A 1 de
A
E
Seguiram-se de
E
Na
Dando a
“
Os
O
Neste "blog" pretende-se apresentar informações sobre aspectos históricos e culturais desta cidade de Moçambique.
A 1 de
A
E
Seguiram-se de
E
Na
Dando a
“
Os
O
A Comissão de Estética da Câmara Municipal da Beira, organismo de carácter consultivo, adjunto à Presidência do Município, destinado a apreciar os projectos das novas construções, tem a seguinte constituição para o primeiro semestre de 1957:
- Vereador sr. Américo de Matos Ferrão;
- Vereador sr. Joaquim Raimundo Lourenço;
- Chefe da Repartição Técnica do Município, sr. Engº José Augusto Fragoso de Sousa;
- Chefe da Repartição do Foral do Município, sr. engº Amílcar da Silva Cruz;
- Engº civil, sr. Joaquim de Oliveira Ribeiro Alegre;
- Arquitecto, sr. João Afonso Garizo do Carmo;
- Arquitecto, sr. Carlos Ivo;
- Agente Técnico de Engenharia, sr. Ruy d’Espiney.
A referida Comissão de Estética, com a sua actual constituição, e presidida pelo sr. Comandante Soares Perdigão, teve a sua primeira reunião do corrente exercício em 7 do corrente.
[Diário de Moçambique, Beira, 11 de Janeiro de 1957, p. 5]
In “Memorandos da Vida” III volume, a publicar de José Cardoso.
aBeira - te
e, olha-me nos olhos…
Não, não é só um jogo de sedução contigo, caro/a leitor/a.
Deixa-me, por agora, contornar a volúpia e confessar. Isto é mais um repto que outra coisa. Uma espécie de cobro que venho ajustar com a cidade centenária.
Contra meu desejo e, por um acaso, fiquei deste lado. Do lado atlântico da ponte. Do lado da ausência, e, onde não há festa, pá! (escuto Chico Buarque para aconchegar a nostalgia).
Quando cheguei à desconhecida cidade da Beira, em 1995, nada havia em mim de africano, a não ser uns colares e uns perfumes marroquinos. Eu era um exemplar irrepreensível de desconhecimento, uma moldura propícia para o futuro se desenhar, a seu belo prazer.
Cumpriu-se essa metáfora. O devir desenhava-se rapidamente na minha existência, a crosta da minha vida sofria todas as mutações.
Uma década de comparência de um ser humano num determinado ponto do planeta, faz desse ser uma espécie de ovni, no seu antípoda, ou na sua procedência. Bom, não será, necessariamente assim, mas, o que aqui importa, é que, a partir de então, eu passei a sentir-me assim. Um objecto estranho, no meu inverso geológico.
Simultaneamente, uma forma de desconcerto apoderava-se da placidez dos meus dias.
O confronto era, já, inevitável. Qual era o meu lado da ponte? Onde se situava o meu vínculo?
Sabemos que os elementos, as questões da nossa identidade humana são históricas e construídas. Não se trata, portanto, da reinvenção de uma pertença, mas antes a fundação de mais um pressuposta na minha entidade.
Mas, essa percepção não é, absolutamente, tranquilizante.
Acrescentar a minha individualidade faz de mim uma pessoa mais inquieta, mais impertinente. Como se verá pela ousadia da anunciada cobrança, da despudorada provocação.
William Dubois (um dos pais do pan-africanismo) perguntava-se, "que coisa era essa de que era mais capaz de sentir do que de explicar". Falava de um ancestral e duradoiro parentesco na longa duração da história de África. Que tecido matricial e intrínseco é esse que atravessa e mantém uma múltipla descendência comum africana? Coloco eu, do lado de uma menos sólida configuração ancestral europeia.
Vós sois mais africanos do que eu sou europeia.
E Dubois explica-se. O enlace íntimo, entre os africanos, a verdadeira essência do seu parentesco histórico "é a sua herança social de escravidão, de descriminação e de insulto". Essa herança une os filhos de África.
Um imenso e inesgotável cenário para o pensamento e para a reposição da memória, um passado singular que ajudará a povoar o futuro.
