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10/07/07
Shikhani : “É necessário aventurar”
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06/07/07
Crónicas de José Cardoso (4)
Em 1946, na cidade, continuava a ressoar o matraquear cansado da Central Eléctrica movida agora a gasóleo segundo creio, esforçando-se por fornecer à urbe, não a energia de que carecia mas a possível, em períodos intermitentes, devido ao desgaste dos componentes e constantes, avarias.
Posteriormente tive a informação - creio que correcta - de que, num passado recente, teria sido movida a vapor, com as caldeiras abastecidas a lenha vinda dos mangais próximos e transportada por lanchas que subiam o Chiveve, suposto rio que era na verdade um braço longo do mar com pequenos afluentes dispersos e malcheirosos, que lembravam os braços viscosos de um gigantesco polvo. Avançava pela cidade adentro atingindo os bairros da Ponta Gêa e do Chipangara e separando a Baixa do Maquinino. Essas lanchas movidas à custa de longas varas destramente manobradas por experientes marinheiros negros e com a ajuda das marés da “preia-mar”, subiam o Chiveve carregadas de lenha de mangal até quase às portas da velha Central.
E porque rememoro o que era na altura a problemática do fornecimento de energia à cidade que era como disse, bastante deficiente, lembrei-me de um pormenor curioso relacionado com esse mesmo fornecimento e que, de igual modo, havia observado em Lourenço Marques sem lhe dar a devida importância: a determinada hora, creio que por volta das oito e meia da noite, a energia baixava gradualmente de intensidade até quase se extinguir, voltando logo a seguir à normalidade.
Só na cidade da Beira, onde o facto também se registava, é que vim a tomar conhecimento das razões desse afrouxar pontual de energia, e elas constituíam afinal um sinal para que os patrões dos empregados domésticos e outros, soubessem que eram horas de os libertar para deixarem o trabalho e recolherem a casa porque, a partir das vinte e uma, não era permitido ao negro deambular pelas ruas da cidade de cimento, nem mesmo pelos bairros indígenas da periferia, a menos que tivessem em seu poder um ”salvo-conduto” ou “passe”, ou até uma carta do patrão, que justificasse a sua saída tardia do serviço.
Era a hora do recolher obrigatório!...
Muitos dos que moravam nos bairros mais distantes, tinham que fazer o trajecto em passo de corrida, para não serem apanhados e levados para os calabouços onde passavam a noite, para serem libertados no dia seguinte se estivessem em condições de justificar a infracção e mesmo assim, só depois de castigados pelas tradicionais e humilhantes palmatoadas, dadas pelos seus irmãos de cor, os sipaios, que o faziam a mando dos seus superiores hierárquicos. Se não obedecessem a tão aviltante ordem, uma recusa inconcebível e por isso muito rara, eles próprios eram submetidos ao mesmo tratamento, agravado com alguns dias de calabouço e suspensão de funções por períodos determinados e por vezes expulsos da corporação policial.
Sendo rara como disse essa recusa, é de toda a justiça e em nome da verdade que se diga de passagem para que fique registado o facto, que alguns deles o faziam com satisfação e com requintes de malvadez que lhes não eram exigidos, sobretudo quando o detido não lhes era simpático ou pertencia a região ou etnia diferente da sua.
Era “um ver se te havias” nas formas repressivas para travar leviandades que estivessem em incubação nas cabeças duras dos pretos, de prevenir irreverências futuras ou ainda, para acautelar e desencorajar o desenvolvimento de movimentos subversivos e de potenciais sublevações porque afinal, o acto de pensar e de chegar a conclusões óbvias, não era privilégio da raça branca, que se afirmava como a mais inteligente.
Era este na verdade o pensamento que prevalecia na maioria das cabeças ocas dos colonos portugueses porque, além dessas ideias lhes terem sido incutidas por uma propaganda insidiosa e metódica, a maioria deles era de origem humilde e constituíam terreno fértil para as machambas de culturas dóceis e a minoria os mentores ideológicos, os fazedores da política sócio-económica da metrópole e das colónias, os machambeiros da desgraça.
