se arredou, até da parte do domínio e do campo de acção que para si reservara expressamente.
Foi uma arrojada aventura este apossamento. A Companhia que era obrigada pela sua lei constitucional originária a dotar-se com um capital de 4:500 contos de réis, firmemente subscrito e realizável, afoutou-se a assumir os encargos e responsabilidades de administração e exploração, da defesa e polícia, de granjeio material e da cultura material dum território em que caberiam à larga alguns Estados da Europa, dispondo unicamente da quantia de 12 mil libras, jogada por um pequeno grupo de accionistas da Companhia antiga, engodados na desforra das despesas já sofridas. Fora dessa quantia só contava com a esperança, a mesma moeda com que a maioria dos comerciantes da Beira saldavam anualmente as contas de ganhos e perdas! Esses 54 contos de réis chegaram-lhe para pouco mais do que contratar um núcleo de pessoal administrativo e pagar-lhes as passagens, e é de crer que esse pessoal levasse instruções para viver do país como um exército invasor, que tivesse queimado atrás de si os navios.
Governador, empregados superiores, chefes e praças dum futuro corpo policial, nada levavam consigo para instalarem os complexos serviços criados já no papel, e nada encontraram para os receber. Desembarcados na Beira, foram bater à porta do governador, e iam-no endoidecendo com pedidos e requisições. Venham casas para as repartições sr. Alpoim! Camas que esta gente não há-de dormir na areia! São precisas espingardas para os soldados! Papel para os amanuenses, que não têm em que escrever! Faz favor de nos arranjar candeeiros para os aquartelamentos? Há por lá uma corneta, visto que o corneteiro não sabe dar os sinais metendo as mãos na boca? Ceda-nos embarcações, arranje-nos loiças, roupas e medicamentos, agulhas e alfinetes! Pois não, dizia-lhes o Alpoim, mas pagassem o que levavam! Não temos dinheiro; respondiam. Obriguem-se ao menos, a embolsarem o Estado do valor dos objectos que dele receberem! Propunha o pobre homem empenhado na defesa das receitas e do material que tão laboriosamente criara ou reunira, para sustentação e gozo da futura intendência da Beira. Não estamos autorizados a tomar compromissos em nome da Companhia! Volviam-lhe. Esteve a ponto de se azedar a contenda, porque as ordens e instruções de Lisboa eram pouco claras, mas afinal os novos dominadores obtiveram, sem desembolso, os mais indispensáveis recursos para a instalação do seu domínio, tendo tomado posse das alfândegas, e usurpado ao município o direito de cobrar taxas de licenças para o exercício do comércio e indústria.
[In: Serões, Lisboa, vol. IV, 1904, p. 141 a 146]

Texto enviado pelo Dr. António Sopa

28/05/07

A BEIRA em 1891 e 1892: vista por António Enes (1)

António José Enes (Lisboa, 15 de Agosto de 1848 – Queluz, 6 de Agosto de 1901).
Jornalista, dramaturgo e estadista, ocupou o ministério da Marinha e Ultramar, após o Ultimatum inglês, tendo sido comissário régio em Moçambique (1891 e 1894). Enquanto ministro do Ultramar facilitou o trânsito de mercadorias estrangeiras pelo porto da Beira, dando, de algum modo, a feição de curso de navegação internacional ao rio Zambeze, tendo assinado igualmente a primeira carta de concessão à Companhia de Moçambique.


