16/07/07

Crónicas de José Cardoso (5)

“Para grandes males grandes remédios”, é um aforismo muito popular entre nós e o governo não hesitou em segui-lo, tomando medidas extremas como “grandes remédios” numa feroz repressão contra os “grandes males” que representavam no momento o “Diário de Moçambique”, amordaçando-o duramente e enfraquecendo-o, para que mais tarde caísse de maduro e o pudesse tomar de assalto por via de algum acólito sabujo.

Assim, por despacho do Secretário-geral da “Província”, de 14 de Fevereiro de 1968, ordena-se: “fica suspenso o referido jornal por trinta dias a contar do dia da notificação, por ter publicado no seu número 6167, de 7 do corrente mês, o artigo sob a epígrafe “Automóveis roubados” sem que o tivesse submetido previamente à apreciação da Comissão de Censura à Imprensa”.

A denúncia de crimes e de criminosos, estava pelo que se lê, igualmente sujeita à peneira do censor, não fossem eles pessoas gratas ao regime e como tal intocáveis. Seria um acto ridículo se o mesmo não fosse escandalosamente cúmplice, dos abusos que então se cometiam, em nome de uma moral inquisitória e corrompida, até à medula das conveniências insensatas e totalitárias.

Para sofrer tamanho castigo, para que se calasse um jornal diário por período tão longo, o artigo devia ser uma “bomba”, talvez “um libelo terrível”, parafraseando Ramalho Ortigão noutro contexto, contra o governo português e contra a sua política colonial.

Afinal era apenas a denúncia de um facto que era conhecido e comentado por toda a cidade, mas, nada melhor do que transcrever o referido artigo para podermos aquilatar da potência da “bomba” e da prepotência do censor e do governo da “Província” ou melhor, do território de Moçambique colonizado. Transcrevo-o pois para apreciação do ledor atento e com tento, ou para que fique simplesmente registado:

“Se o leitor, por volta da meia-noite, deu por falta do seu automóvel, talvez lhe encontre a pista lá para os lados da Manga, à beira de alguma ruela; com noventa por cento de possibilidades acertará se pensar que lhe foi levado por algum pequeno grupo de militares.

Se o leitor dá pela falta do carro à madrugada, pode encontrá-lo, muito provavelmente, junto da Base Aérea. Com noventa por cento de possibilidades, foi-lhe levado por militares daquela Base.

Se o leitor encontra o seu carro onde o deixou, visivelmente amolgado, indiciando tentativas de abertura e furto, tem noventa por cento de possibilidades de acertar, atribuindo o desacato a militares da Força Aérea. Com efeito, desde há muito tempo, multiplicam-se os destemperos do género; e a sua frequência demonstra que isto agora é assim...”

E o artigo prossegue com algumas considerações de ordem moral e cívica, mas o que transcrevi é suficientemente esclarecedor de que aos militares-ladrões lhes era dada protecção e impunidade.

Todos sabiam, até as populações dos subúrbios que, quando alguns grupos de militares da força aérea se deslocavam da Manga onde estavam baseados, para se divertirem no centro da cidade, ao aproximar da hora de recolher, não se inibiam para tomar de assalto um ou mais automóveis, conforme o número de bandos, e neles se fazerem transportar, abandonando-os nas imediações da base.

Todos sabiam mas ninguém mexia uma palha para os deter e pôr na ordem, porque era aconselhável trazê-los nas “palminhas das mãos” para evitar descontentamentos e distúrbios maiores, já que muitos deles iam tomando consciência de que a guerra em que participavam não era a deles e que estavam nela para defender interesses que não eram os seus.

De heróis cegos e patriotas obtusos estavam os cemitérios e os infernos cheios!...

Quero no entanto salvaguardar aqui a honra e a dignidade de alguns que conheci pessoalmente e de muitos outros, que se punham à margem destes desacatos e os condenavam, assim como condenavam uma guerra que lhes era imposta e que consideravam injusta.

A ideologia fascista que leva a estes excessos, infelizmente, tem ramificações e defensores por todo o mundo, como prova a insultante e descarada afirmação do editorialista mexicano António Uroz, que visitou Moçambique em 1962, a convite do governo colonial:

“Se em alguma parte existe liberdade e autêntica democracia, é na província de Moçambique.” Que tremenda mentira e que desplante!...

Não fosse o talento que demonstrou ter este senhor jornalista, para o descaramento e a sabujice, nunca teria sido convidado.

Que outros comentários fazer senão o da minha convicção de que, por crimes menores do que o cometido pelo senhor António Uroz - que ousou insultar publicamente todo um povo oprimido e explorado, exaltando os que o oprimem e exploram -, têm sido muitos cidadãos de outros países condenados por injúria, a pagamentos de coimas e até de prisão!... Mas estes casos vão sendo cada vez mais raros porque, nas “democracias” do ocidente, a jurisprudência é manipulada de forma a garantir uma maior prudência nos juízos, para salvaguardar os interesses obscuros de quem detém o capital e o controle dos mídia e das ideias.

Sobre conceitos de democracia, chamo à liça “Abraham Lincoln” e o meu amigo Guilherme Afonso. Aquele pelo que disse e este pelas informações e considerações que me fez a propósito.

“Pode-se enganar alguns do povo a todo o momento, e todo o povo algumas vezes, mas não se pode enganar todo o povo a todo o momento.” Quem o disse não foi “Bush” – que o Diabo me livre dele porque de Deus é confrade -, mas o 16.º presidente dos Estados Unidos da América (1861-1865), Abraham Lincoln, informou-me o Guilherme que teceu as seguintes considerações, “…de quem vale apenas saber-se que foi o mesmo que, com a sua governação progressista, levou ao desencadear da Guerra Civil Americana (também denominada Guerra da Secessão), e que assinou, em 22 de Setembro de 1862, a Proclamação de Emancipação dos escravos no seu país. Nada de estranhar pois, que num breve discurso em 19 de Maio de 1863 se tenha pronunciado a favor da democracia, definindo-a como “o governo ao povo, pelo povo e para o povo”. Que Lincoln foi um democrata a sério, prova-o a forma como arduamente lutou pelas suas convicções. O que acabaria aliás, por custar-lhe a vida, baleado, em 1865, por um sulista. (Porque se opunham à política anti-esclavagista de Lincoln, os sulistas pretenderam a secessão dos EUA entre o Sul e o Norte e bateram-se por isso, saindo derrotados).