Infelizmente tive, como o tiveram muitos outros nas pessoas dos seus mainatos e moleques, oportunidade de ver algumas dessas mãos castigadas, apenas pelo crime de andarem na rua por não terem tido tempo de chegar à sua palhota. Apresentavam-se disformes e intumescidas, como alguns dos olhos dos seus donos, por terem passado a noite em claro gemendo de dor, apesar das mijas abundantes que verteram sobre elas, para beneficiarem de algum alívio como se acreditava, mas também e sobretudo por chorarem de raiva e impotência.
Mas ficávamos por aí, como observadores passivos e insensíveis, outros até com uma certa incoerência relativamente às suas ideias e convicções, sem uma palavra ou um gesto de revolta contra tamanhas barbaridades. Tudo não passava de rotina. Tratavam-se os “trambolhos” com banhos de água fria, bálsamos refrescantes e algumas cínicas palavras de conforto, mas tolerava-se a peçonha como um mal menor, um mal necessário para a tranquilidade de todos mas também da nossa vergonha e do nosso opróbrio. Era mais cómodo e evitávamos o epíteto de subversivos contra a ordem estabelecida do “Estado Novo”, no velho e bolorento estado da metrópole colonial!... Partia-se do princípio de que o castigo se não era justo era tolerável, porque o simples facto de se ser preto já era crime bastante para que todos o aceitassem como inevitável, na medida em que todos ou a maioria se calava, sem pedir justificações e exigir responsabilidades a quem as podia dar e assumir!...
05/07/07
Apresentando o Cecil
Cecil Rhodes
Em 1899 Rhodes esteve na Beira, juntamente com Sir Charles Metcalfe e outras destacadas personalidades, ficando instalados em casa de Alfred Lawley, engenheiro construtor da linha férrea da Beira para a Rodésia. Aí se discutiu o alargamento da linha.
30/06/07
Crónicas de José Cardoso (3)
27/06/07
Crónicas de José Cardoso (2)
No ano do meu enlace em 1957, com a Laura, minha actual esposa, José Soares Martins, sobrinho do Bispo da Beira, D. Sebastião Soares de Resende, assume a chefia da redacção do “Diário de Moçambique” emprestando-lhe uma dinâmica e uma cultura de mudança, que muitas esperanças trouxeram aos citadinos e alarmaram sobremaneira as hostes fascistas da “União Nacional” e os governos provincial e central da colónia.
Alguém teria dito na altura, que a redacção do “matutino” era o ponto de encontro do aguerrido e numeroso grupo do “reviralho” do sítio. Este facto, e as notícias que íamos recolhendo todos os dias, das furtivas escutas nas emissoras que emitiam em português e que alguma confiança nos mereciam, como as da “Rádio Brazzaville”, “Rádio Moscovo” e “B.B.C.”, davam-nos algum alento e a certeza de que a mudança estava próxima e que era irreversível. Também as notícias inseridas num ou noutro jornal estrangeiro como o “L’Humanité” ou o “Portugal Democrático”, este último editado em São Paulo no Brasil, e ambos de circulação subterrânea, limitada e clandestina. Chegavam-nos às mãos por diversas vias, e constituíam, sem sombra de dúvida, motivos mais do que suficientes para manter em polvorosa desusada os “unionistas” e de uma maneira geral todos os colonos ineptos, vazios de ideais e de bom senso.
Preocupado o poder com o evoluir de uma situação desumana e monstruosa que ele próprio criara, alimentando práticas arbitrárias e devaneios de grandezas territoriais, tão impossíveis quanto injustas, começava a dar mostras de fraqueza e de incapacidade para controlar e conter a voracidade do “monstro” que ele próprio concebera, e que acordara dos sonos mitológicos ancestrais, que séculos de escravidão e letargia, transformavam em lendas.