EXTRACTOS DO RELATÓRIO
A Beira – por exemplo – esse anunciado cais de um vasto empório comercial e mineiro, essa disputada porta do centro de África, que eu tanto receara ver arrombada por Cecil Rhodes: ainda hoje não voltei a mim dos desalentos que me inspirou a primeira visita que lhe fiz!
Estávamos em Agosto, mas, naquela região de humidades, em que a terra parece apenas uma crosta à flora da água suj
a, o mar, o céu e a chuva era tudo cinzento. Já tínhamos passado bóias; pela popa fora do «Euxéne» alastrava-se em manchas barrentas o lodo do fundo levantado pela quilha, e nada se avistava, a não ser, por uma e outra amura, duas delgadas barras de um verde sujo com laivos amarelados.
Custou-me a crer que a Beira fosse aquilo, areia e mangal debruando um enorme lameiro líquido, em que o Pungue e o Búzi vão dissolver as próprias margens, laceradas por correntes que fazem perder pé aos hipopótamos.
Lugar onde se pudesse viver naquele país, não se sabe se em formação se em decomposição, e cuja topografia é modificada pelas águas soberanas a cada maré, só havia e só há uma estreito areal, lambido de um lado pelo Chiveve e do outro pelo Oceano, e por cima do qual podem saltar vagas de tempestade.
Tive desejo de saber por onde poderia a civilização avançar dali à conquista da Machona e de Matebelelândia. Dei alguns passos no caminho terrestre, e logo 8 quilómetros, no Dondo, passei pântanos em que os machileiros se cravavam até às coxas; jornadeei de Neves Ferreira a Mapanda, e só vi planuras deprimidas em que o alto capim disfarçava mal as rugas feitas no chão amolecido pelos refluxos das inundações. Subi o Pungue, a encalhar onde as cartas marcavam o fundão, porque o haviam entulhado de areias movediças do leito; deixei lá um ferro de escaler enleado em faxinas; observei os bancos, onde já tinha perdido um vapor da Companhia de Moçambique, o «Búfalo» estivera cravado durante semanas e o «Agnes» havia de naufragar, e durante duas horas tentei debalde, a toda a pressão, navegar contra a maré da enchente. Fui ao Búzi, profundo e estreito, a bater com as pás das ondas do «Búfalo» no raízame do mangue, e à saída espetei-me numa coroa de areia, onde pela noite velha me ia surpreendendo um vendaval repentino. Encontrei, pois, as vias fluviais, torcidas e retorcidas, atravancadas por bancos e dificultadas por violentas correntes; os caminhos de terra, interceptados por pântanos sem chão firme e charnecas sem água potável, ainda antes de serem infestadas por tsé-tsé; o único lugar possível para assento de uma povoação, exíguo e ameaçado de ser submergido por uma marezada de equinócio. Compreendi então porque iam os nossos antepassados a Manica pela Zambézia e haviam deixado em esquecimento o Pungue, posto agora em moda, e afigurou-se-me que o mundo sublunar ainda não é tão pequeno nem a humanidade se acotovela tanto nos seus continentes, que valesse a pena fertilizar a poder de dinheiro regiões assim desajustadas da natureza. [...]
Veja-se o que sucedeu e está sucedendo na Beira, nesse tristíssimo país, que incutiu a compatriotas nossos, que lá estacionaram, a opinião de que a África só serve... para pretos e oficiais de marinha. Estrangeiros prudentes, que a visitaram quando o seu porto principiou a ser frequentado, esmoreceram também com aquele cenário de lodos e areias. Mas o capital, que entre nós simboliza a timidez, é que não esmoreceu nem se assustou! Bastou correr fama de que em Manica havia ouro e anunciar-se que para o transportar se construiria uma linha férrea, para logo aparecerem libras, às dezenas de milhar, abrindo lojas, estabelecendo carreiras de navegação a vapor, montando serviços de transportes terrestres, ensaiando indústrias, vendendo aguardente, tentando explorar por mil formas, não tanto o ouro, como os próprios exploradores futuros do ouro.
E que fantasias e audácias as dessas libras açodadas! Não havia ainda caminhos para o interior, e já estavam em Mapanda belos mail-coachs, envernizados como coupés de noivado, arvorando em letras de ouro: The river Pungue to Manica. Sabia-se que a tsé-tsé infestava o país, mas logo surgiram ingleses e boers com manadas de bois de tracção. Os bancos do Pungué cresciam e medravam debaixo da quilha das embarcações; não obstante, o «Agnes» e o «Carnavon» lá se iam arrastando por cima deles, pára aqui, sonda acolá, desafiando passageiros. Também em Mapanda, no meio de pântanos, dois fura-vidas armaram um hotel confortável, com luzidias camas de metal vestidas de mosquiteiros diáfanos, onde se comiam bifes de búfalo e lombo de zebra assado com peripiri. Para as bandas de Massikeses e de Mutare improvisaram-se chalets à espera dos moradores, empilharam-se latarias à espera dos beberrões, - e só esses é que esperaram pouco.
