O
O
Não pretendo
Dirijo-a
Aos
Tenho o
O
De
Tocou-me
A
Seria
Conheciam-se
Declarei-lhes
Olhares arregalados de
De
Reagi a
A reacção foi
À
Tranquilizadas as
Perante a
Parecia
Não consegui
Dele fiquei
À afirmação de
In “



Neste "blog" pretende-se apresentar informações sobre aspectos históricos e culturais desta cidade de Moçambique.
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Não pretendo
Dirijo-a
Aos
Tenho o
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Tocou-me
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Seria
Conheciam-se
Declarei-lhes
Olhares arregalados de
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A reacção foi
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Não consegui
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-É verdade isso sim senhor. Lembro algumas pessoa que até era de maningue engraçado, de pôr riso na cara da gente mesmo… originais como se diz. Não originais do lugar mas das maneira de mostrar figura de importância e dizer coisas de boniteza. Lembro de uma de Gillete…
-Conheci muito bem. Mas esse não era o seu nome verdadeiro – interrompeu.
-Era sim patrão…Oh! Desculpa patrão... custa muito esquecer este palavra de tratamento. Desculpa outra vez senhor Fernando. Mas eu lembro bem. Era de Gillete sim senhor. Todo gente falava.
-É verdade. Chamavam-na de Gillete porque era mulher de um dentista que se chamava Gil e o povo colono baptizou a ela com nome feminino de Gil.
-Verdade? Essa
-Lembro da Gillete sim senhor e muito bem. Gostava muito de cinema e era raro faltar a uma estreia. Até levava o cão com ela a ver os filmes…
-Disso
-Tem toda a razão, meu amigo Gimo. Sou também desses tempos e sou testemunha viva dessas aberrantes e injustas discriminações.
Respeitou por momentos o recolhimento evocativo do companheiro e continuou:
-A Gillete era uma figura única, muito típica mas também muito grada, entre os colonos da sociedade beirense. Era como uma mascote-múmia que, se por uns era ridicularizada, por outros era admirada e respeitada... – e oferecendo-lhe um sorriso aberto de satisfação, retribuiu, repetindo o que ele havia dito: –...meu conterrâneo amigo!... Assim fica melhor essa forma de nos tratarmos. Mas por você é mais costumado, é tratamento de respeito e amizade. Por amigo prefiro, porque afinal é o que somos, não é verdade? Estávamos é esquecidos um do outro.
-Se o
-Afinal aprendeu depressa alguns termos usados no sul – disse Fernando, e, retomando o fio à meada, recordou:
-A Beira era rica de personagens excêntricas e requintadas. Lembro-me de um doutor…
-Não avança mais meu amigo conterrâneo – interrompeu Gimo com entusiasmo -, não avança mais. É aquele doutor que usava só metade dos óculo. Como se chamava aquela coisa?
-Monóculo. – respondeu o inquirido, voltando a repetir: –Chama-se de monóculo.
-Isso mesmo. Chamava-se assim, de monóculo. Ele não precisava de óculo inteiro para ver a gente. Punha aquele redondo de vidro no olho só para fazer chibante. Era bonito inté. Tinha moldura e corrente fina de prata, igual à dos artesanais ourives da Ilha de Moçambique. Era p’ra não deixar cair no chão e estragar de vez…
-É
-Ah sim!? Não sabia desse conhecimento…
-Contava-se até que ele tinha levado o que restava do monóculo ao oculista para consertar. E quando o foi buscar, mais tarde, a menina do balcão, que era muito bonita e gostava de brincar de atrevimentos, lhe teria perguntado: -O doutor quer que embrulhe ou leva no olho? …
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Do livro "Mangachana, a Feiticeira e outras histórias” a publicar brevemente.


20 de
A
O
Contrastes amargos de uma sociedade que, por ganância exacerbada de uns poucos, muitos sofrem de lenta mas irreversível decomposição física e moral.
Visitámos os
O porto da Beira sofreu e ainda sofre dessa crise de má gestão e da política discriminatória do vizinho, e com ele a cidade, que sabia serem o porto e os caminhos-de-ferro, a sua alma e o seu sangue, a razão principal da sua existência.
A Beira começou por ser um porto de mar que, com pressas de urgência se fez cidade sem cuidados futuros, assentando praça em terrenos pantanosos para, de muito cedo, começar a viver dos serviços que prestava à Federação das Rodésias e Niassalândia e, mais tarde, em resultado dos ventos da história que sopraram forte e iniciaram as varreduras das colónias, aos libertados e soberanos Malawi e Zimbabué, que vieram substituir a referida Federação.
