Ministério dos Negócios da Marinha e Ultramar. Direcção Geral do Ultramar. 2ª Repartição. 2ª Secção. Decreto.
19/08/07
Diploma de criação da cidade
Ministério dos Negócios da Marinha e Ultramar. Direcção Geral do Ultramar. 2ª Repartição. 2ª Secção. Decreto.
05/08/07
Crónicas de José Cardoso (6)
Sabíamos, pelo que ouvíamos e líamos nos órgãos de comunicação social, que em vários pontos do país se procedia à perfuração do subsolo na procura de hidrocarbonetos e, suponho, que de outras riquezas naturais, nomeadamente nas regiões do Búzi e de Inhambane, possivelmente noutras menos conhecidas, porque menos ou nada divulgadas.
Corriam na cidade as mais diversas especulações sobre o assunto até que, em 1962, foi anunciada a descoberta de importantes jazidas de gás natural em Pande e Temane, na já referida província de Inhambane.
Pouco tempo depois fomos surpreendidos por um fenómeno nocturno curioso e de certo modo deslumbrante, ao mesmo tempo que os jornais e a rádio, anunciavam a deflagração de um violento incêndio num dos poços abertos em Pande.
Ao cair da noite, uma auréola alaranjada manchava o céu distante, a algumas centenas de quilómetros, parecendo que o poente suspendera por qualquer motivo transcendente, o seu declínio natural.
Convivemos com esta imagem nocturna e habituámo-nos a ela durante largos meses, até que, se extinguiu, por acção de técnicos especializados na extinção de incêndios semelhantes, vindos dos países que tinham a responsabilidade contratual de proceder a pesquisas de hidrocarbonetos no nosso, nomeadamente dos Estados Unidos da América.
Quase em simultâneo, a Beira era sacudida por outra notícia, que só pelo facto de não ser suficientemente divulgada nos órgãos de comunicação social por razões que desconheço, lhe dava uma auréola de autenticidade encoberta. Corria de boca em boca de forma especulativa, que no Búzi, teria sido descoberto petróleo. Oficialmente nada foi confirmado nem, que me lembre, desmentidos os rumores, e se o foi, ninguém deu crédito à notícia porque, as próprias fontes que as forjavam e disseminavam, eram porta-vozes de interesses económicos suspeitos e estavam por isso e por muitas coisas mais, sobejamente desacreditadas.
Fosse como fosse, verdade ou não, o que corria nos bastidores da murmuração, era o que constava como um facto real: alguns habitantes da vila do Búzi, estavam a utilizar nos seus automóveis, um novo combustível retirado dos poços ali abertos, a que deram o nome de “buzilina”.
Tive ocasião de observar uma garrafa contendo “buzilina” que um amigo teve a amabilidade de me mostrar e, constatei, que se tratava de um líquido transparente e incolor, tal como o álcool puro, e tinha um cheiro intenso muito activo, que se situava entre o odor daquele e o da gasolina. Essa amostra porém, não seria suficiente para que, por ela, pusesse “as mãos no fogo”, como garante da veracidade do que dela se dizia. Até porque, na vila, havia uma açucareira que também fabricava álcool puro para exportação e uso interno e sabe-se lá o que com ele se poderia urdir para explorar a credulidade de papalvos menores, em ambiente de esperança e de exaltação patriótica!...
De qualquer forma, ou porque continuasse a ser igualmente crédulo, ou porque as testemunhas que afirmavam ter sido o famoso líquido, a “buzilina”, retirado dos poços, me merecessem confiança, ainda hoje tenho dúvidas e me interrogo, se não teria estado perante um produto original.
Não houve nenhum esclarecimento sobre o assunto, nem que sim, nem que não, nem que também, e por isso, atribuímos à população da vila o benefício da dúvida, tanto mais que, logo a seguir, foi noticiado o encerramento definitivo dos furos de prospecção que haviam ali sido abertos, sem que até hoje se saiba das razões da decisão.
