20/11/09

"A virgem da Babilónia" de Adelino Timóteo

Este seu ultimo romance foi lancado hoje na Casa dos Bicos.

Veja tambem

Diário de um sociólogo

12/11/09

Chineses da Beira

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Foi a partir de 1881 – já num contexto de implantação do capitalismo imperial - que a procura de «coolies» chineses se tornou consistente na colónia. A construção das duas principais cidades, Beira e Lourenço Marques, os respectivos portos e caminhos de ferro, as açucareiras do Baixo Zambeze (Sena Sugar States) e do vale do rio Búzi (Companhia do Búzi) e outros empreendimentos coloniais modernos careciam de artesãos mais ou menos hábeis e a baixo preço que a mão-de-obra especializada proveniente da Europa não satisfazia pelo seu elevado custo.

«Coolies» foi a designação usada pelos britânicos durante a segunda metade do século XIX e primeiro decénio do século XX para designar os contratados indianos e chineses nas suas possessões do Oceano Índico e da Ásia do Sudeste.

…………… em 1887, chegaram à região de Lourenço Marques os primeiros operários vindos de Cantão para a construção do Caminho-de-ferro de Lourenço Marques para a África do Sul, empreendimento que se realizou entre 1887 e 1889, e para o território de Manica e Sofala, mais a norte, sob administração da Companhia de Moçambique, também foram contratados «coolies» chineses para a construção do Porto e do Caminho-de-ferro para a Rodésia Beira-Umtali, 1892-1898. Tanto nestas como noutras tarefas “vieram a demonstrar vastos conhecimentos e muita perfeição, o que tornava impossível a concorrência de operários europeus”, lastimava Eduardo Costa. Os que ficaram pela povoação depois das obras nos portos e caminhos-de-ferro deram valiosa contribuição para o crescimento dos dois burgos, ajudando na construção dos edifícios públicos e das casas de particulares.
…………..
Os artesãos mais ou menos especializados da primeira vaga transformavam-se em horticultores na periferia das cidades da Beira e de Lourenço Marques quando não tinham trabalho nas obras ou quando chegaram familiares e não tinham emprego; dedicaram-se alguns à pesca e à colecta de holotúrias no Inhassoro e Mambone, na região centro-sul da colónia, entre o rio Búzi e o rio Save, e no norte, em Mocímboa, Ibo e outras praias do litoral do oceano Índico. Anos volvidos transformaram-se quase todos e suas famílias em «cantineiros» para o comércio com a população negra. Por fim, a partir dos anos 30, surgiram comerciantes na cidade de cimento dos colonos, e mais tarde, nos anos 50 e 60, alguns abriram fabriquetas de confecções e de outras indústrias, e os jovens saídos das escolas portuguesas passaram a trabalhar nas instituições públicas e privadas.
……….
A cidade da Beira nasceu num pântano à beira-mar por imperativos de um porto oceânico, onde desembocariam os caminhos-de-ferro e estradas que serviam o hinterland da Federação das Rodésias e Nyasaland e até do Katanga. A cidade foi também a “capital” dos territórios de uma Companhia Majestática governada por grupos financeiros internacionais. Quer a influência britânica da Federação quer da administração da Companhia e seus funcionários deram um cunho particular às relações sociais no burgo até 1949, ano em que o caminho-de-ferro foi adquirido pelos portugueses. Sem espaço para tratar desta questão neste artigo, direi em síntese que até aos anos 40 a existência da comunidade chinesa da Beira inscreve-se num contexto diaspórico chinês para territórios britânicos no oceano Indico, ao contrário da comunidade laurentina, que vivia numa cidade capital da colónia, mais portuguesa se assim o podemos dizer, embora o seu porto e caminho-de-ferro para o Transvaal também veiculassem, obviamente, enormes influências britânicas e sul-africanas. Na Beira, os sino-asiáticos estiveram até ao fim da IIª Guerra mais relacionados com os ingleses e isto no que respeita a títulos de viagem e passaportes, a documentos de residência e às relações com as terras de origem através de Singapura e de Hong Kong, territórios do Império britânico. E também dos negócios com a Ásia.
Mas para além disto, a formação e desenvolvimento da Beira caracterizou-se nos primeiros decénios pela chegada ao burgo de imigrantes europeus e americanos das mais variegadas proveniências na miragem do eldorado de Manica, e também pela presença de uma multidão de trabalhadores negros de diferentes origens, que viviam em compounds na periferia do núcleo urbano que se ia formando e em bairros de caniço que foram nascendo, como já assinalámos.