Uma simpatia que me envolve.
Quero entender como e porquê essa atracção me enreda, me tenta, sem retorno.
Todos contamos, ouvimos, inventamos estórias. Todos conhecemos os lugares comuns das palavras e a tranquilidade que os sentimentos ganham, nos espaços que menos reduzem a nossa humanidade.
Não é, tanto, esse o desafio.
O convite é para a compreensão daquela anuência histórica endógena, física e vital. Uma alma essencial e transversal à biografia africana, onde a Beira (Moçambique ) e seus povos se inscrevem, anteriormente às administrações coloniais terem inventado uma cidade no Aruângwa.
Uma permanência no espaço e no tempo…a da gentes tem mais de cem anos.
Beira, kuenda na kuenda…
ABeira-te, olha-me nos olhos e ajuda-me a compreender.
Enquanto isso e para a Festa, deixo-te, caro/a e tolerante leitor, estas belas palavras do poeta Octávio Paz.
Faz delas volúpia ou lucidez, tu decides…
que estás ainda muito longe
onde fica o dia
em que tu vives
onde fica essa manhã
deslumbrada só de luz
só de música
só de ternura onde
podíamos acordar tu e eu.
«[...] uma cidade tem apenas algumas ruas, algumas casas, algumas pessoas.
Suprimam-se essas poucas pessoas e a cidade não existe mais [...]»
Graham Greene (O nosso cônsul em Havana).
O surgimento do «comando militar da Aruângua», que está na origem da cidade da Beira, em 1884, insere-se no grande quadro da ocupação colonial que se deu em África, a partir do último quartel do século XIX, e que se pautou, no seu faseado, por viagens de exploração e reconhecimento, contactos e acordos diplomáticos com as chefias locais, construção de entrepostos comerciais e militares no litoral e a procura de vias de penetração para o interior, onde se localizavam as zonas agrícolas e auríferas, privilegiando o uso do caminho de ferro. O pano de fundo que deu origem a esta dinâmica foi o despertar das grandes potências europeias pelos grandes espaços africanos e asiáticos, projectando no resto do mundo as suas rivalidades, fruto dum nacionalismo agressivo e belicoso.
A Beira é um caso exemplar para ilustrar o movimento concorrencial entre as metrópoles coloniais e os jogos diplomáticos que então se realizavam visando esquartejar o continente africano. O interesse pela baía do Pungué vem desde 1882, quando o explorador Joaquim Carlos Paiva de Andrada, chamou a atenção da «Sociedade de Geografia de Lisboa» para a ocupação efectiva da vasta zona compreendida entre Sofala, Manica e Sena. Esta região era já conhecida dos portugueses, desde o século XVI, mas estes preferiram as rotas de Sofala e, posteriormente, do Zambeze, para fazer chegar o ouro de Manica ao litoral. António Enes, que viria a assumir a função de comissário régio na colónia, justifica o desinteresse pela região em virtude das suas condições geográficas, profundamente adversas à fixação colonial.
As origens e o desenvolvimento da povoação têm a ver, fundamentalmente, com a sua posição privilegiada na futura rede de comunicações que se viesse a construir para o interior. A sua localização definitiva, na margem esquerda do Pungué, à revelia das determinações oficiais, de 16 de Agosto de 1884, reflectem a necessidade de encontrar um melhor ancoradouro, como a existência de fundos mais apropriados, após o reconhecimento hidrográfico do rio Pungué. Em 1897, a fixação naquele local era ainda justificada por razões geográficas, políticas e comerciais. Mas a fixação definitiva de Portugal na região, no interior duma pobre paliçada de paus e matope, nas terras desabitadas do «Bangoé», só viria a dar-se em Agosto de 1887, após demoradas e difíceis negociações com Ngungunhane, senhor da região, após o início da ocupação «nguni», em 1835|1836. Toda a região de Manica e Sofala viria ainda a ser palco de graves conflitos internacionais, nos quatro anos imediatos, estando iminente a sua ocupação pelas forças policiais da «British South Africa Company», em 1891.