E então especulou-se - porque nunca se tornou a falar no assunto e por ter caído no esquecimento -, que se teria descoberto algo de importante e que a selagem dos poços, poderia querer dizer que a descoberta, ou não era suficientemente significativa para justificar a sua exploração, ou ficava como reserva, em “stand by”, aguardando por melhores oportunidades.
Se se tratou de um estratagema de diversão para enganar o “indígena” como era hábito dizer-se, então, foi muito bem conseguido porque, pelo menos eu, ignorante, porque também sou indígena de algum lugar, aceitei-o como verdadeiro, como aceito ser exacto o aforismo popular de que só existe fumo onde existe em combustão uma fogueira.
A talhe de foice, mas a propósito, transcrevo com a devida vénia um parecer sobre a ignorância, elaborado por Richard S. Lindzen, reconhecido cientista americano: “A noção de que se você for ignorante em alguma coisa e alguém lhe aparecer com uma resposta errada, tem de aceitá-la porque não tem uma outra resposta errada para dar, é como a cura pela fé, é como o charlatanismo na medicina. Se alguém lhe disser que deve ingerir caramelos para curar o cancro e você responder que isso é estúpido, ele diz, bem, pode sugerir alguma outra coisa? Será que ao responder que não isso quer dizer que você tem de ingerir caramelos?”
Bem. É razoável pensar-se que, o preferível, por via das dúvidas, é não virmos a sofrer de câncer!...
16/07/07
Crónicas de José Cardoso (5)
“Para grandes males grandes remédios”, é um aforismo muito popular entre nós e o governo não hesitou em segui-lo, tomando medidas extremas como “grandes remédios” numa feroz repressão contra os “grandes males” que representavam no momento o “Diário de Moçambique”, amordaçando-o duramente e enfraquecendo-o, para que mais tarde caísse de maduro e o pudesse tomar de assalto por via de algum acólito sabujo.
Assim, por despacho do Secretário-geral da “Província”, de 14 de Fevereiro de 1968, ordena-se: “fica suspenso o referido jornal por trinta dias a contar do dia da notificação, por ter publicado no seu número 6167, de 7 do corrente mês, o artigo sob a epígrafe “Automóveis roubados” sem que o tivesse submetido previamente à apreciação da Comissão de Censura à Imprensa”.
A denúncia de crimes e de criminosos, estava pelo que se lê, igualmente sujeita à peneira do censor, não fossem eles pessoas gratas ao regime e como tal intocáveis. Seria um acto ridículo se o mesmo não fosse escandalosamente cúmplice, dos abusos que então se cometiam, em nome de uma moral inquisitória e corrompida, até à medula das conveniências insensatas e totalitárias.
Para sofrer tamanho castigo, para que se calasse um jornal diário por período tão longo, o artigo devia ser uma “bomba”, talvez “um libelo terrível”, parafraseando Ramalho Ortigão noutro contexto, contra o governo português e contra a sua política colonial.
Afinal era apenas a denúncia de um facto que era conhecido e comentado por toda a cidade, mas, nada melhor do que transcrever o referido artigo para podermos aquilatar da potência da “bomba” e da prepotência do censor e do governo da “Província” ou melhor, do território de Moçambique colonizado. Transcrevo-o pois para apreciação do ledor atento e com tento, ou para que fique simplesmente registado:
“Se o leitor, por volta da meia-noite, deu por falta do seu automóvel, talvez lhe encontre a pista lá para os lados da Manga, à beira de alguma ruela; com noventa por cento de possibilidades acertará se pensar que lhe foi levado por algum pequeno grupo de militares.
Se o leitor dá pela falta do carro à madrugada, pode encontrá-lo, muito provavelmente, junto da Base Aérea. Com noventa por cento de possibilidades, foi-lhe levado por militares daquela Base.
Se o leitor encontra o seu carro onde o deixou, visivelmente amolgado, indiciando tentativas de abertura e furto, tem noventa por cento de possibilidades de acertar, atribuindo o desacato a militares da Força Aérea. Com efeito, desde há muito tempo, multiplicam-se os destemperos do género; e a sua frequência demonstra que isto agora é assim...”
E o artigo prossegue com algumas considerações de ordem moral e cívica, mas o que transcrevi é suficientemente esclarecedor de que aos militares-ladrões lhes era dada protecção e impunidade.