A partir dos anos 50, a Beira beneficiou por isso de um desenvolvimento rápido e invulgar, quer em número e importância dos prédios que então se construíram, quer no crescimento demográfico.
Dizia-se
De tudo isto falávamos. Eu, a Laura e o Leonel, um velho amigo que encontrámos na esplanada do café “Capri” na Praça do Município e que, de tão surpreendido e satisfeito por ter deparado connosco ao fim de tantos anos, - quase trinta - abandonou a mesa onde estava com amigos e veio sentar-se à nossa.
É
Leonel falava
-È
-Talvez seja essa uma das razões porque estamos aqui hoje – disse-lhe eu para evitar que se apropriasse da conversa e nos colocasse na prateleira como meros escutantes, - foram os festejos que nos motivaram mas também uma boa dose de nostalgia…
-È
-Traga mais dois Whiskys e para mim uma cerveja… - e quando o criado se retirava acrescentou a tempo: - por favor, e meia dúzia de rissóis de camarão e outro tanto de chamuças bem picantes para servirem de lastro. – A seguir olhou para a Laura e delicadamente perguntou:
-A minha amiga toma mais um não é verdade?...
-Só se for
-Um
Lembrava-me
Ao
O criado chegara entretanto e, com simpatia e solicitude, dispôs sobre a mesa o que o nosso amigo tinha encomendado, juntando-lhe um copo com gelo.
Leonel fez
-Já deram alguma volta pela cidade? – E sem esperar resposta acrescentou:
-Como a acharam em relação aos tempos do antigamente?...
-Mais
-Embora a cidade seja pequena, é suficientemente grande para a percorrermos a pé e não temos transporte para a ver como queríamos e devíamos – disse a Laura. – O que vimos foi de boleia, mas uma coisa nos impressionou: é uma cidade limpa. Não encontramos o lixo amontoado como acontece em Maputo…
-Isso deve-se ao bom funcionamento do Conselho Executivo que tem feito um bom trabalho… - disse Leonel, que depois de uma pequena pausa continuou, - e também ao civismo das pessoas que assumiram a necessidade de viver com asseio para evitar doenças e de, por essa mesma razão, contribuírem para que a cidade se conserve limpa…
-Mas uma coisa nos impressionou e entristeceu, o estado de degradação do Grande Hotel, – disse-lhe eu – talvez porque o tivéssemos conhecido nos seus tempos áureos e estado presentes como mirones de rua, na sua inauguração…
-Ah!... O
-Cheguei a visitá-lo
-E continuam a
Chamou de novo o empregado e encomendou, depois de olhar para os nossos copos ainda a meio e sorrir com complacência:
-Traga mais uma cerveja mas desta vez que seja da marca Manica. Não quero da Laurentina como a que serviu da primeira vez, porque é lá da capital e a nossa é melhor…
O empregado, visivelmente perturbado, desculpou-se:
-Mas patrão não tinha pedido a marca que queria e eu não sabia…
-Eu sei, tens toda a razão. A culpa foi minha, mas agora prefiro “Manica” e não te esqueças; que esteja bem geladinha. – E voltando-se para nós. – Vocês estão relutantes em festejar condignamente este momento de festa para a Beira que comemora o centenário, e para mim, que me sinto contente por este nosso reencontro…
Sorrimos. Leonel continuava a ser igual a si próprio, tal como o havíamos conhecido trinta anos antes: extrovertido e franco. Embora nunca tivéssemos tido com ele grandes intimidades, sempre nos agradou a sua presença alegre e contagiante.
-Era lá que a minha mulher arranjava o cabelo, fazia a sua “mise”… - recordou Leonel com atrasos de continuidade na conversa… depois ia buscá-la e tomávamos um café ou um refresco no pequeno restaurante da piscina.
-Nunca fui a essa cabeleireira – disse a Laura, - os preços eram elevados para as nossas posses e o ambiente demasiado snobe para meu gosto…
-Lá isso é verdade – confirmou o nosso amigo. – Mas a minha mulher que Deus tem nos braços de outro e que começou por me pôr os cornos muito cedo, tinha dessas fraquezas...