Num desabafo, idêntico a muitos que tenho, porque me aliviam os nervos e me contêm os impulsos, o Guilherme termina: - “Será porque fazer-se corresponder o que se faz ao que se diz implica altos riscos, como vimos em relação a Lincoln, que tanto indivíduo que se apregoa de democrata e faz certas promessas em eleições ao candidatar-se a altos cargos da governação, uma vez conquistado o poder faz tudo ao contrário? Isto, para não falar daqueles para quem a democracia é o mesmo que para o senhor George W. Bush, por sinal o 43º presidente dos mesmos EUA, onde, parafraseando Lincoln, alguns do povo vêm há muito sendo enganados a todo o momento, onde todo o povo vem sendo enganado vezes de mais e não parece que esteja para breve um desses momentos em que todo o povo se não deixe enganar.

Será isso, só porque nunca os poderosos puderam tanto e esse poder também lhes dá cada vez mais meios para enganar o povo? Ou será porque o povo gosta cada vez mais de se deixar enganar?...”

Os povos gostam porque não só são colectivamente cobardes mas também carneiros que se deixam tosquiar - apetece-me acrescentar e pedir desculpa aos carneiros que não têm culpa nenhuma -. Basta-lhes uma cobertura de lã para os resguardar dos frios e ventos invernosos, o restolho dos pastos já usados para lhes entreter os estômagos e os dentes podres, por tantas ruminações transcendentais.

In “Memorandos da Vida” III Volume, de José Cardoso

10/07/07

Shikhani : “É necessário aventurar”

Entre as imagens fantasmagóricas e tenazes que me povoam a memória, sem dúvida, estão as de Shikhani. Cabeças, narizes, abdómens, lábios e olhos enormes, descomunais membros superiores e inferiores descalços. Os homens de África, as mulheres de África. Corpo e alma. Alma e corpo e coração. Sensibilidade e faro: África. Personagens monstruosas, flageladas pelos ventos “este” e “oeste”.
É ele que capta as expressões do rosto, os gestos semoventes. Capulanas, calções. Pai da natureza e identidade que concorre para dentro de si: a negritude. Sedentas de afirmação, aqueles olhares esbugalhados, uma toda cultura e povo encarnados num homem. Porta-voz duma maioria oprimida, depauperada pelos cinzentos séculos de escravismo.
Leio-lhe as obras percorridas de memória, idos os anos distantes, longínquos, idas as indagações e inquietações à volta do conteúdo das mensagens reunidas nos quadros fixados às paredes da sua casa do Macurungo. Ele ausente/presente do circuito da convivência. Pelas “Europas” e África repartido. Mais propriamente no dizer de Bertina Lopes corpo além fronteiras, “aqui a alma”. O aqui cognomina-se um dos bairros dos arredores de Maputo, muito afastado do rebuliço citadino, onde, corridos tempos distantes, removida a barreira da longitude e da latitude, o fui visitar, levado pelo Mablinga, o filho, esse amigo que acedera acompanhar-me at´junto do “monstro Shikhani, o Ernesto Pais (nomes próprios com posteriormente vim a saber da pessoa que insistimos chamar Shikhani.
Porquê a necessidade de encontar Shikhani? Nostalgia, e mais do que isto, debitar a dívida, o tributo, pelo que a sua imaginação me tinha dado a ver, desdde a fértil idade. Sou nostálgico do passado e do futuro. Precisava apascentar novas obras suas com os olhos, que mais uma vez me terão consentido o privilégio de estar diante às suas cores aguerridas, alegres, o traço seu que corre o mundo à busca de insigne notoriedade de África. Como noutro tempo percorri demorado a sua inventiva, acariciei a impressão digital que lhe é característica, mesmo que seja à espátula ou pincel. Com ela exorcismam-se fantasmas e demónios de qualquer que seja o observador. Lá está a respiração, o coito, o açoute e o acoitar-se, a pervagação, a dúvida. Fidelíssimo à matriz, à raíz, à essência. A dele e a de muitos de nós. Sem cisão com a partida.
Não posso contemplar os quadros de Shikhani sem que, no final, me dê conta de que teria sido anestesiado por um antídoto que nos faz reféns por extensos minutos.
Até um seu mural destruído pelas forças da ignorância no Centro Social do Macurungo, nesta Beira que também é sua, ecoa dentro de mim. Reverbera. As sinergias das forças anímicas que lhe davam o prumo tornam possível os acordes do peito e do sangue. A mesma veia.
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Tinha perdido o fio à meada. Falava do vulto ausente/presente Shikhani agora a passar-me um recado que me terá ficado após a privação: “Na arte é necessário aventurar”. Que quererá ele dizer? Persistência, perseverança e, acima de tudo, firmeza.
De facto, na arte como em tudo, “é necessário aventurar, digo sempre cá para comigo. Shikhani resiste na memória privada e comum. Dentro de mim registo uma casa situada numa zona pacata da cidade capital, mas que nem por isso deixa de conter um homem com uma obra cujo valor transpõe o seu diminuto átrio. Um homem, por assim dizer, que se passeia por todos os cantos do mundo transportando as ressonâncias e raízes, desde Marracuene a Macurungo, de Macurungo a Maputo. Um homem desigual a tantos, de nenhuma aspereza.
Ao despedir-me do “monstro” sedimentou-se-me na memória aquilo que desde há anos dele tenho visto na Beira, no Palácio dos Casamentos, no Sandromar, hoje Tropicana, no restaurante da Casa da Cultura.
Uma pintura que passa e ficará para todo o sempre. Do outro lado do portão o vulto do aventureiro postado de bruços, corpo escondido, e a cabeça transpondo-se cá para fora, a vista suplantando para lá do mundo exterior, acenando-me a mão, à hora de bai.

texto de Adelino Timóteo


06/07/07

Crónicas de José Cardoso (4)

Em 1946, na cidade, continuava a ressoar o matraquear cansado da Central Eléctrica movida agora a gasóleo segundo creio, esforçando-se por fornecer à urbe, não a energia de que carecia mas a possível, em períodos intermitentes, devido ao desgaste dos componentes e constantes, avarias.