Todos sabiam, até as populações dos subúrbios que, quando alguns grupos de militares da força aérea se deslocavam da Manga onde estavam baseados, para se divertirem no centro da cidade, ao aproximar da hora de recolher, não se inibiam para tomar de assalto um ou mais automóveis, conforme o número de bandos, e neles se fazerem transportar, abandonando-os nas imediações da base.
Todos sabiam mas ninguém mexia uma palha para os deter e pôr na ordem, porque era aconselhável trazê-los nas “palminhas das mãos” para evitar descontentamentos e distúrbios maiores, já que muitos deles iam tomando consciência de que a guerra em que participavam não era a deles e que estavam nela para defender interesses que não eram os seus.
De heróis cegos e patriotas obtusos estavam os cemitérios e os infernos cheios!...
Quero no entanto salvaguardar aqui a honra e a dignidade de alguns que conheci pessoalmente e de muitos outros, que se punham à margem destes desacatos e os condenavam, assim como condenavam uma guerra que lhes era imposta e que consideravam injusta.
A ideologia fascista que leva a estes excessos, infelizmente, tem ramificações e defensores por todo o mundo, como prova a insultante e descarada afirmação do editorialista mexicano António Uroz, que visitou Moçambique em 1962, a convite do governo colonial:
“Se em alguma parte existe liberdade e autêntica democracia, é na província de Moçambique.” Que tremenda mentira e que desplante!...
Não fosse o talento que demonstrou ter este senhor jornalista, para o descaramento e a sabujice, nunca teria sido convidado.
Que outros comentários fazer senão o da minha convicção de que, por crimes menores do que o cometido pelo senhor António Uroz - que ousou insultar publicamente todo um povo oprimido e explorado, exaltando os que o oprimem e exploram -, têm sido muitos cidadãos de outros países condenados por injúria, a pagamentos de coimas e até de prisão!... Mas estes casos vão sendo cada vez mais raros porque, nas “democracias” do ocidente, a jurisprudência é manipulada de forma a garantir uma maior prudência nos juízos, para salvaguardar os interesses obscuros de quem detém o capital e o controle dos mídia e das ideias.
Sobre conceitos de democracia, chamo à liça “Abraham Lincoln” e o meu amigo Guilherme Afonso. Aquele pelo que disse e este pelas informações e considerações que me fez a propósito.
“Pode-se enganar alguns do povo a todo o momento, e todo o povo algumas vezes, mas não se pode enganar todo o povo a todo o momento.” Quem o disse não foi “Bush” – que o Diabo me livre dele porque de Deus é confrade -, mas o 16.º presidente dos Estados Unidos da América (1861-1865), Abraham Lincoln, informou-me o Guilherme que teceu as seguintes considerações, “…de quem vale apenas saber-se que foi o mesmo que, com a sua governação progressista, levou ao desencadear da Guerra Civil Americana (também denominada Guerra da Secessão), e que assinou, em 22 de Setembro de 1862, a Proclamação de Emancipação dos escravos no seu país. Nada de estranhar pois, que num breve discurso em 19 de Maio de 1863 se tenha pronunciado a favor da democracia, definindo-a como “o governo ao povo, pelo povo e para o povo”. Que Lincoln foi um democrata a sério, prova-o a forma como arduamente lutou pelas suas convicções. O que acabaria aliás, por custar-lhe a vida, baleado, em 1865, por um sulista. (Porque se opunham à política anti-esclavagista de Lincoln, os sulistas pretenderam a secessão dos EUA entre o Sul e o Norte e bateram-se por isso, saindo derrotados).
Num desabafo, idêntico a muitos que tenho, porque me aliviam os nervos e me contêm os impulsos, o Guilherme termina: - “Será porque fazer-se corresponder o que se faz ao que se diz implica altos riscos, como vimos em relação a Lincoln, que tanto indivíduo que se apregoa de democrata e faz certas promessas em eleições ao candidatar-se a altos cargos da governação, uma vez conquistado o poder faz tudo ao contrário? Isto, para não falar daqueles para quem a democracia é o mesmo que para o senhor George W. Bush, por sinal o 43º presidente dos mesmos EUA, onde, parafraseando Lincoln, alguns do povo vêm há muito sendo enganados a todo o momento, onde todo o povo vem sendo enganado vezes de mais e não parece que esteja para breve um desses momentos em que todo o povo se não deixe enganar.
