01/02/10

Roteiro sentimental


O interesse pela baía do Pungoé - designada então por baía de Massansane ou baía do Mesquita - vem desde 1882 quando o explorador Joaquim Carlos Paiva de Andrada chamou a atenção da Sociedade de Geografia de Lisboa para a ocupação da vasta zona compreendida entre Sofala, Manica e Sena, sendo esta a porta natural para a reocupação de todo aquele território.
As origens e o desenvolvimento da cidade da Beira, cujo nome é uma homenagem ao príncipe herdeiro português D. Luís Filipe, tiveram a ver com a sua posição privilegiada numa futura rede de comunicações com o interior, que se viria a construir de acordo com as obrigações internacionalmente impostas a Portugal. A sua localização definitiva, na margem esquerda do rio Pungoé, à revelia das determinações oficiais de 1884, reflecte já a necessidade de encontrar melhor ancoradouro após o reconhecimento hidrográfico daquele rio.
A primeira ponte de desembarque viria a ser construída na margem direita do Chiveve, em 1895, estando na origem do actual complexo portuário que data de 1929. Uma linha ferroviária liga a cidade com o Zimbabwe (então Rodésia do Sul) desde 1896, sendo posteriormente aberto à exploração o transzambeziano, que tinha como ponto de partida o Dondo, a 27 quilómetros da Beira.
A fixação definitiva de portugueses na região, no interior duma pobre paliçada de paus e matope erigida nas terras desabitadas do Bangoé, só viria a dar-se em Agosto de 1887 após demoradas e difíceis negociações com Ngungunhane, senhor da região, a partir das invasões “nguni”(1835-1836).
Toda a região de Manica e Sofala viria a ser palco de graves conflitos internacionais nos quatro anos imediatos a essa instalação dos portugueses. Em 1891 chegou a estar iminente a sua ocupação pelas forças policiais da British South Africa Company.
A fixação e o desenvolvimento de tão vastos territórios viria a ser entregue a uma sociedade comercial (a primeira Companhia de Moçambique), como era comum na época. Instalada na Beira, procurou estabelecer a sua presença efectiva em Manica.
Só após o regresso da tranquilidade aos territórios e a constituição da segunda Companhia de Moçambique, em 1892 (com poderes majestáticos!), se iniciaram os grandes trabalhos que vieram a transformar a Beira.
A povoação nasceu verdadeiramente com os primeiros armazéns construídos pela primitiva Companhia de Moçambique, em 1888. Quatro anos depois, quando se fundou a segunda Companhia, as construções já se espalhavam, em desalinho, sobre uma estreita língua de areia, entre o Chiveve e o rio Pungué: as casas da Companhia ocupavam a margem direita, o acampamento da expedição militar e a aringa do comando militar do Aruângua, já em ruínas, a margem esquerda.

Por iniciativa do engenheiro Joaquim José Machado, na tentativa de obviar aos inconvenientes existentes, tal como se verificava com as primitivas barracas do Bairro da Alfândega (hoje completamente desaparecido), viria a ser delineada a primeira planta da povoação, onde se indicavam as principais ruas e bairros, numa estrutura regular e geométrica.
Evitou-se assim o crescimento desordenado e definiu-se um esquema de arruamentos ajustado à configuração do espaço. Espaço esse, que se foi ampliando conforme as necessidades da sua expansão, dividindo-se o terreno edificável em talhões com uma orientação definida.
Os planos de urbanização posteriores respeitaram o traçado primitivo, ajustando-o apenas às novas concepções urbanísticas. Na margem esquerda do Chiveve, onde se encontravam o farol, a alfândega, o hospital e o mercado, o traçado inflectiu sucessivamente para leste, facto ainda hoje facilmente verificável pelo percurso da Rua António Enes, acompanhando a estreita língua de areia, estendendo-se o extenso alinhamento até junto do mar, na actual Praça da Independência (conhecida, no período colonial, por Praça da Índia). No seu extremo, encontrava-se o Bairro da Ponta Gêa, onde desde cedo a Companhia construiu algumas infra-estruturas, como um posto semafórico/farol (1892-1893), estando este edificado numa península de areia.
Na margem direita do Chiveve, conhecido por Maquinino, erguiam-se também alguns dos principais edifícios da povoação, como o quartel, a cadeia, a igreja, o cemitério e um campo desportivo de cricket!
A ligação entre as duas margens era fundamental, tendo-se inicialmente construído uma ponte de madeira, que em 1910 foi substituída por uma ponte metálica.
A ligação com o interior viria a fazer se com uma estrada na direcção do norte, visando evitar o pântano, no sentido do Esturro, de onde inflectia para Matacuane. Deste local o traçado dirigia-se para a elevação arenosa da Chota, desviando-se depois no sentido da Manga Loforte. Mais tarde, foi aberta a estrada da Munhava e, a partir desta, no lugar do Esturro, uma outra directamente para a Manga.
A estrada de acesso ao Macúti, onde já existia um farol (1904), e à missão católica de Marora, não foi traçada ao longo da linha da praia por se recear a sua conservação, visto o vento a cobrir frequentemente de areia. Foi após a conclusão daquele arruamento, em Novembro de 1930, que se pensou em estudar para esse local a criação de uma “povoação de europeus”. O seu desenvolvimento viria a ocorrer vinte anos mais tarde, quando se construíram as 100 vivendas que constituíam o Bairro da Sofil (1953), se instalou algum comércio (o “Leão de Ouro” e o “Emporium”) e um clube náutico (1953).
Também se estabeleceu uma zona turística ao norte do farol, compreendendo, entre outros, um acampamento turístico e um hotel a partir de Abril de 1957.