Posteriormente tive a informação - creio que correcta - de que, num passado recente, teria sido movida a vapor, com as caldeiras abastecidas a lenha vinda dos mangais próximos e transportada por lanchas que subiam o Chiveve, suposto rio que era na verdade um braço longo do mar com pequenos afluentes dispersos e malcheirosos, que lembravam os braços viscosos de um gigantesco polvo. Avançava pela cidade adentro atingindo os bairros da Ponta Gêa e do Chipangara e separando a Baixa do Maquinino. Essas lanchas movidas à custa de longas varas destramente manobradas por experientes marinheiros negros e com a ajuda das marés da “preia-mar”, subiam o Chiveve carregadas de lenha de mangal até quase às portas da velha Central.

E porque rememoro o que era na altura a problemática do fornecimento de energia à cidade que era como disse, bastante deficiente, lembrei-me de um pormenor curioso relacionado com esse mesmo fornecimento e que, de igual modo, havia observado em Lourenço Marques sem lhe dar a devida importância: a determinada hora, creio que por volta das oito e meia da noite, a energia baixava gradualmente de intensidade até quase se extinguir, voltando logo a seguir à normalidade.

Só na cidade da Beira, onde o facto também se registava, é que vim a tomar conhecimento das razões desse afrouxar pontual de energia, e elas constituíam afinal um sinal para que os patrões dos empregados domésticos e outros, soubessem que eram horas de os libertar para deixarem o trabalho e recolherem a casa porque, a partir das vinte e uma, não era permitido ao negro deambular pelas ruas da cidade de cimento, nem mesmo pelos bairros indígenas da periferia, a menos que tivessem em seu poder um ”salvo-conduto” ou “passe”, ou até uma carta do patrão, que justificasse a sua saída tardia do serviço.

Era a hora do recolher obrigatório!...

Muitos dos que moravam nos bairros mais distantes, tinham que fazer o trajecto em passo de corrida, para não serem apanhados e levados para os calabouços onde passavam a noite, para serem libertados no dia seguinte se estivessem em condições de justificar a infracção e mesmo assim, só depois de castigados pelas tradicionais e humilhantes palmatoadas, dadas pelos seus irmãos de cor, os sipaios, que o faziam a mando dos seus superiores hierárquicos. Se não obedecessem a tão aviltante ordem, uma recusa inconcebível e por isso muito rara, eles próprios eram submetidos ao mesmo tratamento, agravado com alguns dias de calabouço e suspensão de funções por períodos determinados e por vezes expulsos da corporação policial.

Sendo rara como disse essa recusa, é de toda a justiça e em nome da verdade que se diga de passagem para que fique registado o facto, que alguns deles o faziam com satisfação e com requintes de malvadez que lhes não eram exigidos, sobretudo quando o detido não lhes era simpático ou pertencia a região ou etnia diferente da sua.

Era “um ver se te havias” nas formas repressivas para travar leviandades que estivessem em incubação nas cabeças duras dos pretos, de prevenir irreverências futuras ou ainda, para acautelar e desencorajar o desenvolvimento de movimentos subversivos e de potenciais sublevações porque afinal, o acto de pensar e de chegar a conclusões óbvias, não era privilégio da raça branca, que se afirmava como a mais inteligente.

Era este na verdade o pensamento que prevalecia na maioria das cabeças ocas dos colonos portugueses porque, além dessas ideias lhes terem sido incutidas por uma propaganda insidiosa e metódica, a maioria deles era de origem humilde e constituíam terreno fértil para as machambas de culturas dóceis e a minoria os mentores ideológicos, os fazedores da política sócio-económica da metrópole e das colónias, os machambeiros da desgraça.

Infelizmente tive, como o tiveram muitos outros nas pessoas dos seus mainatos e moleques, oportunidade de ver algumas dessas mãos castigadas, apenas pelo crime de andarem na rua por não terem tido tempo de chegar à sua palhota. Apresentavam-se disformes e intumescidas, como alguns dos olhos dos seus donos, por terem passado a noite em claro gemendo de dor, apesar das mijas abundantes que verteram sobre elas, para beneficiarem de algum alívio como se acreditava, mas também e sobretudo por chorarem de raiva e impotência.

Mas ficávamos por aí, como observadores passivos e insensíveis, outros até com uma certa incoerência relativamente às suas ideias e convicções, sem uma palavra ou um gesto de revolta contra tamanhas barbaridades. Tudo não passava de rotina. Tratavam-se os “trambolhos” com banhos de água fria, bálsamos refrescantes e algumas cínicas palavras de conforto, mas tolerava-se a peçonha como um mal menor, um mal necessário para a tranquilidade de todos mas também da nossa vergonha e do nosso opróbrio. Era mais cómodo e evitávamos o epíteto de subversivos contra a ordem estabelecida do “Estado Novo”, no velho e bolorento estado da metrópole colonial!... Partia-se do princípio de que o castigo se não era justo era tolerável, porque o simples facto de se ser preto já era crime bastante para que todos o aceitassem como inevitável, na medida em que todos ou a maioria se calava, sem pedir justificações e exigir responsabilidades a quem as podia dar e assumir!...

In “Memorandos da Vida”, II Volume, de José Cardoso

05/07/07

Apresentando o Cecil

Cecil Rhodes, born this day July 5th, in 1853, was a financier and statesman of British South Africa who served as prime minister of Cape Colony and organized the diamond company De Beers.

"I contend that we [the British] are the finest race in the world and that the more of the world we inhabit the better it is for the human race."