A ocupação e o desenvolvimento e tão vastos territórios viria a ser logo entregue a uma sociedade comercial – a primeira «Companhia de Moçambique» - como era comum na época. Mas só após o regresso da tranquilidade aos territórios e a constituição da segunda Companhia, com poderes majestáticos, se iniciaram então os primeiros grandes trabalhos que vieram a transformar a Beira: procederam-se aos estudos do porto, visando ter completo o seu plano hidrográfico, executou-se a sua balizagem e construiu-se um cais acostável para lanchões, na foz do Chiveve; iniciou-se, em 1893, a construção da linha férrea de 0,607 (tendo sido substituída em 1899|1900 pelo actual caminho de ferro de 1,067), já referida no pedido de concessão da Companhia ao Governo, em 1888; começaram-se as obras da defesa da povoação, com a construção duma muralha e aterros do lado do estuário, esforço que se mantém até aos nossos dias; elaborou-se o primeiro plano da povoação, em 1893...
O engenheiro Joaquim José Machado, primeiro governador da majestática, a quem se devem os primeiros grandes trabalhos realizados, dá-nos em 1892 esta imagem depressiva da urbe: «Na margem direita do Chiveve, havia as Casas da Companhia de Moçambique e mais nada. Na margem esquerda, estava o acampamento da expedição militar, e a aringa do comando militar do Aruângua, já em ruínas».
E será assim, a partir deste povoado, pobre e mesquinho, num ambiente de grande insegurança política e em condições geográficas adversas que a cidade cresceu, vindo a tornar-se num dos maiores portos de África Austral, com uma importância estratégica para quase todos os países da região. Isto mesmo viria a ser reconhecido no diploma de elevação da Beira a cidade, em 29 de Junho de 1907, referindo-se a «excepcional importância da sua posição e manifesto valor do movimento do seu porto e do tráfego do caminho de ferro», transformando-a num «grande centro de navegação e de comércio de largo e prometedor futuro».
***
A obrigatoriedade da construção e exploração duma ligação ferroviária, sem qualquer garantia ou subvenção, tinha já sido imposta pelo governo português à Companhia de Moçambique, em 1889. Esta exigência viria novamente a ser expressa aquando da concessão da carta majestática à segunda Companhia, dois anos depois. Este caminho de ferro, no sistema «decauville», deveria atravessar o vale do Pungué ou do Búzi, terminando em Macequece ou na fronteira Oeste de Manica.
Na impossibilidade de se poderem realizar trabalhos num tão curto espaço de tempo, as autoridades portuguesas apresentam os estudos efectuados pelo engenheiro francês Pouhin, realizados ainda no tempo da primeira Companhia e que esta agora prontamente lhe oferece. E será ainda a Companhia a conseguir a aprovação de Sir George Bruce, presidente da Associação dos Engenheiros Ingleses, do traçado do caminho de ferro com início no Pungué.
Tudo o que decorre imediatamente a seguir revela a enorme fraqueza de Portugal neste importante assunto, evitando assumir posições que possam hostilizar os interesses britânicos. O contrato assinado entre a Companhia de Moçambique e Henry Theodore Van Laun, em 12 de Setembro de 1891, para a construção do caminho de ferro, revela enormes deficiências, com a falta de penalização para o não cumprimento das disposições que lhe são impostas. O construtor pretende mesmo, na impossibilidade de reunir os capitais necessários, a transferir a sua concessão para as mãos da «British South Africa Company (Chartered)». E será a recusa da Companhia de Moçambique que vai levar à constituição da «Beira Railway Company», em 1892, iniciando-se então a construção da linha férrea, de via reduzida, que viria a ficar terminada em Outubro de 1896.
Em 1897, à revelia da Companhia de Moçambique, a «Beira Railway» viria a ceder os direitos de exploração à empresa «Pauling & Comp.», contrato este que viria a perdurar ainda por três anos. Posteriormente, com a conclusão da linha férrea Umtáli-Salisbúria e a sua ligação à Beira, as duas linhas passaram a ser exploradas conjuntamente pela «Beira Railway», «Beira Junction Railway» e «Mashonaland Railway».
Finalmente, a via larga viria a ser inaugurada em 10 de Julho de 1900.
