28/11/07

Crónicas de José Cardoso (8)

A 1 de Janeiro de 1972, na Paróquia de Macuti, o padre Sampaio profere uma homilia acusando a existência de injustiça em Moçambique, pelo domínio de uma raça sobre outra. Assim "os brancos em Africa enriquecem em poucos anos e o africano fica sempre pobre (...); muitos ladrões degradados que ninguém aturaria no outro lado de do Atlântico, foram gente grande em Africa. Quer dizer que as leis no papel são sempre justas, na prática é que muitas vezes o não são. Reflexo disso é a "cintura negra" com bairros de miséria à volta das grandes cidades com prédios e avenidas para gente branca".

A homilia denunciou ainda na altura, o massacre de Mocumbura, perpetrado em 14 de Novembro de 1971, na região de Tete. Um grupo de 40 comandos incendiou 50 palhotas. Uma delas tinha dentro 16 mulheres e crianças que foram queimadas vivas. “Nada fizemos e nada contestámos contra esta barbárie, bradaram os missionários da igreja do Macúti”.

Era assim que a tropa colonial fazia a guerra. Era este o método e o comportamento de muitos algozes - formados pelos generais de inspiração fascista - transformados emcomandos”, “especiais”, “Flechas”, “OPVDCs” e quejandos, para melhor e com maior requinte de selvajaria, massacrarem um povo que apenas pedia justiça e liberdade.

E quando estes crimes eram publicamente denunciados, os autores dessas denúncias eram perseguidos, presos e torturados como o foram os padres Sampaio e Fernando.

Mas antes de o serem, no Macúti, a 9 de Janeiro, na cerimónia dos escuteiros, o padre Fernando não deixa entrar a bandeira portuguesa porque ela representava Portugal e chocava oito milhões de pretos para quem ela simbolizava "colonialismo, exploração, domínio etc.", e por isso aceitaria a futura bandeira de Moçambique.

Desassombro e coragem de um homem que tinha contra si as pressões do governo e da própria hierarquia titubeante da igreja.

Seguiram-se de imediato as prisões dos dois padres, quando tomávamos conhecimento da abertura de uma nova frente pela Frelimo, a de Manica e Sofala, onde se combatia.

E perante o avanço dos combatentes que as autoridades coloniais e os “médiapor elas controlados, insistiam em chamar pejorativamente de “turras”, a reacção activa respondia com a intimidação e com actos de autêntico terrorismo.

Assim, panfletos eram espalhados pela cidade, com origem no Jardim e sua camarilha. Atacavam os padres de Macúti, exigindo a sua expulsão. Com incidência nas escolas, apareceu um que sugeria uma tomada de posição equiparada à do ano de 1759 e ostentava a figura do Marquês de Pombal, com a seguinte legenda: - "Oh! Marquês... Oh! Marquês. Vem a baixo que eles estão outra vez".

Na mesma altura era lançado um engenho explosivo à entrada do Paço Episcopal e expulsos três missionários espanhóis, entre eles, Miguel Buendia.

Alguns comportamentos pessoais de representantes da igreja católica como os que acabo de referir, não eram de forma alguma a regra mas a excepção. Sempre foi do domínio público a sua instrumentalização pelo regime, apoiando-o na sua política de ocupação colonial, com os "totens" da cruz e da espada simbolizando as duas inseparáveis intenções: - o domínio do corpo e do espírito.

Dando a sua bênção à concepção portuguesa do que deve ser o trabalho missionário – dizia o jesuíta inglês Adrian Hastings - a igreja garantia privilégios e auxílios financeiros consideráveis para as suas Missões e Dioceses.

Depois de julgados em Lourenço Marques e de terem sido postos em liberdade, levando em conta o tempo que estiveram presos, os referidos missionários regressaram à Beira mas depressa foram envolvidos por ambiente hostil a que nós assistimos, como conta a VISÂO de 5 de Junho de 2003, muitos anos depois, de quem tirámos este e muitos outros excertos, com a devida vénia:

Manifestações contínuas e violentas, junto da casa episcopal e do governador, dirigidas pelas filhas de Jorge Jardim (entre elas Cinha Jardim), muito populares na cidade, impuseram a saída dos padres. Por questões de segurança, o pároco do Macúti viu-se obrigado a deixar o território, em segredo, pela África do Sul, enquanto Marques Mendes, menos conhecido, abandonou Moçambique pelo aeroporto da Beira. Sampaio recorda que foi um aviso enviado ao então governador da Beira, Sousa Teles, que estancou o surto de manifestações. E esse aviso era que, os missionários estavam dispostos a arrancar os africanos do mato para a invasão da cidade.

Os acontecimentos precipitavam-se e com os guerrilheiros da Frelimo apertando o cêrco à capital de Sofala, o desassossego e o pânico tomaram conta das gentes da cidade de cimento coarctando-lhes toda a capacidade de raciocínio e reagindo de forma irracional, injusta e precipitada. Preferiram preparar-se para uma fuga vergonhosa, construindo grandes contentores em madeira onde pudessem transportar os "salvados" do eldorado das suas vidas por terras de Africa. Alguns deles, cintados com grossas ripas como reforço, transportavam centenas, senão milhares de moedas de prata de 20 escudos em esconderijos engenhosamente cavados no interior dessas ripas, por acção de um arco-de-pua que os abria à sua medida.

O estratagema foi descoberto quando um desses contentores com destino ao porto de Leixões, se despenhou das alturas de um guindaste no momento do embarque, e espalhou pelo chão do cais, centenas dessas brilhantes moedas.

Esses caixotes de tamanhos variados, proliferavam pelas ruas e quintais, como monumentos sem glória, prontos a serem sepultados nos porões dos navios, rumo aos mares do Atlântico e à costa ibérica.

Também, como complemento de um cenário apocalíptico, jovens soldados de olhar esgazeado, descansando das agruras dos matos, das emboscadas, e dos gemidos agónicos dos companheiros que morriam a seu lado, passeavam pela cidade a sua impotência esquizofrénica, mergulhando instintivamente no cimento áspero dos passeios, a cada disparo inesperado dos escapes dos automóveis.

in "Memorandos da Vida" III Volume de José Cardoso

03/11/07

Farol do Macúti





Foi em 2 de Janeiro de 1904 que se inaugurou o Farol do Macúti e se concluiu também uma linha telegráfica directa entre o mesmo e a capitania do porto.
[Diário de Moçambique, Beira, Número Especial dedicado às Festas do Centenário da Cidade da Beira, 20 de Agosto de 1957, p. 27]

30/10/07

COMISSÃO DE ESTÉTICA URBANA

A Comissão de Estética da Câmara Municipal da Beira, organismo de carácter consultivo, adjunto à Presidência do Município, destinado a apreciar os projectos das novas construções, tem a seguinte constituição para o primeiro semestre de 1957:

- Vereador sr. Américo de Matos Ferrão;

- Vereador sr. Joaquim Raimundo Lourenço;

- Chefe da Repartição Técnica do Município, sr. Engº José Augusto Fragoso de Sousa;

- Chefe da Repartição do Foral do Município, sr. engº Amílcar da Silva Cruz;

- Engº civil, sr. Joaquim de Oliveira Ribeiro Alegre;

- Arquitecto, sr. João Afonso Garizo do Carmo;

- Arquitecto, sr. Carlos Ivo;

- Agente Técnico de Engenharia, sr. Ruy d’Espiney.

A referida Comissão de Estética, com a sua actual constituição, e presidida pelo sr. Comandante Soares Perdigão, teve a sua primeira reunião do corrente exercício em 7 do corrente.