Censo de 1897
Portugueses 540, Ingleses 216, Alemães 46, Franceses 43, Gregos 40, Espanhóis 20, Holandeses 11, Italianos 11, Suíços 14, Suecos 11, Americanos 10, Indo-Ingleses 165, Indo-Portugueses 110, Chineses 85, Árabes 5, Africanos 2714
TOTAL 4041

Fonte: Rui Rodrigues, A cidade da Beira – ensaio de geografia urbana.
In: Geographica, revista da Sociedade de Geografia de Lisboa, n.º 14, Ano IV, Abril de 1968, pg. 81



Foi nas rotas dos compounds para o porto e para o caminho-de-ferro e nos bairros indígenas que os sino-asiáticos e os sino-africanos se instalaram para o comércio de comida e de bebida com a população negra. Ao longo da história colonial da cidade, a localização dos compounds foi-se alterando e novos bairros foram nascendo. No primeiro quartel da história da Beira os compounds situavam-se na proximidade do porto e do caminho-de-ferro, e os bairros do Maquinino e do Chaimite eram por excelência os bairros dos asiáticos (chineses, indianos), dos colonos mais pobres e dos mestiços. Depois foram surgindo os bairros da Munhava, Chipangara, Esturro, Matacuane, Manga, Macúti, etc.

Excertos de “Os sino-moçambicanos da Beira. Mestiçagens Várias.”
de Eduardo MEDEIROS

11/11/09

ArtBarCafe Novembro de 2009







Ciclo do Cinema Alemao: nao perca este filme

21/10/09

"Minarete de medos e outros poemas" de Mbate Pedro

Lancamento deste livro de poemas. Mais uma parceria do Centro Cultural Portugues e da Casa do Artista.

"uma bela manha
tentaram silenciar-nos

um livro de poesia
pulou da nossa boca
e
tingiu de palavras
o rosto do outro

amada
tentaram silenciar-nos"

17/09/09

"As Andorinhas" de Paulina Chiziane


Lançamento do livro de contos "As Andorinhas" no Centro Cultural Português promovido pela "Casa do Artista".


"Uma andorinha canta alegre no espaço. De pança também cheia, baila. Liberta os intestinos e a caganita balança na cloaca. Cede à gravidade e cai no olho do imperador."

09/09/09

"Uma Vida Qualquer" de Chakil Abbobakar


Em mais uma iniciativa da "Casa do Artista" em parceria com o "Centro Cultural Português" foi feito o lançamento do livro de contos "Uma Vida Qualquer" de Chakil Aboobakar, membro fundador e vice-presidente da "Casa do Artista".

O prefácio é da autoria de Adelino Timoteo.

27/08/09

Exposicao de Fotografia ACIS


A Associação Comercial e Industrial de Sofala (ACIS) e o Instituto Camões - Pólo na Beira apresentam no Centro Cultural Português uma exposição de fotografia. A inauguração teve lugar hoje dia 27 de Agosto e estará patente ao publico até ao dia 7 de Setembro.

22/08/09

"No colo da Lua" de Sonia Sultuane










Mais um lançamento de um livro no Centro Cultural Português promovido pela "Casa do Artista".