A linha viria a ser explorada pela «The Beira Railway Company Limited» até 30 de Setembro de 1949, altura em que passou para a administração portuguesa, através do «Caminho de Ferro da Beira», tendo a sua aquisição custado quatro milhões de libras. Esta decisão teve em vista impedir que o governo inglês viesse a interferir na gestão ferroviária do lado português, em resultado das nacionalizações a que tinha procedidos nas explorações ferroviárias na Rodésia do Sul, em 1948, e da ligação administrativa até então existente entre a «Beira Railway» e a «Rhodesia Railway».
O «resgate» do porto e a sua administração pelo Estado português, em 1 de Janeiro de 1949, e a «nacionalização» da linha férrea, em 30 de Setembro do mesmo ano, tiveram fortes repercussões na cidade, sendo uma das mais visíveis o rápido crescimento da população colonial, que assumiu a gestão daquelas importantes infra-estruturas. A Beira não estava preparada para este súbito aumento demográfico: durante toda a década de 1950 os preços das rendas de casa mantiveram-se extraordinariamente elevados, obrigando as famílias de menos recursos a alugarem as dependências dos prédios. Uma postura da Câmara Municipal, de 1956, viria alterar este estado de coisas, impedindo a sua ocupação por parte dos «indivíduos civilizados».
Será ainda na década de 1950 que a cidade se torna num importante centro turístico regional, após a construção de algumas importantes infra-estruturas, como o Grande Hotel, o Acampamento Turístico e o «Motel» Estoril, no Macúti; estendendo-se ainda a sua influência à Reserva da Gorongosa (depois, Parque); ao Bazaruto, Vilanculos e Inhassoro, onde se construíram hotéis, de propriedade de Joaquim Alves, e o acampamento da SETA, e onde realizava um concurso internacional de pesca; e, para o interior, à região do Garuzo, com a construção da sua pousada. O exercício desta actividade deparava-se com a inexistência duma verdadeira estrada internacional, o que viria a ficar finalmente resolvido após a montagem da ponte do rio Pungué, no início da década seguinte.
A conclusão da hidroeléctrica do Revué, propriedade da SHER, em 1956, permitiu o fornecimento da energia eléctrica à cidade em melhores condições técnicas e a preços mais acessíveis para os seus utilizadores, abrindo campo para a existência duma indústria local.
Sabíamos, pelo que ouvíamos e líamos nos órgãos de comunicação social, que em vários pontos do país se procedia à perfuração do subsolo na procura de hidrocarbonetos e, suponho, que de outras riquezas naturais, nomeadamente nas regiões do Búzi e de Inhambane, possivelmente noutras menos conhecidas, porque menos ou nada divulgadas.
Corriam na cidade as mais diversas especulações sobre o assunto até que, em 1962, foi anunciada a descoberta de importantes jazidas de gás natural em Pande e Temane, na já referida província de Inhambane.
Pouco tempo depois fomos surpreendidos por um fenómeno nocturno curioso e de certo modo deslumbrante, ao mesmo tempo que os jornais e a rádio, anunciavam a deflagração de um violento incêndio num dos poços abertos em Pande.
Ao cair da noite, uma auréola alaranjada manchava o céu distante, a algumas centenas de quilómetros, parecendo que o poente suspendera por qualquer motivo transcendente, o seu declínio natural.
Convivemos com esta imagem nocturna e habituámo-nos a ela durante largos meses, até que, se extinguiu, por acção de técnicos especializados na extinção de incêndios semelhantes, vindos dos países que tinham a responsabilidade contratual de proceder a pesquisas de hidrocarbonetos no nosso, nomeadamente dos Estados Unidos da América.
Quase em simultâneo, a Beira era sacudida por outra notícia, que só pelo facto de não ser suficientemente divulgada nos órgãos de comunicação social por razões que desconheço, lhe dava uma auréola de autenticidade encoberta. Corria de boca em boca de forma especulativa, que no Búzi, teria sido descoberto petróleo. Oficialmente nada foi confirmado nem, que me lembre, desmentidos os rumores, e se o foi, ninguém deu crédito à notícia porque, as próprias fontes que as forjavam e disseminavam, eram porta-vozes de interesses económicos suspeitos e estavam por isso e por muitas coisas mais, sobejamente desacreditadas.