[Diário de Moçambique, Beira, 11 de Janeiro de 1957, p. 5]

19/10/07

Crónicas de José Cardoso (7)

Era conhecida a capacidade comprovada da Beira, para mobilizar os seus citadinos em manifestações de repúdio e desagravo a atitudes de injustiça e prepotência.
O aumento dos preços dos bilhetes de ingresso aos cinemas, sem aviso prévio e justificação razoável, foi motivo mais do que suficiente, para ferir a dignidade de toda a população branca, que era a que frequentava os cinemas por razões discriminatórias, ou de grande parte dela, e levá-la a manifestar-se.
Perante a recusa arrogante dos proprietários em reconsiderar a sua decisão, a 1 de Setembro de 1966, a população da cidade manifestou-se e “decretou” uma greve geral aos cinemas, que se manteria por cerca de um ano. Até a “Gillete”, figura emblemática da cidade e conhecida como a cinéfila nº1, que não perdia uma estreia, aderiu ao movimento, solidarizando-se com a vontade da maioria. (refira-se que o epíteto desta velha e extravagante senhora, pelos seus “folclóricos” trajes e exuberantes cosméticas, se devia a ser esposa do Gil, mecânico dentista muito conhecido na praça, não tanto pelas suas qualidades profissionais que constava serem excelentes, mas por ser marido de quem era, e demonstrar uma tranquila tolerância com as excentricidades da esposa.)
A manifestação decorria de forma pacífica, sendo essa a orientação aconselhada nos inúmeros panfletos que foram distribuídos por toda a cidade e a prová-lo, estavam a presença no meio da multidão, de mulheres grávidas e de crianças.
Este movimento pacifista de protesto, viria a transformar-se numa “batalha campal” com alguma violência, quando os “cinzentos” - uma espécie de polícia anti-motim, vinda apressadamente de Lourenço Marques, com cães de guerra a acompanhá-los – irromperam contra aquela enorme massa humana, que lutava apenas com arremessos de palavras, provocando-a e distribuindo chambocadas sem olhar a quem.
Esta e outras imagens de igual violência, teriam inspirado o meu amigo e poeta beirense Heliomotor Baptista, quando, alguns anos mais tarde, escrevia em “Por Cima de Toda a Folha”: “ Oh, as palavras. A semente delas. A colheita vindoura/ sem capatazes de chamboco no ar.”
As pessoas não se intimidaram, porque os tempos do medo eram páginas já passadas, e à violência responderam com violência, batendo a quem batia, partindo vidros e destruindo cadeiras. Ninguém poderia supor que aquela gente, tivesse tanta raiva acumulada e tanta energia guardada para os maus momentos.
É elucidativa a razão porque o átrio do cinema Nacional ficou parcialmente destruído, à excepção de uma vitrina, onde um cartaz anunciava para breve, o filme “TODOS CONTRA UM”. Metaforicamente TODOS, era a população da Beira e UM, a “Empresa de Cinemas da Beira”.
A teimosia desta empresa, e o desprezo que demonstrava ter pelos cidadãos que lhe davam tanto dinheiro a ganhar, levou-a a anunciar uma sessão para a noite seguinte no cinema “São Jorge”, já com os abusivos e polémicos preços. Uma provocação!...
Para lá se dirigiu a multidão, voltando ordeiramente a manifestar-se, na tentativa de boicotar a sessão, com esclarecimentos às poucas pessoas que se dirigiam à bilheteira, cerca de duas dezenas, e a maior parte delas oriundas da Rodésia, que ali passavam as suas férias.
E, mais uma vez. houve nova demonstração de força, levada a cabo pelos “cinzentos”, coadjuvados por agentes da polícia local. Houve quem tivesse visto inclusivamente, montar uma metralhadora no telhado do cinema, e a notícia ameaçadora espalhou-se como um rastilho de pólvora.
Os ânimos voltaram a aquecer, e outra ameaça, vinda dos “cinzentos”, caiu sobre a multidão: a de que, se os acontecimentos o justificassem, lançariam sobre eles a matilha de cães que os acompanhavam.
Perante o facto, que podia ou não consumar-se, em pouco tempo alguns citadinos municiaram-se com varapaus, tubos de chumbo, correntes de bicicleta e (louvada seja a capacidade inventiva do homem) um antídoto especial contra as investidas dos animais que, além de inédito, seria seguramente eficaz: - sacos com assanhados gatos, prontos a serem largados em debandada geral, arrastando consigo os seus ancestrais inimigos!...
A 3 de Setembro de 1966, publicava o “Diário de Moçambique” sob o título “À margem dos acontecimentos ocorridos na noite de ante ontem na Beira”: - “Não se pode pensar que aquilo que aconteceu na noite de 6ª feira frente ao cinema Nacional tenha sido a efectivação de algo preconcebido.
De forma nenhuma se pode admitir que as centenas de casais ali presentes, tenham levado os seus filhos, muitos deles de tenra idade, para uma confusão daquele género, se imaginassem o que viria a acontecer.
Acreditamos sem relutância que a população da Beira pretendeu apenas ordeiramente protestar contra o aumento dos preços dos bilhetes de cinema, baseando-se numa razão que lhes cabe de não compreenderem semelhante aumento.
A Empresa dos Cinemas da Beira, não veio, até hoje, explicar à população (que lhes dá o dinheiro a ganhar) a razão desse aumento, numa altura em que nada, mesmo nada de mais, lhes dá em contrapartida. A maioria dos filmes continua a ser de má qualidade; os ordenados dos empregados daquela empresa, não consta que tenham sido aumentados; os impostos, quando os há, são suportados pelos espectadores...”
E agora segue-se a gracinha de mau gosto ou a bajulação costumeira, que eu faço questão de reproduzir, embora soubesse que era um subterfúgio frequentemente utilizado, para desviar as atenções da censura, de outras referências de fundo mais importantes: “ E esta pacata população da Beira, que corresponde de boa maneira a todos os sacrifícios que o Governo pede, com a consciência de que tudo se deve fazer no sentido de ajudar Portugal na sua luta contra o inimigo, esta ordeira e laboriosa população reagiu, contra uma prepotência duma empresa que manobra protegida por um monopólio...”
Mas a laboriosa população não correspondeu ao “sacrifício” de satisfazer as exigências de uma empresa que era e sempre foi apadrinhada pelo Governo e reagiu, com a consciência de que tudo se deve fazer no sentido de contrariar as manobras dos seus verdadeiros inimigos.
Assim, após os acontecimentos relatados que levaram à greve geral que se prolongaria por cerca de um ano – a Beira tornava-se pródiga em episódios pouco comuns em território português, com direito a figurar nos registos da “Guinness” – a cidade mobilizou-se, subscrevendo durante esse tempo, as acções emitidas com vista à constituição de uma nova empresa e construção de outra sala de espectáculos, acabando assim com a prepotência vergonhosa de um monopólio, protegido pelas autoridades coloniais e protagonizado pelo Monteiro e Victor Gomes.
Não foi tarefa fácil porque os obstáculos criados pelas autoridades locais e centrais foram muitos, o poder dos favores e influências corruptas movimentaram-se, mas o movimento era imparável e significativo, muito forte e determinado, não havendo forma de o contrariar, embora o tivessem tentado.
E assim nasceu o “Novocine”, sobre as margens lodosas do Chiveve, como bastião da vontade de uma cidade que se dispôs a enfrentar e a sacudir do seu meio, alguns dos seus mais destacados “chupa sangue”.

In “Memorandos da Vida” III volume, a publicar de José Cardoso.