Não comentámos o desabafo e não avançámos nem que sim nem que não, que desconhecíamos ou já sabíamos… limitámo-nos a desviar os olhares da testa limpa do nosso amigo, e fixá-los no movimento cada vez mais intenso da Praça. Depois, a Laura, oportuna e convenientemente, corroborou, pegando no fio interrompido da conversa:
-Por algum tempo nós servimo-nos da piscina do Grande Hotel… davam-se lá lições de natação e nós, aconselhados pelo nosso médico, entregámos o nosso filho mais velho aos cuidados do monitor, no sentido de ventilar melhor os brônquios e melhorar da dispneia alérgica de que sofria.
O que a Laura dissera tinha acontecido logo após a independência, quando o enorme edifício era utilizado apenas para nele se darem festas, realizarem conferências e cimeiras. Nele se realizaram também casamentos como em 1971 o da Patucha Jardim, filha do engenheiro Jorge Jardim de má memória como homem e como afilhado de Salazar e outros, - que me lembre dois a que assisti, - de figuras políticas em ascensão meteórica, consideradas importantes para a politização das massas e estabilidade daquela praça recém tomada, avezada a contestações e rebeldias incómodas.
O Grande Hotel conservava então toda a sua magnificência, mas com graves sinais de abandono precoce, que o levariam a uma degradação rápida e total, agravada pelos ventos salitrosos que sopravam do vizinho mar. De todo o conjunto, a piscina foi a que se conservou em actividade por mais dois ou três anos. Pensando em tudo isto com alguma nostalgia, sacudi a melancolia que me tomava como cão que sacode o pelo molhado, e retomei o tema:
-Não estou bem certo Leonel, mas parece-me que o proprietário do Grande Hotel era, segundo constava, a que fora em tempos idos a majestática Companhia de Moçambique, que governou por um período de 50 anos concedidos pelo governo, o então chamado território de Manica e Sofala…
-Não era mas vem dar ao mesmo…- interrompeu o nosso amigo.
-Depois esclarecerás
-Pois então toma nota: o proprietário do Grande Hotel, tanto quanto sei - esclareceu Leonel, - era o Entreposto Comercial de Moçambique, uma associada da Companhia de Moçambique e, quem dava a cara, era um tal Brandão, o principal administrador. – Fez uma pequena pausa e, com um ar concentrado, continuou:
-O
Ficámos alguns momentos em silêncio a meditar no assunto enquanto mastigávamos e bebíamos o que restava da última rodada até que, relembrando o passado, decidi dizer o que lera e ouvira na altura sobre a questão:
-Todo o mistério se resumia no interesse que tinham o proprietário e os eventuais financiadores em abrir ali um casino…
-E porque não? – Interrompeu-me. - Se havia casinos em Lourenço Marques, como o Bellos e o Costa, porque não um na Beira?...
-Pois é, - continuei: - o Grande Hotel foi construído precisamente para esse fim. Com infra-estruturas e serviços de apoio de qualidade: uma piscina olímpica à beira-mar para refrescar as cabeças esquentadas dos perdedores de fortunas; cabeleireira e butique à beira da piscina para distrair as respectivas mulheres; tudo à beira disto e daquilo, do exagero e do ridículo por exemplo, para servir uma pequena elite de bem-aventurados, numa cidade constituída maioritariamente por pobres, os pretos, e por remediados, os brancos…
-Eh
-Para mim mais uma média e não te esqueças, quero-a bem geladinha e que seja Manica; para os meus amigos mais dois whiskys… com gelo e água não é? – Perguntou.
Assentimos, mais para o acompanhar e lhe dar prazer do que por hábito ou necessidade.
Depois de servidos e de molhadas as securas, retomei a fala interrompida:
-Havia
-Não chegaram as cunhas nos ministérios para desencunhar os ovos das apertadas cloacas – ironizou Leonel com o lábio superior branco de espuma.
-Pois não, - continuei: - todas as tentativas para se estabelecer um casino na Beira que rivalizasse com os que havia em Lourenço Marques, falharam. Salazar não gostava de casinos. O próprio bispo da Beira, Dom Sebastião Soares de Resende, tido como progressista, não ajudou. No dia da inauguração benzeu o edifício como lhe competia e ficou por aí…
-Benzeu-o se calhar, - disse o nosso amigo - não com água benta como lhe competia, mas espargindo-o com salpicos de vinagre...