Será isso, só porque nunca os poderosos puderam tanto e esse poder também lhes dá cada vez mais meios para enganar o povo? Ou será porque o povo gosta cada vez mais de se deixar enganar?...”
Os povos gostam porque não só são colectivamente cobardes mas também carneiros que se deixam tosquiar - apetece-me acrescentar e pedir desculpa aos carneiros que não têm culpa nenhuma -. Basta-lhes uma cobertura de lã para os resguardar dos frios e ventos invernosos, o restolho dos pastos já usados para lhes entreter os estômagos e os dentes podres, por tantas ruminações transcendentais.
In “Memorandos da Vida” III Volume, de José Cardoso
10/07/07
Shikhani : “É necessário aventurar”
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texto de Adelino Timóteo
06/07/07
Crónicas de José Cardoso (4)
Em 1946, na cidade, continuava a ressoar o matraquear cansado da Central Eléctrica movida agora a gasóleo segundo creio, esforçando-se por fornecer à urbe, não a energia de que carecia mas a possível, em períodos intermitentes, devido ao desgaste dos componentes e constantes, avarias.
Posteriormente tive a informação - creio que correcta - de que, num passado recente, teria sido movida a vapor, com as caldeiras abastecidas a lenha vinda dos mangais próximos e transportada por lanchas que subiam o Chiveve, suposto rio que era na verdade um braço longo do mar com pequenos afluentes dispersos e malcheirosos, que lembravam os braços viscosos de um gigantesco polvo. Avançava pela cidade adentro atingindo os bairros da Ponta Gêa e do Chipangara e separando a Baixa do Maquinino. Essas lanchas movidas à custa de longas varas destramente manobradas por experientes marinheiros negros e com a ajuda das marés da “preia-mar”, subiam o Chiveve carregadas de lenha de mangal até quase às portas da velha Central.
E porque rememoro o que era na altura a problemática do fornecimento de energia à cidade que era como disse, bastante deficiente, lembrei-me de um pormenor curioso relacionado com esse mesmo fornecimento e que, de igual modo, havia observado em Lourenço Marques sem lhe dar a devida importância: a determinada hora, creio que por volta das oito e meia da noite, a energia baixava gradualmente de intensidade até quase se extinguir, voltando logo a seguir à normalidade.
Só na cidade da Beira, onde o facto também se registava, é que vim a tomar conhecimento das razões desse afrouxar pontual de energia, e elas constituíam afinal um sinal para que os patrões dos empregados domésticos e outros, soubessem que eram horas de os libertar para deixarem o trabalho e recolherem a casa porque, a partir das vinte e uma, não era permitido ao negro deambular pelas ruas da cidade de cimento, nem mesmo pelos bairros indígenas da periferia, a menos que tivessem em seu poder um ”salvo-conduto” ou “passe”, ou até uma carta do patrão, que justificasse a sua saída tardia do serviço.
Era a hora do recolher obrigatório!...
Muitos dos que moravam nos bairros mais distantes, tinham que fazer o trajecto em passo de corrida, para não serem apanhados e levados para os calabouços onde passavam a noite, para serem libertados no dia seguinte se estivessem em condições de justificar a infracção e mesmo assim, só depois de castigados pelas tradicionais e humilhantes palmatoadas, dadas pelos seus irmãos de cor, os sipaios, que o faziam a mando dos seus superiores hierárquicos. Se não obedecessem a tão aviltante ordem, uma recusa inconcebível e por isso muito rara, eles próprios eram submetidos ao mesmo tratamento, agravado com alguns dias de calabouço e suspensão de funções por períodos determinados e por vezes expulsos da corporação policial.