Quanto a nós, os “democratas” – as aspas são voluntárias, porque a experiência me dizia que nem todos o eram nem a muitos reconhecia condições para que o viessem a ser algum dia -, a conjuntura era propícia para nos manter mais unidos, activos e confiantes. Pelo correio, ou porque a vigilância abrandasse em alguns momentos na censura às encomendas postais, ou porque não considerassem algumas publicações de carácter cultural potencialmente perigosas, recebíamos com alguma regularidade a “Vértice” e a “Seara Nova” que muitos de nós assinávamos. Com mais regularidade a primeira que a segunda, talvez pelo que esta pudesse sugerir nas cabeças dos censores, com a combinação das “explosivas” palavras “Seara” e “Nova”. Vocábulos transcendentais de múltiplas leituras.
Estes jornais e revistas corriam de mão em mão cumprindo a sua missão de informar e educar consciências, mas sobretudo de estimular ideias e acções solidárias, a exemplo da “Chama Olímpica” que de mão em mão percorre países e gentes, proclamando os nobres ideais da solidariedade, e da necessidade de todos se conservarem sãos, tanto de corpo como da mente.
Mantínhamo-nos, ou fazíamos por isso apesar de tudo, razoavelmente bem informados sobre a evolução dos acontecimentos, quer dos que aconteciam na região, que nos eram escamoteados por uma censura feroz, umas vezes cega, outras imbecil, quer nos que ocorriam no resto do mundo, que também passavam pela mesma peneira de rede fina.
A 14 de Fevereiro de 1958, o “Diário de Moçambique” escrevia: “ Esta África está na encruzilhada da sua história (...) e teima-se em continuar em África a fazer colonialismo!...” Inesperada e ousada opinião numa época e num regime em que, o simples facto de a ter não era saudável, e muito pior era publicá-la em letra de forma.
Outras incursões pela verdade e pela denúncia de abusos, injustiças e despotismos, não tivemos oportunidade de as ler, a não ser através de cópias clandestinas e panfletárias que passavam de mão em mão. A acção das tesouradas da censura, obrigavam o jornal a aparecer a público com grandes manchas a negro, nos lugares onde se presumia deverem estar crónicas, artigos de opinião ou simplesmente notícias importantes e de interesse público, que não interessava ao regime dar a conhecer, porque eram libelos insofismáveis contra o regime e o acusava. Porém, até essas manchas negras ou brancas, a dada altura, pela frequência com que apareciam, passaram a ser por sua vez censuradas e proibido o seu uso como subterfúgio, interditando ao jornal a possibilidade de, dessa forma, informar o leitor da frequência e extensão dos cortes do censor e do tamanho da sua prepotência e desavergonhice.
Apercebíamo-nos no entanto com natural satisfação, que o “Diário de Moçambique” começava a ser o “calcanhar-de-aquiles” dos poderosos e dos políticos de direita, que defendiam uma imprensa cinzenta, cobarde e bajuladora, tanto da local, representada pelo “Notícias da Beira” do Victor Gomes, como pelo “Notícias” de Lourenço Marques, capital da “colónia-província”, representado pelo capitão Vaz!
A isso se recusava a sua direcção, nas pessoas de D. Duarte de Almeida – o elefante branco como era conhecido -,e José Soares Martins, mas também dos seus trabalhadores como o Rui Cartaxana, o Fernando Gaspar, o Correia Paulo e o novato e prometedor Mário Ferro, que são tantos quantos os que a minha memória ainda conserva. Ele provocava ainda sem dúvida, o desnorteio das “bússolas” orientadoras da polícia política e dos “bufos” sem política, que começavam a aperceber-se da existência de um preocupante avolumar de alvos para tão poucas munições.
Do “Arquivo Histórico de Moçambique” de Outubro de 1989, retiro, com a devida vénia, alguns apontamentos de um artigo de José Soares Martins, como contributo para a história do jornal: “Se o “Diário de Moçambique” viria, a partir dos últimos anos da década de 50, a ser considerado como um órgão de imprensa extremamente incómodo para a autoridade colonial, que, por isso, o carregou de multas e o suspendeu por várias vezes (a última das quais pelo espaço de 30 dias), de facto, nos primeiros tempos da sua publicação, nada indicava tratar-se senão de um jornal perfeitamente acomodado ao “establishment”. Mais adiante continua: “ Foi um escândalo que o jornal, e um jornal propriedade da igreja, na campanha eleitoral em que interveio o general Humberto Delgado, tomasse uma posição liberal, não privilegiando o candidato oficial.