Fosse como fosse, verdade ou não, o que corria nos bastidores da murmuração, era o que constava como um facto real: alguns habitantes da vila do Búzi, estavam a utilizar nos seus automóveis, um novo combustível retirado dos poços ali abertos, a que deram o nome de “buzilina”.
Tive ocasião de observar uma garrafa contendo “buzilina” que um amigo teve a amabilidade de me mostrar e, constatei, que se tratava de um líquido transparente e incolor, tal como o álcool puro, e tinha um cheiro intenso muito activo, que se situava entre o odor daquele e o da gasolina. Essa amostra porém, não seria suficiente para que, por ela, pusesse “as mãos no fogo”, como garante da veracidade do que dela se dizia. Até porque, na vila, havia uma açucareira que também fabricava álcool puro para exportação e uso interno e sabe-se lá o que com ele se poderia urdir para explorar a credulidade de papalvos menores, em ambiente de esperança e de exaltação patriótica!...
De qualquer forma, ou porque continuasse a ser igualmente crédulo, ou porque as testemunhas que afirmavam ter sido o famoso líquido, a “buzilina”, retirado dos poços, me merecessem confiança, ainda hoje tenho dúvidas e me interrogo, se não teria estado perante um produto original.
Não houve nenhum esclarecimento sobre o assunto, nem que sim, nem que não, nem que também, e por isso, atribuímos à população da vila o benefício da dúvida, tanto mais que, logo a seguir, foi noticiado o encerramento definitivo dos furos de prospecção que haviam ali sido abertos, sem que até hoje se saiba das razões da decisão.
E então especulou-se - porque nunca se tornou a falar no assunto e por ter caído no esquecimento -, que se teria descoberto algo de importante e que a selagem dos poços, poderia querer dizer que a descoberta, ou não era suficientemente significativa para justificar a sua exploração, ou ficava como reserva, em “stand by”, aguardando por melhores oportunidades.
Se se tratou de um estratagema de diversão para enganar o “indígena” como era hábito dizer-se, então, foi muito bem conseguido porque, pelo menos eu, ignorante, porque também sou indígena de algum lugar, aceitei-o como verdadeiro, como aceito ser exacto o aforismo popular de que só existe fumo onde existe em combustão uma fogueira.
A talhe de foice, mas a propósito, transcrevo com a devida vénia um parecer sobre a ignorância, elaborado por Richard S. Lindzen, reconhecido cientista americano: “A noção de que se você for ignorante em alguma coisa e alguém lhe aparecer com uma resposta errada, tem de aceitá-la porque não tem uma outra resposta errada para dar, é como a cura pela fé, é como o charlatanismo na medicina. Se alguém lhe disser que deve ingerir caramelos para curar o cancro e você responder que isso é estúpido, ele diz, bem, pode sugerir alguma outra coisa? Será que ao responder que não isso quer dizer que você tem de ingerir caramelos?”
Bem. É razoável pensar-se que, o preferível, por via das dúvidas, é não virmos a sofrer de câncer!...
“Para grandes males grandes remédios”, é um aforismo muito popular entre nós e o governo não hesitou em segui-lo, tomando medidas extremas como “grandes remédios” numa feroz repressão contra os “grandes males” que representavam no momento o “Diário de Moçambique”, amordaçando-o duramente e enfraquecendo-o, para que mais tarde caísse de maduro e o pudesse tomar de assalto por via de algum acólito sabujo.
Assim, por despacho do Secretário-geral da “Província”, de 14 de Fevereiro de 1968, ordena-se: “fica suspenso o referido jornal por trinta dias a contar do dia da notificação, por ter publicado no seu número 6167, de 7 do corrente mês, o artigo sob a epígrafe “Automóveis roubados” sem que o tivesse submetido previamente à apreciação da Comissão de Censura à Imprensa”.