-É
A manhã ia adiantada e um certo cansaço tomava conta de nós, tal como os vapores etílicos, dos nossos ritmos cardíacos e do nosso equilíbrio emocional, causando-nos sonolência O contrário acontecia com Leonel, que se mostrava cada vez mais eufórico e comunicativo. Sabia que as bebidas actuam diferentemente, consoante o metabolismo de quem as bebe. A uns causam-lhes cansaços antecipados e letargia e a outros, insonolência e exaltação desmedida.
Dificilmente,
Tacitamente, resolvemos deixar os copos a meio com as pedras de gelo a dissolverem-se, apesar das frequentes insistências do nosso amigo e, para o distrair e lhe refrear os entusiasmos, decidi ocupá-lo, dando continuidade à conversa:
-Estivemos na Ponta-Gêa e visitámos o local onde moribunda o monstro. Fomos tomados por uma grande tristeza e desilusão; compreensível, porque estivemos presentes aquando da sua construção em 1954 e fizemos parte da euforia generalizada que ele provocou nos anos que se seguiram, que foram de orgulho esplendoroso e de glória. Hoje, a decadência é total; nos três andares enegrecidos pelo tempo de abandono e sujidade, florescem árvores e arbustos por entre as fissuras abertas no betão desarmado, como em campo de cultivo devidamente adubado.
-É uma tristeza não é?!... – disse Leonel, que depois de uma pequena pausa para reflectir, continuou: - moram lá mais de 2.000 pessoas em condições desumanas e degradantes, sem energia e sem água, convivendo com detritos de toda espécie e ratos do tamanho de gatos. Um autêntico chiqueiro!...
-Como um subúrbio, com todas as suas vergonhas e misérias, implantado no coração da cidade… mas nada se tem feito para resolver o problema dessa gente e do próprio edifício? – Perguntei.
-Têm havido algumas tentativas falhadas; mais por parte da sociedade civil do que do governo, que se queixa de não ter dinheiro, mas o que não tem, e isso está patente no abandono a que foram votadas aquelas pessoa e no desinteresse em resolver os seus problemas, é vontade política.
-Nenhuma tem emprego?... – Quis saber. – Como sobrevivem?!...
-De expedientes – respondeu Leonel, - um ou outro tem emprego mas a maioria desenrasca-se como pode…- e depois de uma pequena pausa que aproveitou para beber o resto da cerveja que tinha no copo, continuou: - conheço duas famílias que vivem lá há alguns anos; a do Manhepe que é alfaiate e que com a sua velha “Singer” vai fazendo alguns biscates que vão dando para esquecer as fomes, e a do Simango que, com restos de madeira apanhados onde calha, um cepo a servir de martelo, um formão ferrugento e a sua arte, esculpe curiosas e interessantes peças de artesanato, que os filhos vão depois vender pelas ruas.
-Estamos a falar de um grupo de 2.000 pessoas e das condições miseráveis em que vivem, mas quantos milhões há por este país fora que estão nas mesmas ou em piores condições… estas ainda têm um abrigo sólido enquanto não se decidir o que fazer do Grande Hotel…
-E só saem de lá se forem indemnizados… é o que dizem. Entretanto a vida torna-se-lhes cada vez mais difícil. Até aqui têm feito a comida nos corredores ou nas varandas, utilizando como combustível o parquet que arrancam do chão bem como a madeira dos aros das portas e das janelas, mas até quando?... E sabes que mais?!... Perguntou Leonel que logo respondeu: - alguns deles até são proprietários…
-Proprietários!?... – Estranhámos.
-Sim. – Confirmou Leonel que continuou com um sorriso complacente: - são coisas que só acontecem na nossa terra, onde tudo ou quase tudo é permitido desde que, o que se faça ou deixe de fazer, não belisque minimamente com os interesses dos poderosos.
-Mas conta lá essa de alguns serem proprietários…
-Eu conto em poucas palavras: em 2004 a Associação Muçulmana da Beira ofereceu casas para 30 famílias no bairro da Chota. Mudaram-se para lá mas pouco depois decidiram alugar as casas e voltar a viver no Grande Hotel que por si, constitui já uma comunidade e onde muitos deles estabeleceram raízes profundas, iguais às dos viçosos arbustos nas fissuras dos andares, lembrando matos suspensos para criar ambientes iguais aos do campo, donde todos ou quase todos vieram.
-Lembras-te – perguntei, - quando logo depois da independência, foram constituídos em todos os bairros e unidades de produção os chamados Grupos Dinamizadores?...