O que hoje é ridículo era, então, motivo para represálias e dissabores de toda a ordem. Como era grande escândalo nesse tempo, um jornal apesar de tudo produzido em África, relevar os acontecimentos da política africana. Como lhe provocou suspensões o atrevimento de noticiar os primeiros acontecimentos que assinalaram o começo da luta de libertação.
In “Memorandos da Vida”III Volume, de José Cardoso
19/06/07
Erosão nas praias
Segundo o relatório elaborado em Julho de 1910 pelo ..., o mar tem avançado continuamente e em poucos anos árvores que dantes estavam em terreno firme vêem-se agora na praia.
É evidente que o primeiro passo a dar no sentido de combater a erosão é averiguar quais sejam as causas que a determinam, mas como para isso seriam indispensáveis observações feitas durante um período de tempo muito mais longo do que aquele que a prudência aconselha que se espere para tentar qualquer medida no sentido acima mencionado, torna-se necessário assentar desde já em qualquer coisa, de modo a serem postas em prática ao menos medidas experimentais tendentes a defenderem das invasões pelo mar os terrenos por detrás das dunas.
Há dois aspectos principais sob que pode manifestar-se a erosão. Pode ser determinada apenas pela acção das marés e do vento desde um pouco abaixo do nível da baixa-mar até ao da preia-mar, ou pode ser devido ao abaixamento do fundo do mar lá fora e à gradual aproximação de maiores fundos em direcção à praia. Se a razão for esta tornar-se-á extremamente difícil, se não impossível, remediar o caso, pois que o mar iria infraescavando e lançando por terra quaisquer obras de defesa que se construissem.
Eu creio, porém, que toda esta costa tende a elevar-se de um modo muito semelhante ao que se observa mais ao sul, na Zululandia, e não me parece que na foz de um rio como o Pungué, cheia de materia aluvial, possa ter lugar um grande abaixamento, especialmente a uma pequena distância para o norte. E os aspectos dos bancos indicados na carta do Almirantado tende a confirmar esta suposição.
A formação do banco na Ponta Gêa denota igualmente a deslocação para sul das areias que formam a praia a um nível superior ao da baixa-mar, pela acção do vento e da ressaca; e por isso se me afigura que a erosão se dá apenas na faixa compreendida entre um nível um pouco inferior ao da baixa-mar e o da maré cheia, dando assim lugar à grande inclinação que a praia tem actualmente.
O único remédio para este mal está a meu ver na construção de "groynes" (quebra-mares) e, talvez mais tarde, de uma pequena muralha acima da linha do preia-mar.
Como está averiguado que a fuga das areias da praia tem lugar em direcção ao sul, e que a conservação do banco da Ponta Gêa está dependente dessa condição, torna-se necessário que a construção dos "groynes" se comece a partir daquela extremidade da praia e se continue gradualmente para leste. Se se procedesse pela forma inversa e se começasse o assentamento dos "groynes" em qualquer ponto a leste e se fossem construindo em direcção à Ponta Gêa aconteceria que esses "groynes", sendo bem construídos, impediriam a marcha das areias da paria e aumentaria a erosão ao sul dos mesmos, isto é, para os lados da Ponta Gêa ...
in relatório de 1911 do célebre engenheiro inglês capitão Calhcart W. Methven
18/06/07
Crónicas de José Cardoso (1)
A 24 de Dezembro de 1950, quatro anos após o meu desembarque na Beira, surgia na cidade um segundo diário, o “Diário de Moçambique”, cujo proprietário era a Diocese da Beira.