Na Beira compravam-se palmos quadrados de areia como se tivesse misturado ouro em pó; a povoação ia estendendo as suas linhas de casas multicolores de madeira e zinco pela praia fora, a demandarem a Ponta Gea; as vagonetas Decauville do corpo expedicionário rodavam de hora a hora, distribuindo pelas quitandas caixas, fardos e barris, em que as mais variadas mercadorias, avolumando nelas todas as bebidas conhecidas, iam também esperar pelo futuro incerto. Todas aquelas instalações custavam rios de dinheiro. Pagavam-se 10 a 12 libras por mês para viver assado a calor lento entre chapas de zinco. Um carpinteiro ganhava 4$500 réis por dia, armando esqueletos de barracas. E faziam-se todas as despesas, suportavam-se todos os sacrifícios, corriam-se todos os riscos, empatavam-se contos e contos de réis, passavam-se inclemências, devoravam-se febres, morria-se nos matos ao desamparo, só para esperar, porque aquele movimento criador era de oferta e faltava a procura. Os lojistas negociavam uns com os outros, e os hospedeiros hospedavam-se a si. Tudo se empreendera para explorar o ouro e o caminho de ferro; entretanto, ninguém sabia se o ouro era uma realidade e o caminho de ferro não seria um logro. Há não há, faz-se não se faz, eram os temas perpétuos das discussões dos especuladores, grupados às portas dos estabelecimentos vazios. Alguns vinham-me perguntar ao ouvido a minha opinião sobre esses problemas vitais, pedindo-me que a não dissesse aos vizinhos. Se corria voz de aparecera um filão ou ia chegar um engenheiro, estoirava o champagne por todo o arraial e coros de bêbados soltavam hurrahs!
A Beira devia antes chamar-se Esperança!
Não havia contratempo que fizesse desmaiar essa esperança, nem desastre que aterrasse os capitais.
Os luzidios mail-coachs foram comidos pelo muchem em perfeito estado de virgindade. Os tristes bois, mordidos pela mosca, assaltados por leões, mortos de sede, espalharam pelos caminhos do interior as lastimosas carcaças, descarnadas pelos abutres e pelos landins, gulosos de podridões. O hotel de Mepanda confirmou o juízo do seu cozinheiro, que tantas vezes me repetira: Sale affaire, monsieur, sale affaire! Fechou, porque só quizumbas se hospedariam nos seus quartos catitas. O «Agnes» encravou-se na areia do Pungué, e os crocodilos vão agora apanhar sol para cima da sua ponte. No interior, barracas houve que boiaram nas cheias; noutras, os barraqueiros tiveram de comer as conservas e de escorropichar os garrafões, e não se sabe se morreram de febres se de alcoolismo. Tardando o caminho de ferro e não aparecendo o ouro, houve um período de angústia. Já ninguém passava para Manica; voltava quem para lá fora. E como voltavam os míseros aventureiros? Depois de terem vendido aos pretos as espingardas, a ferramenta, o fato, por punhados de milho ou raízes de mandioca, metiam-se ao mato, a pé, pedindo esmola à natureza ou aos raros viajantes. Vi uma carta, em que uma senhora inglesa, que foi ao forte Salisbury, contava que os seus compatriotas desventurados iam esperar os Portugueses aos caminhos para serem socorridos por eles; e as nossas autoridades, os nossos médicos, os nossos oficiais, muitas vezes acudiram a pungentes misérias. À noite, quem passava pelas locandas da Beira ouvia concertos de pragas e blasfémias dos desiludidos, que votavam a todas as maldições quem os havia enganado com falazes esperanças de riqueza; os locandeiros, porém, iam encomendando mais aguardente, para atordoar o desespero de outras e outras vítimas obstinadas dessas mesmas esperanças.
Nem nesse período, porém, nem com todos esses revezes, se retraíram esses capitais e as iniciativas. O ouro teima em não aparecer; mas lá vai o caminho de ferro em procura dele. Quando surgiu no porto um navio inglês carregado de material velho, foi um delírio na Beira! Escolheram-se para ponto de partida da construção uma planície à margem do Pungué, onde as chuvas e as cheias depositam espessas camadas de água! Pois esse chão alagadiço, a que se deu o nome híbrido de Fontesvila, foi aforado por exorbitantes preços, sendo tal a afluência de pretendentes que a Companhia de Moçambique teve de fazer guardar pela polícia os seus escritórios assaltados. A casaria da Beira alastra-se dia a dia pelo areal fora. Não há nada certo, sólido, firme, nem o chão que se pisa; todos sabem que sobre o país paira uma dúvida de vida ou morte, de fortuna ou de ruína, um formidável to be or not to be, haver ou não haver ouro explorável. Todavia, sobre a areia movediça e com um ponto de interrogação no futuro, arquitectaram-se já inúmeras empresas com cotações nas bolsas, e os capitais andam a oferecer-se à companhia gerente daquela terra de aventuras e visualidades, senão para se associarem com ela, para fazerem aterros, construírem docas e cais, empreenderem plantações, tentarem todas as explorações que se possam recomendar à credulidade do accionista!
Bem sei que só a cobiça do ouro causa estes delírios de esperança e de confiança, e por isso se lhe chama febre; e que não podemos convencer o mundo de que já morou uma rainha do Sabá em cada canto da província. Mas sem memórias do tempo de Salomão e sem reclames de Cecil Rhodes, também Lourenço Marques em poucos anos atraiu avultados capitais e multiplicadas iniciativas, que não têm vivido só das prodigalidades da Metrópole, e muitas regiões, das mais notórias de Moçambique, não têm sido desdenhadas pelos empreendedores. [...]
[Moçambique: relatório apresentado ao governo, António Enes. Lisboa, Agência Geral das Colónias-Divisão de Publicações e Biblioteca, 3ª ed., 1946, p. 13 a 14; 27 A 31]
Texto enviado pelo Dr. António Sopa