Ricardo Rangel

Cabe-me fazer a apresentação do Ricardo Rangel. Todos nós já o conhecermos como decano do foto-jornalismo em Moçambique e Director da Centro de Documentação e Formação Fotográfica, portanto o responsável por termos agora aqui na Beira esta notável exposição com fotografias da nossa urbe desde os seus primórdios até aos dias de hoje.
Mas talvez só poucos saibam porque é que ele tanto pugnou para que estivesse aqui na Beira este ano celebrando connosco o centenário da cidade. É que o Ricardo Rangel viveu cerca de 6 anos nesta cidade durante a década de 60, e, numa fase importante da sua vida, trabalhando para o Notícias da Beira e Diário de Moçambique. Este último jornal na altura sob a direcção do saudoso Dom Sebastião Soares de Resende, bispo da Beira.
Finalmente volto a citar as palavras que lhe dediquei, no III Festival Internacional de Música de Maputo, realizado em Abril, onde lhe foi prestada uma grande homenagem:
Quero dizer um pouco acerca do meu amigo Ricardo, porque falar do nosso decano da fotografia haverá muita gente mais abalizada para tal.
Muitas vezes em que o Ricardo está perante uma paisagem maravilhosa, um delicioso manjar ou um néctar dos deuses, telefona-me para como sua amiga, embora distante no espaço, compartilhar o seu prazer e felicidade do momento. Essa sua atitude lembra-me as palavras do saudoso poeta Vinicius de Morais: “Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre a meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos,---“
A sua alegria de viver, o seu pedaço de perene juventude, reflecte-se no seu lema, que gosta sempre de repetir: “Cada dia é uma festa”. É assim, com este imenso amor à vida, o meu amigo Ricardo.
Vamos pois , hoje, aqui, festejarmos todos este momento com o Ricardo Rangel.
Maria Pinto de Sá

10/10/07

BEIRA - uma saudação

aBeira - te
e, olha-me nos olhos…

Não, não é só um jogo de sedução contigo, caro/a leitor/a.
Deixa-me, por agora, contornar a volúpia e confessar. Isto é mais um repto que outra coisa. Uma espécie de cobro que venho ajustar com a cidade centenária.
Contra meu desejo e, por um acaso, fiquei deste lado. Do lado atlântico da ponte. Do lado da ausência, e, onde não há festa, pá! (escuto Chico Buarque para aconchegar a nostalgia).
Quando cheguei à desconhecida cidade da Beira, em 1995, nada havia em mim de africano, a não ser uns colares e uns perfumes marroquinos. Eu era um exemplar irrepreensível de desconhecimento, uma moldura propícia para o futuro se desenhar, a seu belo prazer.
Cumpriu-se essa metáfora. O devir desenhava-se rapidamente na minha existência, a crosta da minha vida sofria todas as mutações.
Uma década de comparência de um ser humano num determinado ponto do planeta, faz desse ser uma espécie de ovni, no seu antípoda, ou na sua procedência. Bom, não será, necessariamente assim, mas, o que aqui importa, é que, a partir de então, eu passei a sentir-me assim. Um objecto estranho, no meu inverso geológico.
Simultaneamente, uma forma de desconcerto apoderava-se da placidez dos meus dias.
O confronto era, já, inevitável. Qual era o meu lado da ponte? Onde se situava o meu vínculo?
Sabemos que os elementos, as questões da nossa identidade humana são históricas e construídas. Não se trata, portanto, da reinvenção de uma pertença, mas antes a fundação de mais um pressuposta na minha entidade.
Mas, essa percepção não é, absolutamente, tranquilizante.
Acrescentar a minha individualidade faz de mim uma pessoa mais inquieta, mais impertinente. Como se verá pela ousadia da anunciada cobrança, da despudorada provocação.
William Dubois (um dos pais do pan-africanismo) perguntava-se, "que coisa era essa de que era mais capaz de sentir do que de explicar". Falava de um ancestral e duradoiro parentesco na longa duração da história de África. Que tecido matricial e intrínseco é esse que atravessa e mantém uma múltipla descendência comum africana? Coloco eu, do lado de uma menos sólida configuração ancestral europeia.
Vós sois mais africanos do que eu sou europeia.
E Dubois explica-se. O enlace íntimo, entre os africanos, a verdadeira essência do seu parentesco histórico "é a sua herança social de escravidão, de descriminação e de insulto". Essa herança une os filhos de África.
Um imenso e inesgotável cenário para o pensamento e para a reposição da memória, um passado singular que ajudará a povoar o futuro.
Uma simpatia que me envolve.
Quero entender como e porquê essa atracção me enreda, me tenta, sem retorno.
Todos contamos, ouvimos, inventamos estórias. Todos conhecemos os lugares comuns das palavras e a tranquilidade que os sentimentos ganham, nos espaços que menos reduzem a nossa humanidade.
Não é, tanto, esse o desafio.
O convite é para a compreensão daquela anuência histórica endógena, física e vital. Uma alma essencial e transversal à biografia africana, onde a Beira (Moçambique ) e seus povos se inscrevem, anteriormente às administrações coloniais terem inventado uma cidade no Aruângwa.
Uma permanência no espaço e no tempo…a da gentes tem mais de cem anos.
Beira, kuenda na kuenda…

ABeira-te, olha-me nos olhos e ajuda-me a compreender.

Enquanto isso e para a Festa, deixo-te, caro/a e tolerante leitor, estas belas palavras do poeta Octávio Paz.
Faz delas volúpia ou lucidez, tu decides…

Pressinto nos sonhos que não durmo
que estás ainda muito longe
onde fica o dia
em que tu vives
onde fica essa manhã
deslumbrada só de luz
só de música
só de ternura onde
podíamos acordar tu e eu.


Fernanda Queirós


PS Obrigado querida amiga pelo belo texto que enviaste para o blogue


19/08/07

Breviário duma cidade

«[...] uma cidade tem apenas algumas ruas, algumas casas, algumas pessoas.
Suprimam-se essas poucas pessoas e a cidade não existe mais [...]»
Graham Greene (O nosso cônsul em Havana).