02/07/09

abcARTEBARCAFE - Julho

26/06/09

Igreja da Manga de Garizo do Carmo

[Diário de Moçambique, Beira, 27 de Janeiro de 1955, p. 1 e 5]
Uma nova igreja para a cidade da Beira: arquitectura revolucionária
[...] A Beira como cidade jovem, estando a desenvolver-se de forma notável, não podia ficar alheia ao progresso.
Pela gravura junta, os nossos leitores podem fazer uma ideia do que será a futura igreja do Imaculado Coração de Maria do Alto da Manga, que dentro em breve será uma realidade.
Efectivamente, aquele populoso subúrbio, excepcionalmente extenso, não podia apenas contar com a capela provisória, airosa, mas pobrissima, e a capela do Instituto da Manga Loforte.
O novo templo vai erguer-se num local à esquerda da estrada do Savane mas quase em frente à bifurcação que esta estrada faz com aquela outra que segue para o aeroporto.
O projecto desta obra é da autoria do arquitecto Garizo do Carmo, cujas qualidades e saber estão bem patentes nas importantes construções por ele projectadas, como sejam, por exemplo, o cinema S. Jorge e algumas residências que enfeitam já a cidade.
[...] E sobre a Igreja do Alto da Manga, fomos informados de que este templo estava concebido para comportar 600 pessoas sentadas, tendo uma nave de 40 metros de comprido, totalizando a construção 54 metros, com 17m de abóbada.
A estrutura da nave é em arcos parabólicos. Na fachada principal a porta está puxada à direita e dividida em dois sectores. No da direita, sobre a entrada, vê-se um púlpito exterior, que remata com uma estátua de Nossa Senhora e tem um painel de fundo em cerâmica policromada, cuja efeito deve ser surpreendente. O sector esquerdo da fachada é formado por frestas com vitrais.
À esquerda da fachada, ficará, apenso, o baptistério, cuja cobertura é encimada pela Cruz que não existe sobre a torre, onde serão instalados os sinos, que serão movimentados electricamente. [...]