Cecil Rhodes
“Enciclopédia Britânica”


Em 1899 Rhodes esteve na Beira, juntamente com Sir Charles Metcalfe e outras destacadas personalidades, ficando instalados em casa de Alfred Lawley, engenheiro construtor da linha férrea da Beira para a Rodésia. Aí se discutiu o alargamento da linha.


“História dos Caminhos de Ferro de Moçambique” de Alfredo Pereira de Lima

30/06/07

Crónicas de José Cardoso (3)

Recuando no tempo em relação às anteriores crónicas, reporto-me a 1946, ano do meu desembarque no cais do Pungué, levado pelo navio costeiro, “Luabo”, tinha então 16 anos. Encontrei ainda a velha Central Eléctrica a resfolegar de esforço e de velhice, que viria a ser substituída em 1948, pela nova “Central Termoeléctrica” da Munhava. No primitivo terreno seria então erguido o prédio Megaza, como o foram logo a seguir, nos terrenos adjacentes, os prédios da Casa Bulha, A. Teixeira, Entreposto Comercial, Hotel Embaixador e outros, em zonas que eram antes pantanosas e inundadas pelas marés vivas que subiam o Chiveve, formando lânguas de difícil acesso.
Antes destas modernas construções iniciadas a partir dos primeiro anos de 1950, que marcavam o início de um desenvolvimento urbano assinalável, lembro-me, que na área a que me reporto acima, sobressaía, entre velhas construções térreas geminadas destinadas ao pequeno comércio chinês e hindustânico, o interessante edifício de três pisos que dominava a zona e que era a sede do “Clube Chinês”. Teria já na época a que me reporto, segundo informações que obtive, cerca de duas dezenas de anos.
Na área ocupada actualmente pela frequentada Praça do Município, que foi projectada e construída no meu tempo, passando a constituir a sala de visitas da cidade e o seu postal turístico mais representativo, depois das praias que se alongavam desde a praia dos Pinheiros, passando pela dos Alemães e até para além da mais apreciada pelos turistas, a do farol do Macúti, situavam-se as instalações comerciais da Casa Bulha, do F. L. Simões e o Bar de um cidadão grego cujo nome, se não me falha a memória era o de Kusdakis ou qualquer coisa semelhante em termos homófonos.
Estes estabelecimentos, todos eles em madeira e zinco, ladeavam uma via que era o prolongamento da rua General Machado e onde, no sentido do porto, se situavam e ainda se situam à direita, os “Correios”, o “Rádio Scala” a “Cooperativa da Beira” e a “Farmácia Graça” e do lado oposto, num longo edifício, o “Ramchand” e o “City Stores”, ocupando o primeiro andar a “Pensão Theodorakis”. Mais adiante o “Dayram”, que ficava isolado entre dois terrenos devolutos, seguindo-se-lhe um alongado edifício de dois pisos, onde se situavam as “Obras Públicas” e os “Serviços de Viação” que ladeavam, em parceria com a “Casa Portugal”, o “Standard Bank” o “Barclays Bank”, e que me lembre a “Pensão ou Hotel Beira”, o largo Luís Inácio, mais tarde a praça do “Lacerda” como era conhecida.
Aquela que era a avenida da República, única em betão armado no Império Português, ia do local onde foi implantada a Praça do Município até à Praça da Índia. Era das mais antigas da cidade e a partir de certo ponto, a mais apreciada, pelas duas extensas orlas de velhas acácias e jacarandás que a ladeavam e ainda ladeiam desafiando os tempos, e cujos ramos se abraçam no alto, formando um túnel aprazível de refrescante sombra. Continua hoje, no essencial, a ser igual à que conheci na época: a mesma estreiteza de pisos para automóveis e peões, a mesma decrepitude. Mais degradada está a situação do solo pavimentado e utilizado por peões e veículos, apresentando pronunciadas lombas e fissuras, provocadas pela pressão das raízes subterrâneas em resultado do seu inevitável desenvolvimento e expansão ao longo de dezenas de anos.
Os edifícios de maior relevo que lhe davam alguma importância, eram o do “Avenida Hotel” seguindo-se a meio do percurso e em direcção à “Ponta-Gêa” o hospital europeu “Rainha Dona Amélia”, assim conhecido porque servia apenas a europeus, seguindo-se a “Sé Catedral” com a “Escola de Artes e Ofícios” da diocese, tendo em frente a “Escola Eduardo Vilaça” e o edifício que fora antes o “Grémio dos Empregados da Companhia de Moçambique” e mais tarde o “Clube da Beira”, e um outro, onde funcionou a “Emissora do Aero Clube da Beira”, e hoje se situa a “Farmácia Beira”, aberta por Tzitzivacos, um farmacêutico de origem grega, e mais adiante, junto à praça onde pontuaria mais tarde o “Cinema São Jorge”, situava-se e ainda se situa o “Colégio Nossa Senhora dos Anjos”, o colégio das “Mères”, como era então conhecido.
O “Avenida Hotel”, o “Hotel Savoy”, encostado à muralha e junto ao “Clube Inglês”, e o “Beira Terrace” implantado num amplo jardim, também sobranceiro à muralha de protecção à cidade e com vista para a baía, eram cartaz da hotelaria beirense na época. De destacar eram ainda os edifícios do “Tribunal”, dos “Correios”, das “Repartições do Governo” que fora antes da “Companhia de Moçambique”, a “Casa Portugal”, o “Standard e o Barclays Bank”, o “Cinema Olympia” e a “Cadeia”, todos eles na Baixa.
Com excepção do “Beira Terrace” que foi consumido pelo fogo ainda no meu tempo, todos os demais ainda existem e de tão antigos, deviam merecer o estatuto de património da cidade, porque são a sua memória e constituem páginas importantes da sua história.
in “Memorandos da Vida” II Volume, de José Cardoso

27/06/07

Crónicas de José Cardoso (2)

No ano do meu enlace em 1957, com a Laura, minha actual esposa, José Soares Martins, sobrinho do Bispo da Beira, D. Sebastião Soares de Resende, assume a chefia da redacção do “Diário de Moçambique” emprestando-lhe uma dinâmica e uma cultura de mudança, que muitas esperanças trouxeram aos citadinos e alarmaram sobremaneira as hostes fascistas da “União Nacional” e os governos provincial e central da colónia.