07/05/07

Arquitecto Francisco de Castro

Esteve connosco na Beira o Arquitecto Francisco de Castro, neste momento com 84 anos de idade. Ele foi um dos arquitectos da Estação Central dos Caminhos de Ferro (responsável pelo átrio com a sua espectacular abóbada), juntamente com Paulo de Melo Sampaio (responsável pelo edifício dos escritórios) e João Garizo do Carmo (responsável pela gare). Esta obra inaugurada em 1966 foi concebida com forte influência da moderna arquitectura brasileira de então muito diferente do estilo neoclássico dos arquitectos portugueses.

Chegou pela primeira vez à Beira em 1953, contratado pela Companhia de Moçambique, para concluir o Grande Hotel, já em construção com um projecto base do arquitecto José Porto. Esta obra só foi concluída em fins de 1955 com 125 quartos em vez dos 90 inicialmente previstos.

Entre outras suas obras na cidade da Beira destacam-se: o Hotel Embaixador (1956-58) e os prédios Cocorosis (1952-54) e Megaza (1958).

02/05/07

Espasmo de saudade


A Revista Índico das Linhas Aéreas de Moçambique no seu nº 39 de 2007 (Abril a Junho) dedica a sua capa ao centenário da cidade da Beira e apresenta textos de Adelino Timóteo, António Sopa e Mia Couto.


Desta revista reproduzo o texto de António Sopa intitulado “Espasmo de saudade”:

Vivi a minha infância e a adolescência numa pequena rua da Beira a que tinham dado o nome de um colonial ilustre – Freire de Andrade.
Com poucas centenas de metros, ligava a estreita faixa de terra habitável entre o Chiveve e o mar. Só viria a perceber melhor a sua geografia, muitos anos mais tarde, quando pude confrontar-me com as velhas imagens do passado. O meu território de brincadeiras ia d
esde a velha ponte de ferro, agora reduzida a um montão de ferros retorcidos e inúteis, até à chamada Praça do Município, onde praticamente se tinha localizado o posto militar de Aruângua, criado pela determinação do tenente Luís Inácio, e que está na origem da Beira. Eu tinha aprendido a tactear o mundo no local de nascimento da cidade. Onde anteriormente se tinha amontoado, de maneira informe, o casario de madeira e zinco, já pouca coisa estava. Apenas dois ou três edifícios, ainda imponentes na sua lenta decadência, sobreviveram até à minha saída da cidade.