[Diário de Moçambique, Beira, 19 de Junho de 1956, p. 3]
Igreja do Alto da Manga: entrevista com o arquitecto Garizo do Carmo – autor do projecto
Iniciámos, no primeiro número deste suplemento, um inquérito junto dos arquitectos da Beira acerca das obras de culto em que estejam envolvidos.
Abordamos, portanto, desta vez, o conhecido arquitecto – beirense por nascimento e devoção – João Afonso Garizo do Carmo.
Já, em tempos, há mais de um ano, o «Diário de Moçambique» teve ocasião de fazer uma referência desenvolvida à Igreja do Imaculado Coração de Maria a erigir no Alto da Manga. Essa notícia despertou enorme expectativa em volta do projecto levando-o à discussão pública e à consideração dos competentes, alguns dos quais receberam, com entusiasmo, o anúncio da primeira igreja moderna a edificar em toda a província. Vários contratempos, porém, têm demorado a execução do edifício, e, durante todo este período, temos contactado com as opiniões mais diversas acerca do mesmo. Por tudo isso pareceu-nos vir a tempo o depoimento do autor do projecto. Havia mesmo um ponto grave a esclarecer pois que, correu, à boca pequena, junto da crítica de café, que o projecto era, nem mais nem menos que um plágio «duma igreja brasileira».
Não poderíamos dizer, de encontro, por exemplo, que os três mais belos exemplares do barroco no Porto, todos são réplicas sem que até hoje alguém se lembrasse de plágio... Podíamos dizer isto e muito mais. Mas não dizemos porque o arquitecto vai falar.
- Sabe que o seu projecto, em vias de concretização, tem sofrido críticas? Que falam até de uma certa aproximação com a Igreja da Pampulha de Óscar Niemeyer... Que nos diz a este respeito?
- Só lamentava que o meu projecto tivesse passado despercebido a ponto de não merecer críticas de ninguém. Julgo ser um sintoma de que passou além da mediocridade.
Pontos de semelhança com a Igreja da Pampulha de Óscar Niemeyer?...
Se me propusesse (o que seria inconcebível) projectar uma igreja nos moldes clássicos, ninguém veria pontos de contacto perjurativos com as obras dos grandes mestres do classicismo.
Assim como as ordens clássicas ou a ogiva gótica são padrões de uma arquitectura elevada, mas já obsoleta, hoje em dia, vão existindo, também, formas que são verdadeiros padrões. A forma parabólica encontra-se nessa posição...
O ponto de partida que adoptei como tema principal da composição da Igreja do Imaculado Coração de Maria, na Manga, e que arquitectonicamente melhor traduzia a pureza da devoção deste templo, foi a parábola, que, em matemática, é uma linha puríssima.
Já muito antes de Óscar Niemeyer a forma parabólica foi imensamente empregada, tanto em obras de arquitectura religiosa como em de arquitectura civil, tais como grandes silos, coberturas de piscinas, pontes, gares, etc... enfim, em todos os casos em que se pretendia vencer grandes vãos em betão armado, com a maior economia e elegância.
- Teve algum ponto de vista estético, determinado, a atingir, ou procurou, pura e simplesmente, integrar-se no movimento arquitectónico contemporâneo?
- Na minha vida de arquitecto bastos e complexos problemas passaram por mim e confesso que, o que mais me torturou foi o da concepção de uma igreja. Porquê?...
Pela pureza e simplicidade do tema que, há perto de 2000 anos, tem sido tratado por tantos mestres da arquitectura. Nada mais difícil na arquitectura que ser-se simples.
Em primeiro lugar, o projecto de uma igreja, quanto ao ponto de vista funcional, é bastante reduzido, pois o fim em vista é bem singelo:
Um recinto em que os fiéis possam assistir ao culto que se celebra no altar, ficando este em evidência.
Resta-nos a segunda parte a atingir numa obra de arquitectura: a parte estética e espiritual; e estas, neste caso, são o grande problema, senão mesmo o problema total!
Com os elementos abstractos de que dispõe a arquitectura (linhas, planos, volumes e cores), fazer Arte tão pura e tão simples como a pureza do cristianismo, foi a meta que pretendi atingir.
- Tem já delineada a parte decorativa da obra? Com que colaboradores conta?
- Não poderia deixar de ter!
Ao conceber esta igreja, pretendi que ela fosse a síntese das três artes maiores: arquitectura, pintura e escultura.
Como síntese, está a parte decorativa intimamente ligada com o todo. Aliás, a decoração, não deve ser mais que a consequência lógica da concepção arquitectónica da obra.
A decoração não deve ser postiça, nem com ela fazer-se obra de «camuflagem», nem, muito menos, ser um recurso para valorizar a Arquitectura.
Deve apenas, ser parte integrante do conjunto, com princípio e fim!
Na estatuária espero que seja Arlindo Rocha; na pintura (cerâmica policromada) e vitrais, Jorge Garizo do Carmo. Espero também aplicar frescos na Capela Mor, mas o problema económico é possível que condicione a realização total desta minha pretensão. Se assim for, espero, no entanto, que, com o tempo, se consiga ir concluindo o enriquecimento do património artístico previsto para a sua total harmonia e equilíbrio decorativo.
- Acredita que se possa estruturar, na Província, uma arquitectura especialmente religiosa, honesta e verdadeira»?
- É com o maior prazer profissional que verifico existir, por parte das entidades responsáveis pela orientação artística das edificações religiosas, verdadeira compreensão do grande movimento arquitectónico contemporâneo.
Com mentores desta craveira e com a nossa boa vontade em acertar, estou certo que algo de proveitoso se há-de conseguir.
O que se passa para o Norte e para o Sul da província não sei, mas cá por Manica e Sofala e pela Zambézia, não tenho dúvidas pois o equilíbrio com que estes problemas estão a ser vistos, posso afirmá-lo, são garantia de uma arquitectura «honesta e verdadeira».

(textos do DM recolhidos pelo Dr Antonio Sopa)