Alguém teria dito na altura, que a redacção do “matutino” era o ponto de encontro do aguerrido e numeroso grupo do “reviralho” do sítio. Este facto, e as notícias que íamos recolhendo todos os dias, das furtivas escutas nas emissoras que emitiam em português e que alguma confiança nos mereciam, como as da “Rádio Brazzaville”, “Rádio Moscovo” e “B.B.C.”, davam-nos algum alento e a certeza de que a mudança estava próxima e que era irreversível. Também as notícias inseridas num ou noutro jornal estrangeiro como o “L’Humanité” ou o “Portugal Democrático”, este último editado em São Paulo no Brasil, e ambos de circulação subterrânea, limitada e clandestina. Chegavam-nos às mãos por diversas vias, e constituíam, sem sombra de dúvida, motivos mais do que suficientes para manter em polvorosa desusada os “unionistas” e de uma maneira geral todos os colonos ineptos, vazios de ideais e de bom senso.

Preocupado o poder com o evoluir de uma situação desumana e monstruosa que ele próprio criara, alimentando práticas arbitrárias e devaneios de grandezas territoriais, tão impossíveis quanto injustas, começava a dar mostras de fraqueza e de incapacidade para controlar e conter a voracidade do “monstro” que ele próprio concebera, e que acordara dos sonos mitológicos ancestrais, que séculos de escravidão e letargia, transformavam em lendas.

Quanto a nós, os “democratas” – as aspas são voluntárias, porque a experiência me dizia que nem todos o eram nem a muitos reconhecia condições para que o viessem a ser algum dia -, a conjuntura era propícia para nos manter mais unidos, activos e confiantes. Pelo correio, ou porque a vigilância abrandasse em alguns momentos na censura às encomendas postais, ou porque não considerassem algumas publicações de carácter cultural potencialmente perigosas, recebíamos com alguma regularidade a “Vértice” e a “Seara Nova” que muitos de nós assinávamos. Com mais regularidade a primeira que a segunda, talvez pelo que esta pudesse sugerir nas cabeças dos censores, com a combinação das “explosivas” palavras “Seara” e “Nova”. Vocábulos transcendentais de múltiplas leituras.

Estes jornais e revistas corriam de mão em mão cumprindo a sua missão de informar e educar consciências, mas sobretudo de estimular ideias e acções solidárias, a exemplo da “Chama Olímpica” que de mão em mão percorre países e gentes, proclamando os nobres ideais da solidariedade, e da necessidade de todos se conservarem sãos, tanto de corpo como da mente.

Mantínhamo-nos, ou fazíamos por isso apesar de tudo, razoavelmente bem informados sobre a evolução dos acontecimentos, quer dos que aconteciam na região, que nos eram escamoteados por uma censura feroz, umas vezes cega, outras imbecil, quer nos que ocorriam no resto do mundo, que também passavam pela mesma peneira de rede fina.

A 14 de Fevereiro de 1958, o “Diário de Moçambique” escrevia: “ Esta África está na encruzilhada da sua história (...) e teima-se em continuar em África a fazer colonialismo!...” Inesperada e ousada opinião numa época e num regime em que, o simples facto de a ter não era saudável, e muito pior era publicá-la em letra de forma.

Outras incursões pela verdade e pela denúncia de abusos, injustiças e despotismos, não tivemos oportunidade de as ler, a não ser através de cópias clandestinas e panfletárias que passavam de mão em mão. A acção das tesouradas da censura, obrigavam o jornal a aparecer a público com grandes manchas a negro, nos lugares onde se presumia deverem estar crónicas, artigos de opinião ou simplesmente notícias importantes e de interesse público, que não interessava ao regime dar a conhecer, porque eram libelos insofismáveis contra o regime e o acusava. Porém, até essas manchas negras ou brancas, a dada altura, pela frequência com que apareciam, passaram a ser por sua vez censuradas e proibido o seu uso como subterfúgio, interditando ao jornal a possibilidade de, dessa forma, informar o leitor da frequência e extensão dos cortes do censor e do tamanho da sua prepotência e desavergonhice.

Apercebíamo-nos no entanto com natural satisfação, que o “Diário de Moçambique” começava a ser o “calcanhar-de-aquiles” dos poderosos e dos políticos de direita, que defendiam uma imprensa cinzenta, cobarde e bajuladora, tanto da local, representada pelo “Notícias da Beira” do Victor Gomes, como pelo “Notícias” de Lourenço Marques, capital da “colónia-província”, representado pelo capitão Vaz!

A isso se recusava a sua direcção, nas pessoas de D. Duarte de Almeida – o elefante branco como era conhecido -,e José Soares Martins, mas também dos seus trabalhadores como o Rui Cartaxana, o Fernando Gaspar, o Correia Paulo e o novato e prometedor Mário Ferro, que são tantos quantos os que a minha memória ainda conserva. Ele provocava ainda sem dúvida, o desnorteio das “bússolas” orientadoras da polícia política e dos “bufos” sem política, que começavam a aperceber-se da existência de um preocupante avolumar de alvos para tão poucas munições.

Do “Arquivo Histórico de Moçambique” de Outubro de 1989, retiro, com a devida vénia, alguns apontamentos de um artigo de José Soares Martins, como contributo para a história do jornal: “Se o “Diário de Moçambique” viria, a partir dos últimos anos da década de 50, a ser considerado como um órgão de imprensa extremamente incómodo para a autoridade colonial, que, por isso, o carregou de multas e o suspendeu por várias vezes (a última das quais pelo espaço de 30 dias), de facto, nos primeiros tempos da sua publicação, nada indicava tratar-se senão de um jornal perfeitamente acomodado ao “establishment”. Mais adiante continua: “ Foi um escândalo que o jornal, e um jornal propriedade da igreja, na campanha eleitoral em que interveio o general Humberto Delgado, tomasse uma posição liberal, não privilegiando o candidato oficial.