Mas tive ainda o privilégio de ter conhecido o velho restaurante do Beira Terrace, mesmo junto da muralha, do lado da actual capitania.
Era um volumoso edifício de um único piso, elevado sobre colunas, com uma varanda a toda a volta. Lembro-me de um interior silencioso e escuro, onde abundavam as madeiras da terra. Viria a arder num trágico final
de ano na década de 60 do século passado, mas pude ainda conviver com uma parte importante dos seus despojos, na casa dos seus proprietários, no antigo edifício do Hotel Savoy.
Ainda de pé, em toda a sua singeleza (pouco mais do que um armazém de alvenaria, a que uma fachada pomposa procura dar alguma imponência), lá permanece o velho Almoxarifado. Poucos saberão que é uma das primeiras construções de alvenaria da cidade, juntamente com o edifício do Standard Bank. Existe agora a possibilidade de o restaurar, por iniciativa de uma associação cultural beirense.
Nas suas traseiras fica o Tribunal, um elegante edifício de dois pisos, rodeado de uma varanda com colunas, e cuja construção nos
remete para a primeira década do século passado. Logo ao lado, em toda a sua fragilidade, a primitiva fábrica de gelo.
Do lado do mar, todo este espaço era delimitado pela muralha. Na minha meninice parecia-me uma sólida massa de cimento armado, o que não impediu alguns desmoronamentos (1). Ela avança pelo interior da cidade e é uma excelente referência para conhecer os limites da antiga povoação. Vale a pena seguir-lhe o percurso, já que se ganha uma visão comple
tamente diferente da cidade e, mais tarde, era ali que ficava instalado o Luna-Parque. Aos domingos à tarde ficavam-se por lá as famílias a ouvir os relatos de futebol português, depois da inevitável “volta dos tristes”. Era também um espaço de histórias e mistérios. Havia também o “Velho China” que circulava por entre os grandes pedregulhos que a protegiam, à cata de ostras. Dizia-se então, em voz baixa, que a sua verdadeira actividade era o contrabando. E era a residência do primeiro poeta que conheci, a viver na carroçaria dos carros abandonados, nas traseiras do Pendray e Sousa. Chamava-se Mário Bingre. No seu passado há também uma estranha história que valerá a pena um dia contar.
Já a caminho da Praça do Município existem outros edifícios ligados com o passado da cidade. O Clube Inglês, mesmo encostado à muralha, era uma bela construção de dois pisos que se distinguia pela forma do telhado e pela varanda que a circundava totalmente. No rés-do-chão ficava localizado o gabinete do arquitecto Carlos Ivo, a quem a cidade deve alguns dos seus mais belos exemplares, um barbeiro e o “Bar do China”, praticamente o único local de convívio interracial do bairro. O primeiro andar alojava o clube e a casa do barman indo-português. O clube guardou durante muitos anos algumas relíquias históricas, como velhos jornais da
cidade e as armas do conhecido pioneiro Alfred Lawley. Esteve em riscos de desaparecer, mas uma instituição bancaria (2) acabou por recuperá-lo, instalando ali a sua sede.
Logo ao lado ficava o Hotel Savoy, já sem o esplendor que tivera no passado. Tinha perdido a bela teia de ferro fundido que o cercava, dando-lhe uma roupagem mais moderna, estando ali instalados escritórios e apartamentos. Acabou por arder o ano passado, após muitos anos de agonia.

Já no Largo Araújo de Lacerda, nome de um benemérito da cidade (3), ficava a Casa Portugal. É um edifício em tijolo vermelho, rodeado por largas varandas de ferro, pré-fabricadas, celebrizado no traço da pintora Dana Michaelis. Na década de 60 começaram a ser construídos os grandes prédios comerciais, iniciando um processo de transformação de todo aquele espaço.
Durante estes últimos trinta anos, tudo isto se manteve praticamente inalterado. Apenas o tempo e a mão do homem lhe têm causado estragos, alguns dos quais irreparáveis. Tei
mo em acompanhar esta silenciosa degradação, percorrendo toda esta geografia, ajuizando ainda das possibilidades de salvar, pelo menos, alguns desses edifícios, que narram a história da antiga povoação. Apesar da ignorância, do desinteresse e das dificuldades económicas em que esta mergulhada a cidade.
E regresso inevitavelmente ao mundo maravilhoso da infância, assaltado por inúmeras recordações.

Notas (por Ferreira Mendes):
(1) De notar que nessa zona do Beira Terrace (por detrás do actual Consulado de Portugal) a velha muralha já tinha ruído na década de 50, tendo sido substituída pela que até agora perdura. Nas marés baixas é ainda hoje possível verem-se restos da primitiva muralha.
(2) Banco Internacional de Moçambique (BIM)
(3) O Dr. José Araújo de Lacerda, que veio prestar serviço na Companhia de Moçambique em 1897 e faleceu em 1928, foi chefe dos Serviços de Saúde. Legou todos os seus avultados bens (avaliados em c
erca de 100:000 libras, incluindo o edifício do actual Conselho Municipal) à cidade da Beira. A praça com o seu nome, onde se encontrava o seu busto, é a actual Praça do Metical.