Sendo rara como disse essa recusa, é de toda a justiça e em nome da verdade que se diga de passagem para que fique registado o facto, que alguns deles o faziam com satisfação e com requintes de malvadez que lhes não eram exigidos, sobretudo quando o detido não lhes era simpático ou pertencia a região ou etnia diferente da sua.
Era “um ver se te havias” nas formas repressivas para travar leviandades que estivessem em incubação nas cabeças duras dos pretos, de prevenir irreverências futuras ou ainda, para acautelar e desencorajar o desenvolvimento de movimentos subversivos e de potenciais sublevações porque afinal, o acto de pensar e de chegar a conclusões óbvias, não era privilégio da raça branca, que se afirmava como a mais inteligente.
Era este na verdade o pensamento que prevalecia na maioria das cabeças ocas dos colonos portugueses porque, além dessas ideias lhes terem sido incutidas por uma propaganda insidiosa e metódica, a maioria deles era de origem humilde e constituíam terreno fértil para as machambas de culturas dóceis e a minoria os mentores ideológicos, os fazedores da política sócio-económica da metrópole e das colónias, os machambeiros da desgraça.
Infelizmente tive, como o tiveram muitos outros nas pessoas dos seus mainatos e moleques, oportunidade de ver algumas dessas mãos castigadas, apenas pelo crime de andarem na rua por não terem tido tempo de chegar à sua palhota. Apresentavam-se disformes e intumescidas, como alguns dos olhos dos seus donos, por terem passado a noite em claro gemendo de dor, apesar das mijas abundantes que verteram sobre elas, para beneficiarem de algum alívio como se acreditava, mas também e sobretudo por chorarem de raiva e impotência.
Mas ficávamos por aí, como observadores passivos e insensíveis, outros até com uma certa incoerência relativamente às suas ideias e convicções, sem uma palavra ou um gesto de revolta contra tamanhas barbaridades. Tudo não passava de rotina. Tratavam-se os “trambolhos” com banhos de água fria, bálsamos refrescantes e algumas cínicas palavras de conforto, mas tolerava-se a peçonha como um mal menor, um mal necessário para a tranquilidade de todos mas também da nossa vergonha e do nosso opróbrio. Era mais cómodo e evitávamos o epíteto de subversivos contra a ordem estabelecida do “Estado Novo”, no velho e bolorento estado da metrópole colonial!... Partia-se do princípio de que o castigo se não era justo era tolerável, porque o simples facto de se ser preto já era crime bastante para que todos o aceitassem como inevitável, na medida em que todos ou a maioria se calava, sem pedir justificações e exigir responsabilidades a quem as podia dar e assumir!...
05/07/07
Apresentando o Cecil
Cecil Rhodes
Em 1899 Rhodes esteve na Beira, juntamente com Sir Charles Metcalfe e outras destacadas personalidades, ficando instalados em casa de Alfred Lawley, engenheiro construtor da linha férrea da Beira para a Rodésia. Aí se discutiu o alargamento da linha.
30/06/07
Crónicas de José Cardoso (3)
27/06/07
Crónicas de José Cardoso (2)
No ano do meu enlace em 1957, com a Laura, minha actual esposa, José Soares Martins, sobrinho do Bispo da Beira, D. Sebastião Soares de Resende, assume a chefia da redacção do “Diário de Moçambique” emprestando-lhe uma dinâmica e uma cultura de mudança, que muitas esperanças trouxeram aos citadinos e alarmaram sobremaneira as hostes fascistas da “União Nacional” e os governos provincial e central da colónia.
Alguém teria dito na altura, que a redacção do “matutino” era o ponto de encontro do aguerrido e numeroso grupo do “reviralho” do sítio. Este facto, e as notícias que íamos recolhendo todos os dias, das furtivas escutas nas emissoras que emitiam em português e que alguma confiança nos mereciam, como as da “Rádio Brazzaville”, “Rádio Moscovo” e “B.B.C.”, davam-nos algum alento e a certeza de que a mudança estava próxima e que era irreversível. Também as notícias inseridas num ou noutro jornal estrangeiro como o “L’Humanité” ou o “Portugal Democrático”, este último editado em São Paulo no Brasil, e ambos de circulação subterrânea, limitada e clandestina. Chegavam-nos às mãos por diversas vias, e constituíam, sem sombra de dúvida, motivos mais do que suficientes para manter em polvorosa desusada os “unionistas” e de uma maneira geral todos os colonos ineptos, vazios de ideais e de bom senso.