O que hoje é ridículo era, então, motivo para represálias e dissabores de toda a ordem. Como era grande escândalo nesse tempo, um jornal apesar de tudo produzido em África, relevar os acontecimentos da política africana. Como lhe provocou suspensões o atrevimento de noticiar os primeiros acontecimentos que assinalaram o começo da luta de libertação.


In “Memorandos da Vida”III Volume, de José Cardoso

19/06/07

Erosão nas praias

Invasão da praia pelo mar

... Os sinais de erosão que observei, a inclinação da praia, e pobreza das dunas de areia tanto pelo que respeita a extensão como a peso, e o baixo nível a que se encontram os terrenos situados por detrás dessas dunas, nível que regula pelo das preia-mares de águas vivas vulgares ou poucas polegadas mais alto, tornam indispensável a adopção tão rápida quanto possível de quaisquer meios de defesa. Pelos sinais visíveis na praia pude verificar que as marés mais altas alcançaram já a base daquelas dunas, as quais, conforma tive ocasião de observar, têm apenas 33 a 36 pés de largura na base e cerca de 4 a 5 pés de altura.
Segundo o relatório elaborado em Julho de 1910 pelo ..., o mar tem avançado continuamente e em poucos anos árvores que dantes estavam em terreno firme vêem-se agora na praia.
É evidente que o primeiro passo a dar no sentido de combater a erosão é averiguar quais sejam as causas que a determinam, mas como para isso seriam indispensáveis observações feitas durante um período de tempo muito mais longo do que aquele que a prudência aconselha que se espere para tentar qualquer medida no sentido acima mencionado, torna-se necessário assentar desde já em qualquer coisa, de modo a serem postas em prática ao menos medidas experimentais tendentes a defenderem das invasões pelo mar os terrenos por detrás das dunas.
Há dois aspectos principais sob que pode manifestar-se a erosão. Pode ser determinada apenas pela acção das marés e do vento desde um pouco abaixo do nível da baixa-mar até ao da preia-mar, ou pode ser devido ao abaixamento do fundo do mar lá fora e à gradual aproximação de maiores fundos em direcção à praia. Se a razão for esta tornar-se-á extremamente difícil, se não impossível, remediar o caso, pois que o mar iria infraescavando e lançando por terra quaisquer obras de defesa que se construissem.
Eu creio, porém, que toda esta costa tende a elevar-se de um modo muito semelhante ao que se observa mais ao sul, na Zululandia, e não me parece que na foz de um rio como o Pungué, cheia de materia aluvial, possa ter lugar um grande abaixamento, especialmente a uma pequena distância para o norte. E os aspectos dos bancos indicados na carta do Almirantado tende a confirmar esta suposição.
A formação do banco na Ponta Gêa denota igualmente a deslocação para sul das areias que formam a praia a um nível superior ao da baixa-mar, pela acção do vento e da ressaca; e por isso se me afigura que a erosão se dá apenas na faixa compreendida entre um nível um pouco inferior ao da baixa-mar e o da maré cheia, dando assim lugar à grande inclinação que a praia tem actualmente.
O único remédio para este mal está a meu ver na construção de "groynes" (quebra-mares) e, talvez mais tarde, de uma pequena muralha acima da linha do preia-mar.
Como está averiguado que a fuga das areias da praia tem lugar em direcção ao sul, e que a conservação do banco da Ponta Gêa está dependente dessa condição, torna-se necessário que a construção dos "groynes" se comece a partir daquela extremidade da praia e se continue gradualmente para leste. Se se procedesse pela forma inversa e se começasse o assentamento dos "groynes" em qualquer ponto a leste e se fossem construindo em direcção à Ponta Gêa aconteceria que esses "groynes", sendo bem construídos, impediriam a marcha das areias da paria e aumentaria a erosão ao sul dos mesmos, isto é, para os lados da Ponta Gêa ...

in relatório de 1911 do célebre engenheiro inglês capitão Calhcart W. Methven

18/06/07

Crónicas de José Cardoso (1)

A 24 de Dezembro de 1950, quatro anos após o meu desembarque na Beira, surgia na cidade um segundo diário, o “Diário de Moçambique”, cujo proprietário era a Diocese da Beira.

Pouco tempo depois, em 1952, o engenheiro Jorge Jardim, afilhado de Salazar e membro influente do partido único a “União Nacional”, fixava-se na Beira, mais propriamente no Dondo, onde tinha interesses e “tachos” como os da “Lusalite de Moçambique”, e onde constituiria o seu quartel-general, para as actividades de que estava incumbido por alguém e de outras, possivelmente mais obscuras, de sua própria iniciativa.

Aparece como deputado à Assembleia Nacional Portuguesa, na qualidade de representante da “colónia”, que entretanto vestira como todas as outras, novas roupagens de enganosa e inventiva nomenclatura: a de “Província Ultramarina”, numa tentativa de alterar o “nanismo” de um pequeno corpo da Europa mediterrânica, para o “gigantismo” de um território, superior em duas vezes e meia aproximadamente, à soma das áreas ocupadas pela Espanha e pela França.

Já neste tempo o fenómeno endémico da “obesidade” física, que hoje preocupa as classes médicas de muitos países ricos, era doença que não preocupava as classes políticas da metrópole colonial, no que se refere à dimensão do país, mostrando ter “mais barriga do que olhos da razão”, quando propalavam obscenamente uma falsa e utópica grandeza territorial, com a condescendência de uns e a conivência de outros, igualmente interessados na manutenção das suas áreas de influência, dos seus interesses económicos e dos seus impérios.

Deixávamos portanto de ser por simples “decreto”, odiosos e refinados “colonos” para nos transformarmos em bons samaritanos, como que a modos de “provincianos” ou coisa que o valha, em obediência ao novíssimo vocabulário do “faz de conta”.

Os pretos, esses, deixavam de ser colonizados para ser “provincianilizados” e o mundo que fosse “pró carvalho que os carregasse”, ou pentear macacos porque, nestes miraculosos e abençoados mimetismos, “quem tem um olho é rei” e o rei, ‘tá mais que visto, é quem tem o ceptro do poder, a cruz de Cristo ao peito e a decisão num “cospe fogo moderno de repetição”, a tiracolo. Tudo o resto é estúpida ignorância de plebeu e de sabidas heresias de cortesã, como diria Ramalho Ortigão: “Ide resplandecer... no ceptro dos reis e nas chinelas das cortesãs”. (em A Holanda p.183).