A denúncia de crimes e de criminosos, estava pelo que se lê, igualmente sujeita à peneira do censor, não fossem eles pessoas gratas ao regime e como tal intocáveis. Seria um acto ridículo se o mesmo não fosse escandalosamente cúmplice, dos abusos que então se cometiam, em nome de uma moral inquisitória e corrompida, até à medula das conveniências insensatas e totalitárias.
Para sofrer tamanho castigo, para que se calasse um jornal diário por período tão longo, o artigo devia ser uma “bomba”, talvez “um libelo terrível”, parafraseando Ramalho Ortigão noutro contexto, contra o governo português e contra a sua política colonial.
Afinal era apenas a denúncia de um facto que era conhecido e comentado por toda a cidade, mas, nada melhor do que transcrever o referido artigo para podermos aquilatar da potência da “bomba” e da prepotência do censor e do governo da “Província” ou melhor, do território de Moçambique colonizado. Transcrevo-o pois para apreciação do ledor atento e com tento, ou para que fique simplesmente registado:
“Se o leitor, por volta da meia-noite, deu por falta do seu automóvel, talvez lhe encontre a pista lá para os lados da Manga, à beira de alguma ruela; com noventa por cento de possibilidades acertará se pensar que lhe foi levado por algum pequeno grupo de militares.
Se o leitor dá pela falta do carro à madrugada, pode encontrá-lo, muito provavelmente, junto da Base Aérea. Com noventa por cento de possibilidades, foi-lhe levado por militares daquela Base.
Se o leitor encontra o seu carro onde o deixou, visivelmente amolgado, indiciando tentativas de abertura e furto, tem noventa por cento de possibilidades de acertar, atribuindo o desacato a militares da Força Aérea. Com efeito, desde há muito tempo, multiplicam-se os destemperos do género; e a sua frequência demonstra que isto agora é assim...”
E o artigo prossegue com algumas considerações de ordem moral e cívica, mas o que transcrevi é suficientemente esclarecedor de que aos militares-ladrões lhes era dada protecção e impunidade.
Todos sabiam, até as populações dos subúrbios que, quando alguns grupos de militares da força aérea se deslocavam da Manga onde estavam baseados, para se divertirem no centro da cidade, ao aproximar da hora de recolher, não se inibiam para tomar de assalto um ou mais automóveis, conforme o número de bandos, e neles se fazerem transportar, abandonando-os nas imediações da base.
Todos sabiam mas ninguém mexia uma palha para os deter e pôr na ordem, porque era aconselhável trazê-los nas “palminhas das mãos” para evitar descontentamentos e distúrbios maiores, já que muitos deles iam tomando consciência de que a guerra em que participavam não era a deles e que estavam nela para defender interesses que não eram os seus.
De heróis cegos e patriotas obtusos estavam os cemitérios e os infernos cheios!...
Quero no entanto salvaguardar aqui a honra e a dignidade de alguns que conheci pessoalmente e de muitos outros, que se punham à margem destes desacatos e os condenavam, assim como condenavam uma guerra que lhes era imposta e que consideravam injusta.
A ideologia fascista que leva a estes excessos, infelizmente, tem ramificações e defensores por todo o mundo, como prova a insultante e descarada afirmação do editorialista mexicano António Uroz, que visitou Moçambique em 1962, a convite do governo colonial:
“Se em alguma parte existe liberdade e autêntica democracia, é na província de Moçambique.” Que tremenda mentira e que desplante!...
Não fosse o talento que demonstrou ter este senhor jornalista, para o descaramento e a sabujice, nunca teria sido convidado.
Que outros comentários fazer senão o da minha convicção de que, por crimes menores do que o cometido pelo senhor António Uroz - que ousou insultar publicamente todo um povo oprimido e explorado, exaltando os que o oprimem e exploram -, têm sido muitos cidadãos de outros países condenados por injúria, a pagamentos de coimas e até de prisão!... Mas estes casos vão sendo cada vez mais raros porque, nas “democracias” do ocidente, a jurisprudência é manipulada de forma a garantir uma maior prudência nos juízos, para salvaguardar os interesses obscuros de quem detém o capital e o controle dos mídia e das ideias.
Sobre conceitos de democracia, chamo à liça “Abraham Lincoln” e o meu amigo Guilherme Afonso. Aquele pelo que disse e este pelas informações e considerações que me fez a propósito.