O surgimento do «comando militar da Aruângua», que está na origem da cidade da Beira, em 1884, insere-se no grande quadro da ocupação colonial que se deu em África, a partir do último quartel do século XIX, e que se pautou, no seu faseado, por viagens de exploração e reconhecimento, contactos e acordos diplomáticos com as chefias locais, construção de entrepostos comerciais e militares no litoral e a procura de vias de penetração para o interior, onde se localizavam as zonas agrícolas e auríferas, privilegiando o uso do caminho de ferro. O pano de fundo que deu origem a esta dinâmica foi o despertar das grandes potências europeias pelos grandes espaços africanos e asiáticos, projectando no resto do mundo as suas rivalidades, fruto dum nacionalismo agressivo e belicoso.
A Beira é um caso exemplar para ilustrar o movimento concorrencial entre as metrópoles coloniais e os jogos diplomáticos que então se realizavam visando esquartejar o continente africano. O interesse pela baía do Pungué vem desde 1882, quando o explorador Joaquim Carlos Paiva de Andrada, chamou a atenção da «Sociedade de Geografia de Lisboa» para a ocupação efectiva da vasta zona compreendida entre Sofala, Manica e Sena. Esta região era já conhecida dos portugueses, desde o século XVI, mas estes preferiram as rotas de Sofala e, posteriormente, do Zambeze, para fazer chegar o ouro de Manica ao litoral. António Enes, que viria a assumir a função de comissário régio na colónia, justifica o desinteresse pela região em virtude das suas condições geográficas, profundamente adversas à fixação colonial.
As origens e o desenvolvimento da povoação têm a ver, fundamentalmente, com a sua posição privilegiada na futura rede de comunicações que se viesse a construir para o interior. A sua localização definitiva, na margem esquerda do Pungué, à revelia das determinações oficiais, de 16 de Agosto de 1884, reflectem a necessidade de encontrar um melhor ancoradouro, como a existência de fundos mais apropriados, após o reconhecimento hidrográfico do rio Pungué. Em 1897, a fixação naquele local era ainda justificada por razões geográficas, políticas e comerciais. Mas a fixação definitiva de Portugal na região, no interior duma pobre paliçada de paus e matope, nas terras desabitadas do «Bangoé», só viria a dar-se em Agosto de 1887, após demoradas e difíceis negociações com Ngungunhane, senhor da região, após o início da ocupação «nguni», em 1835|1836. Toda a região de Manica e Sofala viria ainda a ser palco de graves conflitos internacionais, nos quatro anos imediatos, estando iminente a sua ocupação pelas forças policiais da «British South Africa Company», em 1891.
A ocupação e o desenvolvimento e tão vastos territórios viria a ser logo entregue a uma sociedade comercial – a primeira «Companhia de Moçambique» - como era comum na época. Mas só após o regresso da tranquilidade aos territórios e a constituição da segunda Companhia, com poderes majestáticos, se iniciaram então os primeiros grandes trabalhos que vieram a transformar a Beira: procederam-se aos estudos do porto, visando ter completo o seu plano hidrográfico, executou-se a sua balizagem e construiu-se um cais acostável para lanchões, na foz do Chiveve; iniciou-se, em 1893, a construção da linha férrea de 0,607 (tendo sido substituída em 1899|1900 pelo actual caminho de ferro de 1,067), já referida no pedido de concessão da Companhia ao Governo, em 1888; começaram-se as obras da defesa da povoação, com a construção duma muralha e aterros do lado do estuário, esforço que se mantém até aos nossos dias; elaborou-se o primeiro plano da povoação, em 1893...

O engenheiro Joaquim José Machado, primeiro governador da majestática, a quem se devem os primeiros grandes trabalhos realizados, dá-nos em 1892 esta imagem depressiva da urbe
: «Na margem direita do Chiveve, havia as Casas da Companhia de Moçambique e mais nada. Na margem esquerda, estava o acampamento da expedição militar, e a aringa do comando militar do Aruângua, já em ruínas».
E será assim, a partir deste povoado, pobre e mesquinho, num ambiente de grande insegurança política e em condições geográficas adversas que a cidade cresceu, vindo a tornar-se num dos maiores portos de África Austral, com uma importância estratégica para quase todos os países da região. Isto mesmo viria a ser reconhecido no diploma de elevação da Beira a cidade, em 29 de Junho de 1907, referindo-se a «excepcional importância da sua posição e manifesto valor do movimento do seu porto e do tráfego do caminho de ferro», transformando-a num «grande centro de navegação e de comércio de largo e prometedor futuro».

***

Seria à volta da linha férrea que se viriam a desenhar as novas ameaças contra Portugal. Este país viria a ser obrigado, pelo acordo de fronteiras com a Inglaterra, de 11 de Junho de 1891, a apresentar o projecto da linha férrea, num prazo de seis meses, acarretando a sua falta a rescisão daquele tratado.
A obrigatoriedade da construção e exploração duma ligação ferroviária, sem qualquer garantia ou subvenção, tinha já sido imposta pelo governo português à Companhia de Moçambique, em 1889. Esta exigência viria novamente a ser expressa aquando da concessão da carta majestática à segunda Companhia, dois anos depois. Este caminho de ferro, no sistema «decauville», deveria atravessar o vale do Pungué ou do Búzi, terminando em Macequece ou na fronteira Oeste de Manica.
Na impossibilidade de se poderem realizar trabalhos num tão curto espaço de tempo, as autoridades portuguesas apresentam os estudos efectuados pelo engenheiro francês Pouhin, realizados ainda no tempo da primeira Companhia e que esta agora prontamente lhe oferece. E será ainda a Companhia a conseguir a aprovação de Sir George Bruce, presidente da Associação dos Engenheiros Ingleses, do traçado do caminho de ferro com início no Pungué.
Tudo o que decorre imediatamente a seguir revela a enorme fraqueza de Portugal neste importante assunto, evitando assumir posições que possam hostilizar os interesses britânicos. O contrato assinado entre a Companhia de Moçambique e Henry Theodore Van Laun, em 12 de Setembro de 1891, para a construção do caminho de ferro, revela enormes deficiências, com a falta de penalização para o não cumprimento das disposições que lhe são impostas. O construtor pretende mesmo, na impossibilidade de reunir os capitais necessários, a transferir a sua concessão para as mãos da «British South Africa Company (Chartered)». E será a recusa da Companhia de Moçambique que vai levar à constituição da «Beira Railway Company», em 1892, iniciando-se então a construção da linha férrea, de via reduzida, que viria a ficar terminada em Outubro de 1896.
Em 1897, à revelia da Companhia de Moçambique, a «Beira Railway» viria a ceder os direitos de exploração à empresa «Pauling & Comp.», contrato este que viria a perdurar ainda por três anos. Posteriormente, com a conclusão da linha férrea Umtáli-Salisbúria e a sua ligação à Beira, as duas linhas passaram a ser exploradas conjuntamente pela «Beira Railway», «Beira Junction Railway» e «Mashonaland Railway».
Finalmente, a via larga viria a ser inaugurada em 10 de Julho de 1900.
A linha viria a ser explorada pela «The Beira Railway Company Limited» até 30 de Setembro de 1949, altura em que passou para a administração portuguesa, através do «Caminho de Ferro da Beira», tendo a sua aquisição custado quatro milhões de libras. Esta decisão teve em vista impedir que o governo inglês viesse a interferir na gestão ferroviária do lado português, em resultado das nacionalizações a que tinha procedidos nas explorações ferroviárias na Rodésia do Sul, em 1948, e da ligação administrativa até então existente entre a «Beira Railway» e a «Rhodesia Railway».
O «resgate» do porto e a sua administração pelo Estado português, em 1 de Janeiro de 1949, e a «nacionalização» da linha férrea, em 30 de Setembro do mesmo ano, tiveram fortes repercussões na cidade, sendo uma das mais visíveis o rápido crescimento da população colonial, que assumiu a gestão daquelas importantes infra-estruturas. A Beira não estava preparada para este súbito aumento demográfico: durante toda a década de 1950 os preços das rendas de casa mantiveram-se extraordinariamente elevados, obrigando as famílias de menos recursos a alugarem as dependências dos prédios. Uma postura da Câmara Municipal, de 1956, viria alterar este estado de coisas, impedindo a sua ocupação por parte dos «indivíduos civilizados».
Será ainda na década de 1950 que a cidade se torna num importante centro turístico regional, após a construção de algumas importantes infra-estruturas, como o Grande Hotel, o Acampamento Turístico e o «Motel» Estoril, no Macúti; estendendo-se ainda a sua influência à Reserva da Gorongosa (depois, Parque); ao Bazaruto, Vilanculos e Inhassoro, onde se construíram hotéis, de propriedade de Joaquim Alves, e o acampamento da SETA, e onde realizava um concurso internacional de pesca; e, para o interior, à região do Garuzo, com a construção da sua pousada. O exercício desta actividade deparava-se com a inexistência duma verdadeira estrada internacional, o que viria a ficar finalmente resolvido após a montagem da ponte do rio Pungué, no início da década seguinte.
A conclusão da hidroeléctrica do Revué, propriedade da SHER, em 1956, permitiu o fornecimento da energia eléctrica à cidade em melhores condições técnicas e a preços mais acessíveis para os seus utilizadores, abrindo campo para a existência duma indústria local.