Pouco tempo depois, em 1952, o engenheiro Jorge Jardim, afilhado de Salazar e membro influente do partido único a “União Nacional”, fixava-se na Beira, mais propriamente no Dondo, onde tinha interesses e “tachos” como os da “Lusalite de Moçambique”, e onde constituiria o seu quartel-general, para as actividades de que estava incumbido por alguém e de outras, possivelmente mais obscuras, de sua própria iniciativa.
Aparece como deputado à Assembleia Nacional Portuguesa, na qualidade de representante da “colónia”, que entretanto vestira como todas as outras, novas roupagens de enganosa e inventiva nomenclatura: a de “Província Ultramarina”, numa tentativa de alterar o “nanismo” de um pequeno corpo da Europa mediterrânica, para o “gigantismo” de um território, superior em duas vezes e meia aproximadamente, à soma das áreas ocupadas pela Espanha e pela França.
Já neste tempo o fenómeno endémico da “obesidade” física, que hoje preocupa as classes médicas de muitos países ricos, era doença que não preocupava as classes políticas da metrópole colonial, no que se refere à dimensão do país, mostrando ter “mais barriga do que olhos da razão”, quando propalavam obscenamente uma falsa e utópica grandeza territorial, com a condescendência de uns e a conivência de outros, igualmente interessados na manutenção das suas áreas de influência, dos seus interesses económicos e dos seus impérios.
Deixávamos portanto de ser por simples “decreto”, odiosos e refinados “colonos” para nos transformarmos em bons samaritanos, como que a modos de “provincianos” ou coisa que o valha, em obediência ao novíssimo vocabulário do “faz de conta”.
Os pretos, esses, deixavam de ser colonizados para ser “provincianilizados” e o mundo que fosse “pró carvalho que os carregasse”, ou pentear macacos porque, nestes miraculosos e abençoados mimetismos, “quem tem um olho é rei” e o rei, ‘tá mais que visto, é quem tem o ceptro do poder, a cruz de Cristo ao peito e a decisão num “cospe fogo moderno de repetição”, a tiracolo. Tudo o resto é estúpida ignorância de plebeu e de sabidas heresias de cortesã, como diria Ramalho Ortigão: “Ide resplandecer... no ceptro dos reis e nas chinelas das cortesãs”. (em A Holanda p.183).
Mas não resisto em voltar a referir-me a essa famigerada personagem que tanto odiei nos silêncios das minhas clandestinas cogitações, o Jorge Jardim que, como se verá mais adiante, teria sido para a Beira e para Moçambique, como um tumor maligno, com ramificações obscuras e perigosas de sua lavra, inspiradas nas sinistras “escolas” do nazi-fascismo de Salazar, seu padrinho, onde era mestre e principal ideólogo.
25 de Agosto de 1954, surgiam no éter limitado do espaço beirense, as ondas hertzianas da “Rádio Pax”, estação emissora também anexa à diocese que, a par das notícias escritas do “Diário de Moçambique”, constituíam reais ameaças ao “status quo” da sociedade beirense, o antivírus possível às acções corrosivas dos “contras”, que tentavam parar com as mãos, os ventos da evolução irreversível da nossa história e até da história do mundo, consubstanciada nos conflitos caseiros de uma cidade que se afirmava dinâmica, inconformada e progressista, tanto quanto retrógrada e reaccionária se apresentava por banda dos pregadores da soberba e da imoralidade.
In “Memorandos da Vida”, III Volume, de José Cardoso.
09/06/07
Início do Porto e Caminhos de Ferro da Beira
Só mais tarde em 1895 se faria o troço Beira-Fontesvilla. Era uma linha de bitola reduzida (2 pés , 0,607 m).
Por essa linha, cujo alargamento de bitola só estava realizado entre Umtali e Bamboo-Creek (posteriormente Vila Machado e actual Nhamatanda), passou todo o fluxo do esforço de guerra britânico contra os “boers”. Por ali passaram contingentes de tropas australianas, neozelandesas, uma bateria de artilharia canadiana e outras tropas inglesas levadas em socorro de Mafeking. Mais de 7.000 homens do exército inglês foram transportados pela linha Beira-Umtali por essa época, além de muitas centenas de cavalos vindos da Hungria e da Argentina e mulas da Argentina e do Texas.