“Pode-se enganar alguns do povo a todo o momento, e todo o povo algumas vezes, mas não se pode enganar todo o povo a todo o momento.” Quem o disse não foi “Bush” – que o Diabo me livre dele porque de Deus é confrade -, mas o 16.º presidente dos Estados Unidos da América (1861-1865), Abraham Lincoln, informou-me o Guilherme que teceu as seguintes considerações, “…de quem vale apenas saber-se que foi o mesmo que, com a sua governação progressista, levou ao desencadear da Guerra Civil Americana (também denominada Guerra da Secessão), e que assinou, em 22 de Setembro de 1862, a Proclamação de Emancipação dos escravos no seu país. Nada de estranhar pois, que num breve discurso em 19 de Maio de 1863 se tenha pronunciado a favor da democracia, definindo-a como “o governo ao povo, pelo povo e para o povo”. Que Lincoln foi um democrata a sério, prova-o a forma como arduamente lutou pelas suas convicções. O que acabaria aliás, por custar-lhe a vida, baleado, em 1865, por um sulista. (Porque se opunham à política anti-esclavagista de Lincoln, os sulistas pretenderam a secessão dos EUA entre o Sul e o Norte e bateram-se por isso, saindo derrotados).
Num desabafo, idêntico a muitos que tenho, porque me aliviam os nervos e me contêm os impulsos, o Guilherme termina: - “Será porque fazer-se corresponder o que se faz ao que se diz implica altos riscos, como vimos em relação a Lincoln, que tanto indivíduo que se apregoa de democrata e faz certas promessas em eleições ao candidatar-se a altos cargos da governação, uma vez conquistado o poder faz tudo ao contrário? Isto, para não falar daqueles para quem a democracia é o mesmo que para o senhor George W. Bush, por sinal o 43º presidente dos mesmos EUA, onde, parafraseando Lincoln, alguns do povo vêm há muito sendo enganados a todo o momento, onde todo o povo vem sendo enganado vezes de mais e não parece que esteja para breve um desses momentos em que todo o povo se não deixe enganar.
Será isso, só porque nunca os poderosos puderam tanto e esse poder também lhes dá cada vez mais meios para enganar o povo? Ou será porque o povo gosta cada vez mais de se deixar enganar?...”
Os povos gostam porque não só são colectivamente cobardes mas também carneiros que se deixam tosquiar - apetece-me acrescentar e pedir desculpa aos carneiros que não têm culpa nenhuma -. Basta-lhes uma cobertura de lã para os resguardar dos frios e ventos invernosos, o restolho dos pastos já usados para lhes entreter os estômagos e os dentes podres, por tantas ruminações transcendentais.
In “Memorandos da Vida” III Volume, de José Cardoso
Em 1946, na cidade, continuava a ressoar o matraquear cansado da Central Eléctrica movida agora a gasóleo segundo creio, esforçando-se por fornecer à urbe, não a energia de que carecia mas a possível, em períodos intermitentes, devido ao desgaste dos componentes e constantes, avarias.
Posteriormente tive a informação - creio que correcta - de que, num passado recente, teria sido movida a vapor, com as caldeiras abastecidas a lenha vinda dos mangais próximos e transportada por lanchas que subiam o Chiveve, suposto rio que era na verdade um braço longo do mar com pequenos afluentes dispersos e malcheirosos, que lembravam os braços viscosos de um gigantesco polvo. Avançava pela cidade adentro atingindo os bairros da Ponta Gêa e do Chipangara e separando a Baixa do Maquinino. Essas lanchas movidas à custa de longas varas destramente manobradas por experientes marinheiros negros e com a ajuda das marés da “preia-mar”, subiam o Chiveve carregadas de lenha de mangal até quase às portas da velha Central.
E porque rememoro o que era na altura a problemática do fornecimento de energia à cidade que era como disse, bastante deficiente, lembrei-me de um pormenor curioso relacionado com esse mesmo fornecimento e que, de igual modo, havia observado em Lourenço Marques sem lhe dar a devida importância: a determinada hora, creio que por volta das oito e meia da noite, a energia baixava gradualmente de intensidade até quase se extinguir, voltando logo a seguir à normalidade.