Por António Sopa, in Savana de 17-08-07

Diploma de criação da cidade


Ministério dos Negócios da Marinha e Ultramar. Direcção Geral do Ultramar. 2ª Repartição. 2ª Secção. Decreto.
Tendo em consideração o notável desenvolvimento que tem adquirido a povoação da Beira, capital do território de Manica e Sofala, sob a administração da Companhia de Moçambique e sede do seu Governo;
Atendendo à excepcional importância da sua posição e manifesto valor do movimento do seu porto e do tráfico do caminho de ferro, que a põem em contacto directo com a Rodésia e que sensivelmente aumenta de ano para ano, fazendo d’ella um grande centro de navegação e de comércio, de largo e prometedor futuro;
Querendo dar público testemunho de apreço pelos esforços de actividade, que representa a completa transformação da povoação da Beira, em vinte anos realizada, e, ao mesmo tempo, comemorar a visita, que lhe vai fazer Sua Alteza Real o Princípe Real, D. Luis Filipe, meu muito prezado e amado filho;
Hei por bem decretar que a povoação da Beira, capital do território de Manica e Sofala, sob a administração da Companhia de Moçambique, seja elevada à categoria de Cidade com a denominação de – Cidade da Beira.
O Ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar assim o tenha entendido e faça executar.
Paço, em 29 de Junho de 1907 – Rei – Aires de Ornelas de Vasconcelos.

05/08/07

Crónicas de José Cardoso (6)

Sabíamos, pelo que ouvíamos e líamos nos órgãos de comunicação social, que em vários pontos do país se procedia à perfuração do subsolo na procura de hidrocarbonetos e, suponho, que de outras riquezas naturais, nomeadamente nas regiões do Búzi e de Inhambane, possivelmente noutras menos conhecidas, porque menos ou nada divulgadas.
Corriam na cidade as mais diversas especulações sobre o assunto até que, em 1962, foi anunciada a descoberta de importantes jazidas de gás natural em Pande e Temane, na já referida província de Inhambane.
Pouco tempo depois fomos surpreendidos por um fenómeno nocturno curioso e de certo modo deslumbrante, ao mesmo tempo que os jornais e a rádio, anunciavam a deflagração de um violento incêndio num dos poços abertos em Pande.
Ao cair da noite, uma auréola alaranjada manchava o céu distante, a algumas centenas de quilómetros, parecendo que o poente suspendera por qualquer motivo transcendente, o seu declínio natural.
Convivemos com esta imagem nocturna e habituámo-nos a ela durante largos meses, até que, se extinguiu, por acção de técnicos especializados na extinção de incêndios semelhantes, vindos dos países que tinham a responsabilidade contratual de proceder a pesquisas de hidrocarbonetos no nosso, nomeadamente dos Estados Unidos da América.

Quase em simultâneo, a Beira era sacudida por outra notícia, que só pelo facto de não ser suficientemente divulgada nos órgãos de comunicação social por razões que desconheço, lhe dava uma auréola de autenticidade encoberta. Corria de boca em boca de forma especulativa, que no Búzi, teria sido descoberto petróleo. Oficialmente nada foi confirmado nem, que me lembre, desmentidos os rumores, e se o foi, ninguém deu crédito à notícia porque, as próprias fontes que as forjavam e disseminavam, eram porta-vozes de interesses económicos suspeitos e estavam por isso e por muitas coisas mais, sobejamente desacreditadas.
Fosse como fosse, verdade ou não, o que corria nos bastidores da murmuração, era o que constava como um facto real: alguns habitantes da vila do Búzi, estavam a utilizar nos seus automóveis, um novo combustível retirado dos poços ali abertos, a que deram o nome de “buzilina”.
Tive ocasião de observar uma garrafa contendo “buzilina” que um amigo teve a amabilidade de me mostrar e, constatei, que se tratava de um líquido transparente e incolor, tal como o álcool puro, e tinha um cheiro intenso muito activo, que se situava entre o odor daquele e o da gasolina. Essa amostra porém, não seria suficiente para que, por ela, pusesse “as mãos no fogo”, como garante da veracidade do que dela se dizia. Até porque, na vila, havia uma açucareira que também fabricava álcool puro para exportação e uso interno e sabe-se lá o que com ele se poderia urdir para explorar a credulidade de papalvos menores, em ambiente de esperança e de exaltação patriótica!...
De qualquer forma, ou porque continuasse a ser igualmente crédulo, ou porque as testemunhas que afirmavam ter sido o famoso líquido, a “buzilina”, retirado dos poços, me merecessem confiança, ainda hoje tenho dúvidas e me interrogo, se não teria estado perante um produto original.
Não houve nenhum esclarecimento sobre o assunto, nem que sim, nem que não, nem que também, e por isso, atribuímos à população da vila o benefício da dúvida, tanto mais que, logo a seguir, foi noticiado o encerramento definitivo dos furos de prospecção que haviam ali sido abertos, sem que até hoje se saiba das razões da decisão.
E então especulou-se - porque nunca se tornou a falar no assunto e por ter caído no esquecimento -, que se teria descoberto algo de importante e que a selagem dos poços, poderia querer dizer que a descoberta, ou não era suficientemente significativa para justificar a sua exploração, ou ficava como reserva, em “stand by”, aguardando por melhores oportunidades.
Se se tratou de um estratagema de diversão para enganar o “indígena” como era hábito dizer-se, então, foi muito bem conseguido porque, pelo menos eu, ignorante, porque também sou indígena de algum lugar, aceitei-o como verdadeiro, como aceito ser exacto o aforismo popular de que só existe fumo onde existe em combustão uma fogueira.

A talhe de foice, mas a propósito, transcrevo com a devida vénia um parecer sobre a ignorância, elaborado por Richard S. Lindzen, reconhecido cientista americano: “A noção de que se você for ignorante em alguma coisa e alguém lhe aparecer com uma resposta errada, tem de aceitá-la porque não tem uma outra resposta errada para dar, é como a cura pela fé, é como o charlatanismo na medicina. Se alguém lhe disser que deve ingerir caramelos para curar o cancro e você responder que isso é estúpido, ele diz, bem, pode sugerir alguma outra coisa? Será que ao responder que não isso quer dizer que você tem de ingerir caramelos?”
Bem. É razoável pensar-se que, o preferível, por via das dúvidas, é não virmos a sofrer de câncer!...

In “Memorandos da Vida” Volume III, de José Cardoso

16/07/07

Crónicas de José Cardoso (5)

“Para grandes males grandes remédios”, é um aforismo muito popular entre nós e o governo não hesitou em segui-lo, tomando medidas extremas como “grandes remédios” numa feroz repressão contra os “grandes males” que representavam no momento o “Diário de Moçambique”, amordaçando-o duramente e enfraquecendo-o, para que mais tarde caísse de maduro e o pudesse tomar de assalto por via de algum acólito sabujo.

Assim, por despacho do Secretário-geral da “Província”, de 14 de Fevereiro de 1968, ordena-se: “fica suspenso o referido jornal por trinta dias a contar do dia da notificação, por ter publicado no seu número 6167, de 7 do corrente mês, o artigo sob a epígrafe “Automóveis roubados” sem que o tivesse submetido previamente à apreciação da Comissão de Censura à Imprensa”.