Preocupado o poder com o evoluir de uma situação desumana e monstruosa que ele próprio criara, alimentando práticas arbitrárias e devaneios de grandezas territoriais, tão impossíveis quanto injustas, começava a dar mostras de fraqueza e de incapacidade para controlar e conter a voracidade do “monstro” que ele próprio concebera, e que acordara dos sonos mitológicos ancestrais, que séculos de escravidão e letargia, transformavam em lendas.
Quanto a nós, os “democratas” – as aspas são voluntárias, porque a experiência me dizia que nem todos o eram nem a muitos reconhecia condições para que o viessem a ser algum dia -, a conjuntura era propícia para nos manter mais unidos, activos e confiantes. Pelo correio, ou porque a vigilância abrandasse em alguns momentos na censura às encomendas postais, ou porque não considerassem algumas publicações de carácter cultural potencialmente perigosas, recebíamos com alguma regularidade a “Vértice” e a “Seara Nova” que muitos de nós assinávamos. Com mais regularidade a primeira que a segunda, talvez pelo que esta pudesse sugerir nas cabeças dos censores, com a combinação das “explosivas” palavras “Seara” e “Nova”. Vocábulos transcendentais de múltiplas leituras.
Estes jornais e revistas corriam de mão em mão cumprindo a sua missão de informar e educar consciências, mas sobretudo de estimular ideias e acções solidárias, a exemplo da “Chama Olímpica” que de mão em mão percorre países e gentes, proclamando os nobres ideais da solidariedade, e da necessidade de todos se conservarem sãos, tanto de corpo como da mente.
Mantínhamo-nos, ou fazíamos por isso apesar de tudo, razoavelmente bem informados sobre a evolução dos acontecimentos, quer dos que aconteciam na região, que nos eram escamoteados por uma censura feroz, umas vezes cega, outras imbecil, quer nos que ocorriam no resto do mundo, que também passavam pela mesma peneira de rede fina.
A 14 de Fevereiro de 1958, o “Diário de Moçambique” escrevia: “ Esta África está na encruzilhada da sua história (...) e teima-se em continuar em África a fazer colonialismo!...” Inesperada e ousada opinião numa época e num regime em que, o simples facto de a ter não era saudável, e muito pior era publicá-la em letra de forma.
Outras incursões pela verdade e pela denúncia de abusos, injustiças e despotismos, não tivemos oportunidade de as ler, a não ser através de cópias clandestinas e panfletárias que passavam de mão em mão. A acção das tesouradas da censura, obrigavam o jornal a aparecer a público com grandes manchas a negro, nos lugares onde se presumia deverem estar crónicas, artigos de opinião ou simplesmente notícias importantes e de interesse público, que não interessava ao regime dar a conhecer, porque eram libelos insofismáveis contra o regime e o acusava. Porém, até essas manchas negras ou brancas, a dada altura, pela frequência com que apareciam, passaram a ser por sua vez censuradas e proibido o seu uso como subterfúgio, interditando ao jornal a possibilidade de, dessa forma, informar o leitor da frequência e extensão dos cortes do censor e do tamanho da sua prepotência e desavergonhice.
Apercebíamo-nos no entanto com natural satisfação, que o “Diário de Moçambique” começava a ser o “calcanhar-de-aquiles” dos poderosos e dos políticos de direita, que defendiam uma imprensa cinzenta, cobarde e bajuladora, tanto da local, representada pelo “Notícias da Beira” do Victor Gomes, como pelo “Notícias” de Lourenço Marques, capital da “colónia-província”, representado pelo capitão Vaz!