Só na cidade da Beira, onde o facto também se registava, é que vim a tomar conhecimento das razões desse afrouxar pontual de energia, e elas constituíam afinal um sinal para que os patrões dos empregados domésticos e outros, soubessem que eram horas de os libertar para deixarem o trabalho e recolherem a casa porque, a partir das vinte e uma, não era permitido ao negro deambular pelas ruas da cidade de cimento, nem mesmo pelos bairros indígenas da periferia, a menos que tivessem em seu poder um ”salvo-conduto” ou “passe”, ou até uma carta do patrão, que justificasse a sua saída tardia do serviço.
Era a hora do recolher obrigatório!...
Muitos dos que moravam nos bairros mais distantes, tinham que fazer o trajecto em passo de corrida, para não serem apanhados e levados para os calabouços onde passavam a noite, para serem libertados no dia seguinte se estivessem em condições de justificar a infracção e mesmo assim, só depois de castigados pelas tradicionais e humilhantes palmatoadas, dadas pelos seus irmãos de cor, os sipaios, que o faziam a mando dos seus superiores hierárquicos. Se não obedecessem a tão aviltante ordem, uma recusa inconcebível e por isso muito rara, eles próprios eram submetidos ao mesmo tratamento, agravado com alguns dias de calabouço e suspensão de funções por períodos determinados e por vezes expulsos da corporação policial.
Sendo rara como disse essa recusa, é de toda a justiça e em nome da verdade que se diga de passagem para que fique registado o facto, que alguns deles o faziam com satisfação e com requintes de malvadez que lhes não eram exigidos, sobretudo quando o detido não lhes era simpático ou pertencia a região ou etnia diferente da sua.
Era “um ver se te havias” nas formas repressivas para travar leviandades que estivessem em incubação nas cabeças duras dos pretos, de prevenir irreverências futuras ou ainda, para acautelar e desencorajar o desenvolvimento de movimentos subversivos e de potenciais sublevações porque afinal, o acto de pensar e de chegar a conclusões óbvias, não era privilégio da raça branca, que se afirmava como a mais inteligente.
Era este na verdade o pensamento que prevalecia na maioria das cabeças ocas dos colonos portugueses porque, além dessas ideias lhes terem sido incutidas por uma propaganda insidiosa e metódica, a maioria deles era de origem humilde e constituíam terreno fértil para as machambas de culturas dóceis e a minoria os mentores ideológicos, os fazedores da política sócio-económica da metrópole e das colónias, os machambeiros da desgraça.
Infelizmente tive, como o tiveram muitos outros nas pessoas dos seus mainatos e moleques, oportunidade de ver algumas dessas mãos castigadas, apenas pelo crime de andarem na rua por não terem tido tempo de chegar à sua palhota. Apresentavam-se disformes e intumescidas, como alguns dos olhos dos seus donos, por terem passado a noite em claro gemendo de dor, apesar das mijas abundantes que verteram sobre elas, para beneficiarem de algum alívio como se acreditava, mas também e sobretudo por chorarem de raiva e impotência.
Mas ficávamos por aí, como observadores passivos e insensíveis, outros até com uma certa incoerência relativamente às suas ideias e convicções, sem uma palavra ou um gesto de revolta contra tamanhas barbaridades. Tudo não passava de rotina. Tratavam-se os “trambolhos” com banhos de água fria, bálsamos refrescantes e algumas cínicas palavras de conforto, mas tolerava-se a peçonha como um mal menor, um mal necessário para a tranquilidade de todos mas também da nossa vergonha e do nosso opróbrio. Era mais cómodo e evitávamos o epíteto de subversivos contra a ordem estabelecida do “Estado Novo”, no velho e bolorento estado da metrópole colonial!... Partia-se do princípio de que o castigo se não era justo era tolerável, porque o simples facto de se ser preto já era crime bastante para que todos o aceitassem como inevitável, na medida em que todos ou a maioria se calava, sem pedir justificações e exigir responsabilidades a quem as podia dar e assumir!...