30/05/07
Cine-Clube e Auditório (2)
Na fachada principal, a parede que nos ficava à direita da escadaria que dava acesso ao átrio, estava totalmente preenchida por uma bela e elucidativa pintura da autoria de Malangatana, executada nos princípios dos anos 70, aquando de uma das suas visitas que fez à cidade, tendo ficado hospedado em casa da Maria Helena e do Álvaro Simões.
Cine-Clube e Auditório (1)
O realizador cinematográfico José Cardoso, nasceu a 6 de Abril de 1930 e viveu na cidade da Beira de 1946 a 1976. Foi fundador do Cine-Clube da Beira. Em 1976 rumou para Maputo para o Instituto Nacional de Cinema. Realizou o primeiro filme de grande metragem integralmente moçambicano "O Vento sopra do Norte". Criou a empresa "Publicita".
No “Grupo de Amadores de Cinema da Beira” a que já me referi, tomávamos consciência de que, afinal, a diferença entre o sonho e a realidade, não era tão curta como julgávamos a princípio, embalados pela impetuosidade cega da juventude, tão confiante quanto imprudente e ingénua. Assim, o projecto impossível que tínhamos inicialmente, de querermos transformar a capital de Manica e Sofala numa “Califórnia” africana nas margens do Chiveve, deu lugar a outro mais realista e de maior impacto para grande parte dos citadinos e em especial para um núcleo de amigos mais sensatos e experientes, que conservavam os pés bem assentes na terra e a cabeça liberta de quimeras absurdas.
Juntámos as nossas ideias e energias a outras, igualmente motivadas mas mais judiciosas e objectivas, e lançámo-nos na criação de uma organização afim, mais viável e abrangente, que seria um “Cine-Clube”, devidamente filiado – porque lhe dava um estatuto de maior seriedade - na Federação Portuguesa dos Cine-Clubes.
Reconhecemos a importância deste projecto, que poderia aglutinar um maior número de pessoas, receber apoios e o reconhecimento da “Federação Portuguesa”, que estava por sua vez filiada na “Federação Internacional dos Cine-Clubes”, criada em Setembro de 1947, durante a realização do Festival de Cannes, no decorrer de um “Congresso Internacional” em que estavam representados 13 países, entre os quais Portugal.
Em 1958, nascia então o “Cine-Clube da Beira”, que em poucos anos viria a ser o segundo maior de todo o território português de aquém e de além-mar, logo a seguir ao “Cine-Clube do Porto”, quer em número de associados, quer em quantidade, qualidade e importância das suas sessões cinematográficas e de outras realizações congéneres.
Em resumo e de acordo com a definição da Federação Internacional dos Cine-Clubes "É considerado um Cine-Clube toda a associação com fins não lucrativos, tendo por objectivo principal a projecção de filmes em sessões privadas. O das trocas culturais cinematográficas entre os povos e para o encorajamento do filme experimental. Os Cine-Clubes e Federações não podem, em caso nenhum, ter fins lucrativos ou comerciais.” Em conformidade com esta definição, a produção de filmes passou a ser da responsabilidade do Cine-Clube da Beira, a coberto da sua "Secção de Cinema Amador" que passou a publicar um “Boletim” informativo, terminando assim a vida efémera do “Grupo de Amadores de Cinema da Beira”.