A denúncia de crimes e de criminosos, estava pelo que se lê, igualmente sujeita à peneira do censor, não fossem eles pessoas gratas ao regime e como tal intocáveis. Seria um acto ridículo se o mesmo não fosse escandalosamente cúmplice, dos abusos que então se cometiam, em nome de uma moral inquisitória e corrompida, até à medula das conveniências insensatas e totalitárias.

Para sofrer tamanho castigo, para que se calasse um jornal diário por período tão longo, o artigo devia ser uma “bomba”, talvez “um libelo terrível”, parafraseando Ramalho Ortigão noutro contexto, contra o governo português e contra a sua política colonial.

Afinal era apenas a denúncia de um facto que era conhecido e comentado por toda a cidade, mas, nada melhor do que transcrever o referido artigo para podermos aquilatar da potência da “bomba” e da prepotência do censor e do governo da “Província” ou melhor, do território de Moçambique colonizado. Transcrevo-o pois para apreciação do ledor atento e com tento, ou para que fique simplesmente registado:

“Se o leitor, por volta da meia-noite, deu por falta do seu automóvel, talvez lhe encontre a pista lá para os lados da Manga, à beira de alguma ruela; com noventa por cento de possibilidades acertará se pensar que lhe foi levado por algum pequeno grupo de militares.

Se o leitor dá pela falta do carro à madrugada, pode encontrá-lo, muito provavelmente, junto da Base Aérea. Com noventa por cento de possibilidades, foi-lhe levado por militares daquela Base.

Se o leitor encontra o seu carro onde o deixou, visivelmente amolgado, indiciando tentativas de abertura e furto, tem noventa por cento de possibilidades de acertar, atribuindo o desacato a militares da Força Aérea. Com efeito, desde há muito tempo, multiplicam-se os destemperos do género; e a sua frequência demonstra que isto agora é assim...”

E o artigo prossegue com algumas considerações de ordem moral e cívica, mas o que transcrevi é suficientemente esclarecedor de que aos militares-ladrões lhes era dada protecção e impunidade.

Todos sabiam, até as populações dos subúrbios que, quando alguns grupos de militares da força aérea se deslocavam da Manga onde estavam baseados, para se divertirem no centro da cidade, ao aproximar da hora de recolher, não se inibiam para tomar de assalto um ou mais automóveis, conforme o número de bandos, e neles se fazerem transportar, abandonando-os nas imediações da base.

Todos sabiam mas ninguém mexia uma palha para os deter e pôr na ordem, porque era aconselhável trazê-los nas “palminhas das mãos” para evitar descontentamentos e distúrbios maiores, já que muitos deles iam tomando consciência de que a guerra em que participavam não era a deles e que estavam nela para defender interesses que não eram os seus.

De heróis cegos e patriotas obtusos estavam os cemitérios e os infernos cheios!...

Quero no entanto salvaguardar aqui a honra e a dignidade de alguns que conheci pessoalmente e de muitos outros, que se punham à margem destes desacatos e os condenavam, assim como condenavam uma guerra que lhes era imposta e que consideravam injusta.

A ideologia fascista que leva a estes excessos, infelizmente, tem ramificações e defensores por todo o mundo, como prova a insultante e descarada afirmação do editorialista mexicano António Uroz, que visitou Moçambique em 1962, a convite do governo colonial:

“Se em alguma parte existe liberdade e autêntica democracia, é na província de Moçambique.” Que tremenda mentira e que desplante!...

Não fosse o talento que demonstrou ter este senhor jornalista, para o descaramento e a sabujice, nunca teria sido convidado.

Que outros comentários fazer senão o da minha convicção de que, por crimes menores do que o cometido pelo senhor António Uroz - que ousou insultar publicamente todo um povo oprimido e explorado, exaltando os que o oprimem e exploram -, têm sido muitos cidadãos de outros países condenados por injúria, a pagamentos de coimas e até de prisão!... Mas estes casos vão sendo cada vez mais raros porque, nas “democracias” do ocidente, a jurisprudência é manipulada de forma a garantir uma maior prudência nos juízos, para salvaguardar os interesses obscuros de quem detém o capital e o controle dos mídia e das ideias.

Sobre conceitos de democracia, chamo à liça “Abraham Lincoln” e o meu amigo Guilherme Afonso. Aquele pelo que disse e este pelas informações e considerações que me fez a propósito.

“Pode-se enganar alguns do povo a todo o momento, e todo o povo algumas vezes, mas não se pode enganar todo o povo a todo o momento.” Quem o disse não foi “Bush” – que o Diabo me livre dele porque de Deus é confrade -, mas o 16.º presidente dos Estados Unidos da América (1861-1865), Abraham Lincoln, informou-me o Guilherme que teceu as seguintes considerações, “…de quem vale apenas saber-se que foi o mesmo que, com a sua governação progressista, levou ao desencadear da Guerra Civil Americana (também denominada Guerra da Secessão), e que assinou, em 22 de Setembro de 1862, a Proclamação de Emancipação dos escravos no seu país. Nada de estranhar pois, que num breve discurso em 19 de Maio de 1863 se tenha pronunciado a favor da democracia, definindo-a como “o governo ao povo, pelo povo e para o povo”. Que Lincoln foi um democrata a sério, prova-o a forma como arduamente lutou pelas suas convicções. O que acabaria aliás, por custar-lhe a vida, baleado, em 1865, por um sulista. (Porque se opunham à política anti-esclavagista de Lincoln, os sulistas pretenderam a secessão dos EUA entre o Sul e o Norte e bateram-se por isso, saindo derrotados).

Num desabafo, idêntico a muitos que tenho, porque me aliviam os nervos e me contêm os impulsos, o Guilherme termina: - “Será porque fazer-se corresponder o que se faz ao que se diz implica altos riscos, como vimos em relação a Lincoln, que tanto indivíduo que se apregoa de democrata e faz certas promessas em eleições ao candidatar-se a altos cargos da governação, uma vez conquistado o poder faz tudo ao contrário? Isto, para não falar daqueles para quem a democracia é o mesmo que para o senhor George W. Bush, por sinal o 43º presidente dos mesmos EUA, onde, parafraseando Lincoln, alguns do povo vêm há muito sendo enganados a todo o momento, onde todo o povo vem sendo enganado vezes de mais e não parece que esteja para breve um desses momentos em que todo o povo se não deixe enganar.

Será isso, só porque nunca os poderosos puderam tanto e esse poder também lhes dá cada vez mais meios para enganar o povo? Ou será porque o povo gosta cada vez mais de se deixar enganar?...”

Os povos gostam porque não só são colectivamente cobardes mas também carneiros que se deixam tosquiar - apetece-me acrescentar e pedir desculpa aos carneiros que não têm culpa nenhuma -. Basta-lhes uma cobertura de lã para os resguardar dos frios e ventos invernosos, o restolho dos pastos já usados para lhes entreter os estômagos e os dentes podres, por tantas ruminações transcendentais.