A isso se recusava a sua direcção, nas pessoas de D. Duarte de Almeida – o elefante branco como era conhecido -,e José Soares Martins, mas também dos seus trabalhadores como o Rui Cartaxana, o Fernando Gaspar, o Correia Paulo e o novato e prometedor Mário Ferro, que são tantos quantos os que a minha memória ainda conserva. Ele provocava ainda sem dúvida, o desnorteio das “bússolas” orientadoras da polícia política e dos “bufos” sem política, que começavam a aperceber-se da existência de um preocupante avolumar de alvos para tão poucas munições.
Do “Arquivo Histórico de Moçambique” de Outubro de 1989, retiro, com a devida vénia, alguns apontamentos de um artigo de José Soares Martins, como contributo para a história do jornal: “Se o “Diário de Moçambique” viria, a partir dos últimos anos da década de 50, a ser considerado como um órgão de imprensa extremamente incómodo para a autoridade colonial, que, por isso, o carregou de multas e o suspendeu por várias vezes (a última das quais pelo espaço de 30 dias), de facto, nos primeiros tempos da sua publicação, nada indicava tratar-se senão de um jornal perfeitamente acomodado ao “establishment”. Mais adiante continua: “ Foi um escândalo que o jornal, e um jornal propriedade da igreja, na campanha eleitoral em que interveio o general Humberto Delgado, tomasse uma posição liberal, não privilegiando o candidato oficial.
O que hoje é ridículo era, então, motivo para represálias e dissabores de toda a ordem. Como era grande escândalo nesse tempo, um jornal apesar de tudo produzido em África, relevar os acontecimentos da política africana. Como lhe provocou suspensões o atrevimento de noticiar os primeiros acontecimentos que assinalaram o começo da luta de libertação.
In “Memorandos da Vida”III Volume, de José Cardoso
19/06/07
Erosão nas praias
Segundo o relatório elaborado em Julho de 1910 pelo ..., o mar tem avançado continuamente e em poucos anos árvores que dantes estavam em terreno firme vêem-se agora na praia.
É evidente que o primeiro passo a dar no sentido de combater a erosão é averiguar quais sejam as causas que a determinam, mas como para isso seriam indispensáveis observações feitas durante um período de tempo muito mais longo do que aquele que a prudência aconselha que se espere para tentar qualquer medida no sentido acima mencionado, torna-se necessário assentar desde já em qualquer coisa, de modo a serem postas em prática ao menos medidas experimentais tendentes a defenderem das invasões pelo mar os terrenos por detrás das dunas.
Há dois aspectos principais sob que pode manifestar-se a erosão. Pode ser determinada apenas pela acção das marés e do vento desde um pouco abaixo do nível da baixa-mar até ao da preia-mar, ou pode ser devido ao abaixamento do fundo do mar lá fora e à gradual aproximação de maiores fundos em direcção à praia. Se a razão for esta tornar-se-á extremamente difícil, se não impossível, remediar o caso, pois que o mar iria infraescavando e lançando por terra quaisquer obras de defesa que se construissem.
Eu creio, porém, que toda esta costa tende a elevar-se de um modo muito semelhante ao que se observa mais ao sul, na Zululandia, e não me parece que na foz de um rio como o Pungué, cheia de materia aluvial, possa ter lugar um grande abaixamento, especialmente a uma pequena distância para o norte. E os aspectos dos bancos indicados na carta do Almirantado tende a confirmar esta suposição.
A formação do banco na Ponta Gêa denota igualmente a deslocação para sul das areias que formam a praia a um nível superior ao da baixa-mar, pela acção do vento e da ressaca; e por isso se me afigura que a erosão se dá apenas na faixa compreendida entre um nível um pouco inferior ao da baixa-mar e o da maré cheia, dando assim lugar à grande inclinação que a praia tem actualmente.
O único remédio para este mal está a meu ver na construção de "groynes" (quebra-mares) e, talvez mais tarde, de uma pequena muralha acima da linha do preia-mar.