-Então
-Houve
-Lembro-me perfeitamente – disse Leonel, - até me ajudaram a resolver alguns milandos…
-Pois é. Mas tudo isto vem a propósito do Grande Hotel, onde o Grupo Dinamizador de que fiz parte se instalou; mais propriamente no lugar onde funcionava o bar, junto à piscina que ainda estava activa, e numa das salas do piso térreo. Nela elaborávamos as notícias locais e nacionais, escritas com canetas de feltro em papel de cenário para o nosso Jornal do Povo, que colocávamos semanalmente numa das paredes do cinema São Jorge, bem à vista de quem passava a pé ou de carro…
-Era o melhor da cidade… recordo-me bem; cuidadosamente elaborado e bastante atractivo; com letras a cores bem desenhadas, e muitas das notícias ilustradas com desenhos a propósito.
Aproveitei os elogios do meu amigo para reflectir e, lembrando-me de um pormenor, continuei:
-Os Grupos Dinamizadores foram de importância vital. Lembro-me de certo dia em que dois cidadãos nos procuraram para nos comunicar que na noite anterior, quando caminhavam pela marginal, tinham notado luzes estranhas vindas do mar e movimentações suspeitas na praia. Comunicámos o facto às entidades encarregadas pela segurança que logo iniciaram as investigações. De facto, haviam rastos visíveis na areia que indicavam ter sido arrastado um pesado volume, desde o rebentar das ondas até à marginal. A 500 metros de distância existia um denso e extenso mangal e foi ai que os peritos intensificaram as suas acções de busca. Descobriram os rastos bem no interior do mangal que os levaram a uma pequena clareira onde a terra tinha sido remexida. Cavaram e trouxeram à superfície um caixote que se assemelhava a um caixão e que logo abriram. Dentro, devidamente oleadas e embrulhadas, encontraram armas de guerra, obuses, minas e munições, em quantidade suficiente para causar perturbação e grandes estragos…
-Esses
Aproximava-se a
-Quando conseguirem despejar o “Grande Hotel” dos seus ocupantes, e isso só acontecerá quando houver dinheiro para as indemnizações, o que farão do edifício?!... Deitá-lo-ão abaixo por implosão?!...
-Quem somos nós para tentar adivinhar o que se passa nas cabeças dos responsáveis pelo imobiliário nacionalizado e que foi tão maltratado ao longo dos anos? … - Perguntei por minha vez acrescentando logo a seguir: - O Grande Hotel devia ser preservado, não só pelo que representa como obra arquitectónica impar no panorama nacional, mas também porque, de certo modo, ele simboliza um pouco o que foi e o que é, a história do nosso país: desde a política de Portugal nas províncias ultramarinas através de um empresariado de limitada e obtusa visão estratégica e da guerra que nos foi imposta depois da independência, até à “história da pobreza e dos mil engenhos da miséria” como escreveu Paola Rolletta na sua crónica, onde acrescentou ainda: “A história de um delírio.”
-Estás a sugerir que se podia fazer daquilo um museu?!... Perguntou Leonel que depois de reflectir um pouco no assunto, acrescentou animado: - a ideia até me parece interessante, mas havia que restaurar o edifício e devolver-lhe na medida do possível a indignidade de um fausto ofensivo e o que dele foi retirado por constituir parte desse delírio. Devolver-lhe a obscena ostentação de riqueza que alardeou, num meio de tanta pobreza, durante a sua tão efémera glória…
-Do
-É o que se diz, - confirmou Leonel.
-Pois é… ou ainda se conserva lá na sua totalidade ou parte dele terá sido distribuído por palacetes privados que entretanto foram surgindo como cogumelos. Os terrenos eram propícios. Enriquecidos pela decomposição do tecido humano da fina-flor da nossa sociedade e de outros animais menores, transformaram-se em húmus de qualidade maior, vivificante e liberal em regime de exclusividade.
-Pois é – comentou Leonel, - a Beira, para além de rejeitada pelo poder central, é ainda espoliada do que lhe pertence por direito e por herança.
-De
-Foi
-Talvez fosse essa a principal razão mas haviam outras. Entretanto, mais tarde, as mesmas celas serviram de passagem para os detidos durante a famigerada “Operação Produção”, antes de serem reencaminhados para os campos de reeducação…
-“
-Era
-Foi uma
-É
-O
-E
-Assim como nós, que apesar das tempestades, teimamos em voejar sobre nuvens brancas de esperança!... – Murmurejou meditativo o nosso amigo!...
-Talvez tenhas
E foi
E talvez fosse…
por José Cardoso