In “Memorandos da Vida” III Volume, de José Cardoso

10/07/07

Shikhani : “É necessário aventurar”

Entre as imagens fantasmagóricas e tenazes que me povoam a memória, sem dúvida, estão as de Shikhani. Cabeças, narizes, abdómens, lábios e olhos enormes, descomunais membros superiores e inferiores descalços. Os homens de África, as mulheres de África. Corpo e alma. Alma e corpo e coração. Sensibilidade e faro: África. Personagens monstruosas, flageladas pelos ventos “este” e “oeste”.
É ele que capta as expressões do rosto, os gestos semoventes. Capulanas, calções. Pai da natureza e identidade que concorre para dentro de si: a negritude. Sedentas de afirmação, aqueles olhares esbugalhados, uma toda cultura e povo encarnados num homem. Porta-voz duma maioria oprimida, depauperada pelos cinzentos séculos de escravismo.
Leio-lhe as obras percorridas de memória, idos os anos distantes, longínquos, idas as indagações e inquietações à volta do conteúdo das mensagens reunidas nos quadros fixados às paredes da sua casa do Macurungo. Ele ausente/presente do circuito da convivência. Pelas “Europas” e África repartido. Mais propriamente no dizer de Bertina Lopes corpo além fronteiras, “aqui a alma”. O aqui cognomina-se um dos bairros dos arredores de Maputo, muito afastado do rebuliço citadino, onde, corridos tempos distantes, removida a barreira da longitude e da latitude, o fui visitar, levado pelo Mablinga, o filho, esse amigo que acedera acompanhar-me at´junto do “monstro Shikhani, o Ernesto Pais (nomes próprios com posteriormente vim a saber da pessoa que insistimos chamar Shikhani.
Porquê a necessidade de encontar Shikhani? Nostalgia, e mais do que isto, debitar a dívida, o tributo, pelo que a sua imaginação me tinha dado a ver, desdde a fértil idade. Sou nostálgico do passado e do futuro. Precisava apascentar novas obras suas com os olhos, que mais uma vez me terão consentido o privilégio de estar diante às suas cores aguerridas, alegres, o traço seu que corre o mundo à busca de insigne notoriedade de África. Como noutro tempo percorri demorado a sua inventiva, acariciei a impressão digital que lhe é característica, mesmo que seja à espátula ou pincel. Com ela exorcismam-se fantasmas e demónios de qualquer que seja o observador. Lá está a respiração, o coito, o açoute e o acoitar-se, a pervagação, a dúvida. Fidelíssimo à matriz, à raíz, à essência. A dele e a de muitos de nós. Sem cisão com a partida.
Não posso contemplar os quadros de Shikhani sem que, no final, me dê conta de que teria sido anestesiado por um antídoto que nos faz reféns por extensos minutos.
Até um seu mural destruído pelas forças da ignorância no Centro Social do Macurungo, nesta Beira que também é sua, ecoa dentro de mim. Reverbera. As sinergias das forças anímicas que lhe davam o prumo tornam possível os acordes do peito e do sangue. A mesma veia.
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Tinha perdido o fio à meada. Falava do vulto ausente/presente Shikhani agora a passar-me um recado que me terá ficado após a privação: “Na arte é necessário aventurar”. Que quererá ele dizer? Persistência, perseverança e, acima de tudo, firmeza.
De facto, na arte como em tudo, “é necessário aventurar, digo sempre cá para comigo. Shikhani resiste na memória privada e comum. Dentro de mim registo uma casa situada numa zona pacata da cidade capital, mas que nem por isso deixa de conter um homem com uma obra cujo valor transpõe o seu diminuto átrio. Um homem, por assim dizer, que se passeia por todos os cantos do mundo transportando as ressonâncias e raízes, desde Marracuene a Macurungo, de Macurungo a Maputo. Um homem desigual a tantos, de nenhuma aspereza.
Ao despedir-me do “monstro” sedimentou-se-me na memória aquilo que desde há anos dele tenho visto na Beira, no Palácio dos Casamentos, no Sandromar, hoje Tropicana, no restaurante da Casa da Cultura.
Uma pintura que passa e ficará para todo o sempre. Do outro lado do portão o vulto do aventureiro postado de bruços, corpo escondido, e a cabeça transpondo-se cá para fora, a vista suplantando para lá do mundo exterior, acenando-me a mão, à hora de bai.

texto de Adelino Timóteo


06/07/07

Crónicas de José Cardoso (4)

Em 1946, na cidade, continuava a ressoar o matraquear cansado da Central Eléctrica movida agora a gasóleo segundo creio, esforçando-se por fornecer à urbe, não a energia de que carecia mas a possível, em períodos intermitentes, devido ao desgaste dos componentes e constantes, avarias.

Posteriormente tive a informação - creio que correcta - de que, num passado recente, teria sido movida a vapor, com as caldeiras abastecidas a lenha vinda dos mangais próximos e transportada por lanchas que subiam o Chiveve, suposto rio que era na verdade um braço longo do mar com pequenos afluentes dispersos e malcheirosos, que lembravam os braços viscosos de um gigantesco polvo. Avançava pela cidade adentro atingindo os bairros da Ponta Gêa e do Chipangara e separando a Baixa do Maquinino. Essas lanchas movidas à custa de longas varas destramente manobradas por experientes marinheiros negros e com a ajuda das marés da “preia-mar”, subiam o Chiveve carregadas de lenha de mangal até quase às portas da velha Central.

E porque rememoro o que era na altura a problemática do fornecimento de energia à cidade que era como disse, bastante deficiente, lembrei-me de um pormenor curioso relacionado com esse mesmo fornecimento e que, de igual modo, havia observado em Lourenço Marques sem lhe dar a devida importância: a determinada hora, creio que por volta das oito e meia da noite, a energia baixava gradualmente de intensidade até quase se extinguir, voltando logo a seguir à normalidade.

Só na cidade da Beira, onde o facto também se registava, é que vim a tomar conhecimento das razões desse afrouxar pontual de energia, e elas constituíam afinal um sinal para que os patrões dos empregados domésticos e outros, soubessem que eram horas de os libertar para deixarem o trabalho e recolherem a casa porque, a partir das vinte e uma, não era permitido ao negro deambular pelas ruas da cidade de cimento, nem mesmo pelos bairros indígenas da periferia, a menos que tivessem em seu poder um ”salvo-conduto” ou “passe”, ou até uma carta do patrão, que justificasse a sua saída tardia do serviço.

Era a hora do recolher obrigatório!...

Muitos dos que moravam nos bairros mais distantes, tinham que fazer o trajecto em passo de corrida, para não serem apanhados e levados para os calabouços onde passavam a noite, para serem libertados no dia seguinte se estivessem em condições de justificar a infracção e mesmo assim, só depois de castigados pelas tradicionais e humilhantes palmatoadas, dadas pelos seus irmãos de cor, os sipaios, que o faziam a mando dos seus superiores hierárquicos. Se não obedecessem a tão aviltante ordem, uma recusa inconcebível e por isso muito rara, eles próprios eram submetidos ao mesmo tratamento, agravado com alguns dias de calabouço e suspensão de funções por períodos determinados e por vezes expulsos da corporação policial.

Sendo rara como disse essa recusa, é de toda a justiça e em nome da verdade que se diga de passagem para que fique registado o facto, que alguns deles o faziam com satisfação e com requintes de malvadez que lhes não eram exigidos, sobretudo quando o detido não lhes era simpático ou pertencia a região ou etnia diferente da sua.

Era “um ver se te havias” nas formas repressivas para travar leviandades que estivessem em incubação nas cabeças duras dos pretos, de prevenir irreverências futuras ou ainda, para acautelar e desencorajar o desenvolvimento de movimentos subversivos e de potenciais sublevações porque afinal, o acto de pensar e de chegar a conclusões óbvias, não era privilégio da raça branca, que se afirmava como a mais inteligente.

Era este na verdade o pensamento que prevalecia na maioria das cabeças ocas dos colonos portugueses porque, além dessas ideias lhes terem sido incutidas por uma propaganda insidiosa e metódica, a maioria deles era de origem humilde e constituíam terreno fértil para as machambas de culturas dóceis e a minoria os mentores ideológicos, os fazedores da política sócio-económica da metrópole e das colónias, os machambeiros da desgraça.