Mas não resisto em voltar a referir-me a essa famigerada personagem que tanto odiei nos silêncios das minhas clandestinas cogitações, o Jorge Jardim que, como se verá mais adiante, teria sido para a Beira e para Moçambique, como um tumor maligno, com ramificações obscuras e perigosas de sua lavra, inspiradas nas sinistras “escolas” do nazi-fascismo de Salazar, seu padrinho, onde era mestre e principal ideólogo.

25 de Agosto de 1954, surgiam no éter limitado do espaço beirense, as ondas hertzianas da “Rádio Pax”, estação emissora também anexa à diocese que, a par das notícias escritas do “Diário de Moçambique”, constituíam reais ameaças ao “status quo” da sociedade beirense, o antivírus possível às acções corrosivas dos “contras”, que tentavam parar com as mãos, os ventos da evolução irreversível da nossa história e até da história do mundo, consubstanciada nos conflitos caseiros de uma cidade que se afirmava dinâmica, inconformada e progressista, tanto quanto retrógrada e reaccionária se apresentava por banda dos pregadores da soberba e da imoralidade.

In “Memorandos da Vida”, III Volume, de José Cardoso.

09/06/07

Início do Porto e Caminhos de Ferro da Beira

De início não existiam quaisquer facilidades além do fundeadouro de difícil acesso e o abrigo natural que oferecia o estuário do Pungué, mas tudo evoluiu com o desenvolvimento do caminho de ferro de penetração. A carga era simplesmente baldeada para lanchas que seguiam a reboque para Fontesvilla (junto á actual ponte ferroviária do Pungué) ou eram descarregadas na praia destinadas à incipiente cidade que começava a tomar forma e a ensaiar os primeiros passos, muito difíceis, perante a ameaça, sempre presente, da força devastadora do mar.
A Beira Railway Company começou em Setembro de 1892 a construção da do caminho de ferro a partir de Fontesvilla para Umtali (actual Mutare). Inicialmente foram empregues um grande numero de trabalhadores indianos e chineses para a construção da linha, mas a taxa de mortalidade (principalmente devido à malária) era tão elevada que tiveram de passar a recrutar trabalhadores locais.
Só mais tarde em 1895 se faria o troço Beira-Fontesvilla. Era uma linha de bitola reduzida (2 pés , 0,607 m).

À medida que a linha férrea era assente, abriu-se paralelamente uma estrada por onde transitaram velhas diligências australianas do tipo Cobb, emprestando o mesmo colorido dos tempos da corrida para o ouro na Austrália e na América do Norte.
Em Maio de 1899 ficou concluída uma linha de via larga (1,067 m) de Umtali para Salisbury (actual Harare) e só então iniciou-se o alargamento da linha para a Beira a partir de Umtali.
Em 1899 rebentou a guerra entre os “boers” e os ingleses e ao princípio isso pouca influência teve na linha, mas com as primeiras vitórias “boers” e depois o cerco posto a Mafeking, que fez cortar a linha do sul de Bulawayo (atravessando o actual Botswana), o panorama mudou por completo em toda a Rodésia, bem como na região situada ao sul de Bulawayo, que se tornou inteiramente dependente da linha da Beira e do seu porto.
Por essa linha, cujo alargamento de bitola só estava realizado entre Umtali e Bamboo-Creek (posteriormente Vila Machado e actual Nhamatanda), passou todo o fluxo do esforço de guerra britânico contra os “boers”. Por ali passaram contingentes de tropas australianas, neozelandesas, uma bateria de artilharia canadiana e outras tropas inglesas levadas em socorro de Mafeking. Mais de 7.000 homens do exército inglês foram transportados pela linha Beira-Umtali por essa época, além de muitas centenas de cavalos vindos da Hungria e da Argentina e mulas da Argentina e do Texas.

Fonte: História dos Caminhos de Ferro de Moçambique, Alfredo Pereira de Lima, 1971.

30/05/07

Cine-Clube e Auditório (2)

As instalações adquiridas por um processo que hoje à distância considero de compulsório e fruto de um sentimento de medo generalizado, que evitou que os seus legítimos proprietários, os sócios das três agremiações que constituíam o “Auditório Galeria e Arte”, lutassem pelos seus direitos e os seus sonhos. Ocupado e de “mão beijada”, satisfaziam pelos vistos as necessidades culturais da Direcção Provincial de Cultura que ao tempo, gatinhava ainda na busca das raízes de uma moçambicanidade cultural, mas caminhava a passos largos na destruição de outras culturas que se recusavam em assumir como património conquistado mas que, no mínimo, deveriam ter sido respeitadas porque afinal, três décadas depois, viriam a assumi-las com exageros de interpretação e de tolerâncias subordinadas!...
De uma coisa estou seguro. O processo não foi regular, não foi justo, nem obedeceu a critérios de legalidade. As nacionalizações, tanto quanto sei, referiam-se a prédios de rendimento e a outros, que não o sendo, se encontrassem abandonados por ausência dos seus donos, que preferiram abandonar o país definitivamente. O “Auditório” não era um prédio de rendimento nem se poderia considerar de abandonado. De entre os mais de l.000 associados que o constituíam e ajudaram a construir, muitos eram ainda os que viviam na Beira e que desde sempre se consideraram como moçambicanos, por opção ou nascimento. Uma reunião com eles, convocada pelos responsáveis provinciais da cultura, era o mínimo que se poderia esperar, para legalizar a situação e dar ao “Auditório” o encaminhamento que fosse decidido, para bem da cultura e da revolução.
Se estou errado na análise que faço sobre o assunto, que me corrijam os expertos da política e das leis deste país que é também o meu, para que dê a mão à palmatória se for caso disso.
* * *
Na realidade, pondo de parte os acabamentos, o edifício estava completo e funcional, com salas e oficinas para pintura, desenho e escultura, salões espelhados para o ensino e prática de “ballet” e outras danças, diversos departamentos para reuniões e secretarias destinadas a cada uma das agremiações que faziam parte do complexo, além de um café-bar comum e finalmente, uma sala de espectáculos com cerca de 600 lugares, um palco que na época, foi considerado um dos maiores do País, e uma cabina apetrechada com projectores de 16 mm e de super 8, bem como os respectivos sistemas sonoros.
Todas as salas estavam apetrechadas com o equipamento indispensável para o seu funcionamento e o palco, de uma tela gigante de transparência e de um “órgão” de luzes com cerca de uma quinzena de projectores, desde os “babys” aos pesados “canhões” e às “panelas”, como dádiva, a nosso pedido, da fundação “Calouste Gulbenkian”.
As pesadas cortinas que fechavam a “boca de Cena” foram confeccionadas pela Laura que a elas dedicou muitas horas de trabalho à frente da sua máquina de costura, tal como muitos outros associados o haviam feito noutros misteres.
A larga escadaria dava acesso a um átrio amplo e totalmente coberto onde, à direita, se encontravam as salas de trabalho do Cine-Clube, seguindo-se-lhes o café esplanada, voltado para um pequeno jardim interior a céu aberto. Um pequeno lago artificial repleto de peixes de água doce, que evoluíam em redor de uma estátua esculpida em pedra, ou melhor, em material que a sugeria, feita pelo Jorge Vasconcelos, e que representava, na figura de uma jovem semi-nua, a tranquilidade, a arte e a inocência, complementava o pequeno e agradável espaço verde, sobranceiro à esplanada do café-bar. Para além deste espaço, encostado às margens do Chiveve ficava o bloco que comportava as salas de “Ballet”, da música, da pintura e da escultura.