Como está averiguado que a fuga das areias da praia tem lugar em direcção ao sul, e que a conservação do banco da Ponta Gêa está dependente dessa condição, torna-se necessário que a construção dos "groynes" se comece a partir daquela extremidade da praia e se continue gradualmente para leste. Se se procedesse pela forma inversa e se começasse o assentamento dos "groynes" em qualquer ponto a leste e se fossem construindo em direcção à Ponta Gêa aconteceria que esses "groynes", sendo bem construídos, impediriam a marcha das areias da paria e aumentaria a erosão ao sul dos mesmos, isto é, para os lados da Ponta Gêa ...
in relatório de 1911 do célebre engenheiro inglês capitão Calhcart W. Methven
18/06/07
Crónicas de José Cardoso (1)
A 24 de Dezembro de 1950, quatro anos após o meu desembarque na Beira, surgia na cidade um segundo diário, o “Diário de Moçambique”, cujo proprietário era a Diocese da Beira.
Pouco tempo depois, em 1952, o engenheiro Jorge Jardim, afilhado de Salazar e membro influente do partido único a “União Nacional”, fixava-se na Beira, mais propriamente no Dondo, onde tinha interesses e “tachos” como os da “Lusalite de Moçambique”, e onde constituiria o seu quartel-general, para as actividades de que estava incumbido por alguém e de outras, possivelmente mais obscuras, de sua própria iniciativa.
Aparece como deputado à Assembleia Nacional Portuguesa, na qualidade de representante da “colónia”, que entretanto vestira como todas as outras, novas roupagens de enganosa e inventiva nomenclatura: a de “Província Ultramarina”, numa tentativa de alterar o “nanismo” de um pequeno corpo da Europa mediterrânica, para o “gigantismo” de um território, superior em duas vezes e meia aproximadamente, à soma das áreas ocupadas pela Espanha e pela França.
Já neste tempo o fenómeno endémico da “obesidade” física, que hoje preocupa as classes médicas de muitos países ricos, era doença que não preocupava as classes políticas da metrópole colonial, no que se refere à dimensão do país, mostrando ter “mais barriga do que olhos da razão”, quando propalavam obscenamente uma falsa e utópica grandeza territorial, com a condescendência de uns e a conivência de outros, igualmente interessados na manutenção das suas áreas de influência, dos seus interesses económicos e dos seus impérios.
Deixávamos portanto de ser por simples “decreto”, odiosos e refinados “colonos” para nos transformarmos em bons samaritanos, como que a modos de “provincianos” ou coisa que o valha, em obediência ao novíssimo vocabulário do “faz de conta”.
Os pretos, esses, deixavam de ser colonizados para ser “provincianilizados” e o mundo que fosse “pró carvalho que os carregasse”, ou pentear macacos porque, nestes miraculosos e abençoados mimetismos, “quem tem um olho é rei” e o rei, ‘tá mais que visto, é quem tem o ceptro do poder, a cruz de Cristo ao peito e a decisão num “cospe fogo moderno de repetição”, a tiracolo. Tudo o resto é estúpida ignorância de plebeu e de sabidas heresias de cortesã, como diria Ramalho Ortigão: “Ide resplandecer... no ceptro dos reis e nas chinelas das cortesãs”. (em A Holanda p.183).
Mas não resisto em voltar a referir-me a essa famigerada personagem que tanto odiei nos silêncios das minhas clandestinas cogitações, o Jorge Jardim que, como se verá mais adiante, teria sido para a Beira e para Moçambique, como um tumor maligno, com ramificações obscuras e perigosas de sua lavra, inspiradas nas sinistras “escolas” do nazi-fascismo de Salazar, seu padrinho, onde era mestre e principal ideólogo.
25 de Agosto de 1954, surgiam no éter limitado do espaço beirense, as ondas hertzianas da “Rádio Pax”, estação emissora também anexa à diocese que, a par das notícias escritas do “Diário de Moçambique”, constituíam reais ameaças ao “status quo” da sociedade beirense, o antivírus possível às acções corrosivas dos “contras”, que tentavam parar com as mãos, os ventos da evolução irreversível da nossa história e até da história do mundo, consubstanciada nos conflitos caseiros de uma cidade que se afirmava dinâmica, inconformada e progressista, tanto quanto retrógrada e reaccionária se apresentava por banda dos pregadores da soberba e da imoralidade.
In “Memorandos da Vida”, III Volume, de José Cardoso.