Infelizmente tive, como o tiveram muitos outros nas pessoas dos seus mainatos e moleques, oportunidade de ver algumas dessas mãos castigadas, apenas pelo crime de andarem na rua por não terem tido tempo de chegar à sua palhota. Apresentavam-se disformes e intumescidas, como alguns dos olhos dos seus donos, por terem passado a noite em claro gemendo de dor, apesar das mijas abundantes que verteram sobre elas, para beneficiarem de algum alívio como se acreditava, mas também e sobretudo por chorarem de raiva e impotência.

Mas ficávamos por aí, como observadores passivos e insensíveis, outros até com uma certa incoerência relativamente às suas ideias e convicções, sem uma palavra ou um gesto de revolta contra tamanhas barbaridades. Tudo não passava de rotina. Tratavam-se os “trambolhos” com banhos de água fria, bálsamos refrescantes e algumas cínicas palavras de conforto, mas tolerava-se a peçonha como um mal menor, um mal necessário para a tranquilidade de todos mas também da nossa vergonha e do nosso opróbrio. Era mais cómodo e evitávamos o epíteto de subversivos contra a ordem estabelecida do “Estado Novo”, no velho e bolorento estado da metrópole colonial!... Partia-se do princípio de que o castigo se não era justo era tolerável, porque o simples facto de se ser preto já era crime bastante para que todos o aceitassem como inevitável, na medida em que todos ou a maioria se calava, sem pedir justificações e exigir responsabilidades a quem as podia dar e assumir!...

In “Memorandos da Vida”, II Volume, de José Cardoso

05/07/07

Apresentando o Cecil

Cecil Rhodes, born this day July 5th, in 1853, was a financier and statesman of British South Africa who served as prime minister of Cape Colony and organized the diamond company De Beers.

"I contend that we [the British] are the finest race in the world and that the more of the world we inhabit the better it is for the human race."

Cecil Rhodes
“Enciclopédia Britânica”


Em 1899 Rhodes esteve na Beira, juntamente com Sir Charles Metcalfe e outras destacadas personalidades, ficando instalados em casa de Alfred Lawley, engenheiro construtor da linha férrea da Beira para a Rodésia. Aí se discutiu o alargamento da linha.


“História dos Caminhos de Ferro de Moçambique” de Alfredo Pereira de Lima

30/06/07

Crónicas de José Cardoso (3)

Recuando no tempo em relação às anteriores crónicas, reporto-me a 1946, ano do meu desembarque no cais do Pungué, levado pelo navio costeiro, “Luabo”, tinha então 16 anos. Encontrei ainda a velha Central Eléctrica a resfolegar de esforço e de velhice, que viria a ser substituída em 1948, pela nova “Central Termoeléctrica” da Munhava. No primitivo terreno seria então erguido o prédio Megaza, como o foram logo a seguir, nos terrenos adjacentes, os prédios da Casa Bulha, A. Teixeira, Entreposto Comercial, Hotel Embaixador e outros, em zonas que eram antes pantanosas e inundadas pelas marés vivas que subiam o Chiveve, formando lânguas de difícil acesso.
Antes destas modernas construções iniciadas a partir dos primeiro anos de 1950, que marcavam o início de um desenvolvimento urbano assinalável, lembro-me, que na área a que me reporto acima, sobressaía, entre velhas construções térreas geminadas destinadas ao pequeno comércio chinês e hindustânico, o interessante edifício de três pisos que dominava a zona e que era a sede do “Clube Chinês”. Teria já na época a que me reporto, segundo informações que obtive, cerca de duas dezenas de anos.
Na área ocupada actualmente pela frequentada Praça do Município, que foi projectada e construída no meu tempo, passando a constituir a sala de visitas da cidade e o seu postal turístico mais representativo, depois das praias que se alongavam desde a praia dos Pinheiros, passando pela dos Alemães e até para além da mais apreciada pelos turistas, a do farol do Macúti, situavam-se as instalações comerciais da Casa Bulha, do F. L. Simões e o Bar de um cidadão grego cujo nome, se não me falha a memória era o de Kusdakis ou qualquer coisa semelhante em termos homófonos.
Estes estabelecimentos, todos eles em madeira e zinco, ladeavam uma via que era o prolongamento da rua General Machado e onde, no sentido do porto, se situavam e ainda se situam à direita, os “Correios”, o “Rádio Scala” a “Cooperativa da Beira” e a “Farmácia Graça” e do lado oposto, num longo edifício, o “Ramchand” e o “City Stores”, ocupando o primeiro andar a “Pensão Theodorakis”. Mais adiante o “Dayram”, que ficava isolado entre dois terrenos devolutos, seguindo-se-lhe um alongado edifício de dois pisos, onde se situavam as “Obras Públicas” e os “Serviços de Viação” que ladeavam, em parceria com a “Casa Portugal”, o “Standard Bank” o “Barclays Bank”, e que me lembre a “Pensão ou Hotel Beira”, o largo Luís Inácio, mais tarde a praça do “Lacerda” como era conhecida.
Aquela que era a avenida da República, única em betão armado no Império Português, ia do local onde foi implantada a Praça do Município até à Praça da Índia. Era das mais antigas da cidade e a partir de certo ponto, a mais apreciada, pelas duas extensas orlas de velhas acácias e jacarandás que a ladeavam e ainda ladeiam desafiando os tempos, e cujos ramos se abraçam no alto, formando um túnel aprazível de refrescante sombra. Continua hoje, no essencial, a ser igual à que conheci na época: a mesma estreiteza de pisos para automóveis e peões, a mesma decrepitude. Mais degradada está a situação do solo pavimentado e utilizado por peões e veículos, apresentando pronunciadas lombas e fissuras, provocadas pela pressão das raízes subterrâneas em resultado do seu inevitável desenvolvimento e expansão ao longo de dezenas de anos.
Os edifícios de maior relevo que lhe davam alguma importância, eram o do “Avenida Hotel” seguindo-se a meio do percurso e em direcção à “Ponta-Gêa” o hospital europeu “Rainha Dona Amélia”, assim conhecido porque servia apenas a europeus, seguindo-se a “Sé Catedral” com a “Escola de Artes e Ofícios” da diocese, tendo em frente a “Escola Eduardo Vilaça” e o edifício que fora antes o “Grémio dos Empregados da Companhia de Moçambique” e mais tarde o “Clube da Beira”, e um outro, onde funcionou a “Emissora do Aero Clube da Beira”, e hoje se situa a “Farmácia Beira”, aberta por Tzitzivacos, um farmacêutico de origem grega, e mais adiante, junto à praça onde pontuaria mais tarde o “Cinema São Jorge”, situava-se e ainda se situa o “Colégio Nossa Senhora dos Anjos”, o colégio das “Mères”, como era então conhecido.
O “Avenida Hotel”, o “Hotel Savoy”, encostado à muralha e junto ao “Clube Inglês”, e o “Beira Terrace” implantado num amplo jardim, também sobranceiro à muralha de protecção à cidade e com vista para a baía, eram cartaz da hotelaria beirense na época. De destacar eram ainda os edifícios do “Tribunal”, dos “Correios”, das “Repartições do Governo” que fora antes da “Companhia de Moçambique”, a “Casa Portugal”, o “Standard e o Barclays Bank”, o “Cinema Olympia” e a “Cadeia”, todos eles na Baixa.
Com excepção do “Beira Terrace” que foi consumido pelo fogo ainda no meu tempo, todos os demais ainda existem e de tão antigos, deviam merecer o estatuto de património da cidade, porque são a sua memória e constituem páginas importantes da sua história.
in “Memorandos da Vida” II Volume, de José Cardoso