Na fachada principal, a parede que nos ficava à direita da escadaria que dava acesso ao átrio, estava totalmente preenchida por uma bela e elucidativa pintura da autoria de Malangatana, executada nos princípios dos anos 70, aquando de uma das suas visitas que fez à cidade, tendo ficado hospedado em casa da Maria Helena e do Álvaro Simões.
Durante muitos anos, era na casa a que me refiro acima, nas Palmeiras, antes da Maria Helena enviuvar do Joaquim José Elias, que um grupo de amigos se reunia para conversar e ouvir boa música. Recordo-me dos irmãos João e José Afonso, do Álvaro Simões, do arquitecto Ramalhete, do Noronha Marques, do Rafael Nunes de Carvalho e mais recentemente dos jornalistas José Catorze e Peixe Dias, entre muitos outros.
Com a obra de arte a que me referi - o mural pintado na parede do “Auditório” -, surgiram logo a seguir ao seu término alguns problemas com as autoridades locais que, incomodadas com o que pudessem querer dizer as suas figuras, num momento crucial de luta armada pela libertação do povo e a independência do território, de confusão política e social, nos pressionaram para que a eliminássemos com umas borradelas de tinta neutra. A justificação era a de que, ela representava a resistência do povo através dos tempos, e presumia, nas “entrelinhas” das figuras amarguradas, por onde espreitavam armas e decisões, a sua próxima libertação. Mas o que mais os perturbava parecia ser o tamanho do mural, além da sua simbologia, porque era ampliada para se ver à distância, tomando proporções intoleráveis de uma ostensiva provocação.
Por sinal, a leitura que fizeram da obra era correcta porque os simbolismos utilizados eram por demais evidentes e o seu autor ao criá-la, demonstrara coragem assim como nós, que recusámos em fazer-lhes a vontade, não cedendo às suas pressões e curiosa e estranhamente tímidas ameaças. Talvez porque o momento conturbado por indefinições e incertezas porque passávamos, devido ao recrudescimento da luta armada pela libertação do país, não fosse propício a tomar decisões, normalmente mais prepotentes e drásticas e ficaram-se por aí. A obra lá continua, esbatida pelo tempo, pelas intempéries, pela humidade salubre do “Chiveve”, mas sobretudo por ausência de restauro e abandono total.
Curiosamente, à coragem que precisámos ter na altura, para não nos subordinarmos às pressões das autoridades coloniais, contrapôs-se mais tarde uma apatia generalizada e até a empatia do contrário, por acção do fenómeno do “deixa andar” que se apegou como tinha na sociedade moçambicana do pós independência, pseudo-revolucionária nos primeiros tempos e depois acomodatícia à “democracia” global que lhe foi imposta, como lapa mediterrânica em rocha dura.
Os anos vão passando e pelo andar da carruagem que é muito lenta, não aproveita ninguém para saltar no apeadeiro das decisões e desembaraços, interessado em convidar o autor do mural, o velho mestre Malangatana, para dedicar um pouco do seu tempo a restaurá-lo. Não pode nem deve esta obra de arte, se ainda existe, ser considerada como herança do colonialismo, como muita coisa foi rotulada para justificar abandono e vandalismos de toda a espécie. Os responsáveis neste País pela Cultura, deviam ter mais país e mais cultura dentro deles, para que pudessem respeitar uma e outro.
Compete ao Ministério de tutela que “herdou” o complexo do “Auditório Galeria e Arte”, assumir a responsabilidade da sua conservação e restauro, incluindo o mural que faz parte do mesmo património. Mas também competia ao autor tomar iniciativas próprias para restaurar e conservar a sua obra e não a abandonar como produto menor da sua arte, porque nunca o considerámos como tal, antes pelo contrário. A sua arte e o seu labor, surgiu como fruto maduro de um embondeiro que nos deu sombra e nos ajudou a tomar consciência do que acontecia no país. O abandono da obra, como sucede com muitos que nada reconhecem nem se reconhecem a si próprios, é como que abandonar um filho indesejado e pouco querido, por ter nascido fora de tempo e com sequelas de distúrbios emocionais que o indiciam como fruto indeiscente. Perspectiva terrível que, de tão inglória e inoportuna, me recuso em aceitar como a adoptada pelo meu velho amigo Malangatana Valente!...