Dos que me lembro - porque da maioria deles fui amigo e camarada, com quem, naturalmente, me relacionei com maior frequência e intensidade -, aqui deixo registados os seus nomes porque o merecem, com o prazer que nos dá o sentimento de um dever cumprido e para que as novas gerações “Chivevianas” se lembrem dos seus nomes, como exemplos de dedicação e luta em prol da sua cidade que tanto amavam mesmo na condição de colonos e que, na sua óptica de apaixonados, era a melhor de todas. Na “Galeria de Honra” que proponho de forma aleatória, constam os nomes de: Joaquim José Elias, João Afonso dos Santos, Hernâni Rodrigues, Álvaro Simões, Nunes Cordeiro, Noronha Marques, Fernando Couto, Carlos Ferreira, António José Gomes Martins, Artur Crespo, Rafael Nunes de Carvalho, Francisco Maia, Marco António, Celestino Senes, António Sopa, Almeida Valgode, Figueiredo Jorge, Artur Costa, e as respectivas esposas dos que eram casados evidentemente, e alguns outros de que não me ocorrem os nomes, além de mim próprio que fui sócio fundador nº 6 do “Cine Clube”, e de todo o grupo que me acompanhou no primeiro projecto de cinema, o “Grupo de Amadores de Cinema da Beira” a que me refiro antes, como o Luís Aboim e o Gil Delgado.
Assim, o “Cine-Clube da Beira”, na área da educação cinematográfica, exibição de filmes de qualidade e da produção cinematográfica amadora; o “Grupo Dramático Actor Eduardo Brasão” e o TAB, “Teatro de Amadores da Beira”, no desenvolvimento e divulgação das artes cénicas e ainda o “Centro de Cultura e Arte”, no âmbito da música, da dança e das artes plásticas, em reuniões conjuntas que se prolongaram por algum tempo, para limar arestas e encontrar consensos, decidiram - com o apoio da população mobilizada para o efeito e a aderência de alguns grupos económicos que se prontificaram em apoiar a iniciativa -, construir o "Auditório e Galeria de Arte", de características polivalentes, que pudesse acolher o conjunto daquelas agremiações e dar-lhes capacidade material e espacial para a efectivação regular de todas as suas actividades em condições ideais.
Há uma ideia actual e generalizada de que o “Auditório” teria sido construído com o apoio financeiro da “Gulbenkian”. Nada mais falso e injusto. O Álvaro Simões a quem pedi recentemente que confirmasse ou desmentisse as recordações que tinha sobre o assunto, de que tal obra se deveu exclusivamente à dedicação e ao trabalho de uma boa parte da população da Beira, respondeu-me sucintamente: “o apoio que tivemos da “Gulbenkian” foi em equipamento, nomeadamente um Órgão de luzes, alguns projectores de iluminação, um Ciclorama e uma boa colecção de filmes do “Charlot” e livros especializados sobre cinema.
O “Auditório” foi construído com o esforço conjunto de todos nós (os “tesos”), que conhecíamos alguns que tinham “algum” e contribuíram com dinheiro e trabalho e com materiais de construção doados por algumas empresas.”
Portanto, depois de colocados os pontos nos ii, entreguemos definitivamente o “seu a seu dono”.
Ainda houve tempo para provar que a obra era funcional para as diferentes actividades instaladas, embora nunca tivesse sido concluída até hoje, passados 44 anos, nalgumas áreas de lazer que se ficaram pelos pilares e em pormenores de acabamento. Da nossa parte, por falta de mais apoios e financiamentos, que foram sendo reduzidos à medida da exagerada lentidão com que decorriam as obras e da sua imprevisível conclusão, que levaram gradualmente ao cansaço e à desmobilização dos doadores e por comodismo, da parte dos que se seguiram a nós, após a independência do País em 1975, por ter sido incluído no lote dos imóveis nacionalizados por presumível abandono dos proprietários.
Dele se assenhoreou o governo para aí instalar a “Casa da Cultura”, desinteressando-se o ministério de tutela em concluir a obra. Teriam achado penso eu, que o “Auditório”, tal como o tínhamos deixado e eles tomado de assalto, era suficientemente funcional e que não valeria a pena gastar tempo nem dinheiro - aquele porque implicava dedicação e trabalho e este porque era escasso para as necessidades de um país que renascia das cinzas de um passado colonial -, com pormenores de somenos importância e perfeitamente dispensáveis na sua lógica acomodatícia. A política do deixa andar, infelizmente, tinha-se manifestado muito cedo, na madrugada de uma revolução que ainda dormia a sono solto, sonhando em demasia!...
texto gentilmente cedido pelo autor
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