O ante-projecto de urbanização da cidade, de autoria do engenheiro Joaquim de Oliveira Ribeiro Alegre e do arquitecto José Luís Porto, aprovado em 1947, marcaria o futuro da cidade até hoje.
A Beira dividia-se em bairros, tanto do ponto de vista étnico - europeu (estendia do sul do Chiveve até ao Macúti), asiático (Maquinino, Esturro e Matacuane) e africano (Manga) - como pela funcionalidade - comercial (na parte ocidental), industrial (a poente da estrada da Manga), ferroviário (onde actualmente ainda se encontra localizado) e campo de aviação (Manga). O Chiveve seria transformado num lago que, com o campo de golfe, daria lugar a um grande espaço livre, necessáriopara arejamento e desafogo da cidade, muito embora, posteriormente, para esse local tivesse sido preconizado um Centro Cívico e Comercial.
Só a partir da segunda metade dos anos 50 do século passado e da década seguinte se deu uma evolução na mancha urbana, de certo modo rápida, nas zonas do Macúti, Matacuane e Munhava-Nova, acompanhada com a construção de edifícios de grande porte, como o Grande Hotel da Beira, o Banco Nacional Ultramarino, os cinemas São Jorge e Nacional, e os prédios Bulha, Entreposto, A Teixeira, Souglides, F. L. Simões, Cocorozis, Nauticus, Nunes e Barreto.
Simbolicamente, a expressão mais visível das transformações urbanas ocorridas nesse novo período é a Praça do Município, surgida após a demolição das velhas casas de madeira e zinco ali existentes, tendo as obras da mesma ficado concluídas em Dezembro de 1954.

Não existe até hoje um inventário pormenorizado dos edifícios com interesse histórico ou arquitectónico da cidade da Beira. Das velhas edificações de madeira e zinco, muitas das quais resistiam ainda após a independência, praticamente já nada existe. O uso generalizado destes materiais nos princípios do século XX faria com que a Beira fosse conhecida internacionalmente como a “Cidade do zinco”. Quando a povoação se começou a expandir, a partir de 1891, dando origem à actual rua António Enes ligando o Comando Militar à zona da alfândega, encheu-se de casas deste tipo, de um e outro lado da rua - eram as chamadas “Casas do Governo”.
Com a passagem dos territórios para a Companhia de Moçambique, estas viriam a ser ocupadas pelos diversos serviços: Intendência, Tribunal, Conservatória e as residências dos respectivos funcionários.
O edifício da Intendência, que seria também a residência e sede do Governo do Distrito de Sofala, era na altura a melhor casa da Beira. Distinguia-se pelo enorme mastro, à entrada, ali colocado pela tripulação do navio de guerra “Mandovi”. Foi um dos últimos a desaparecer do chamado Bairro do Governo, demolido em Setembro de 1958. Hoje é o parque de estacionamento ao lado do cinema Nacional.
Ainda que o uso do zinco se mantivesse até à década de 1920, já no final do século XIX começaram-se a construir alguns edifícios de alvenaria.
Mas das “construções de ferro” restam ainda belos exemplares, sendo a Casa Portugal o mais conhecido.



Texto do Dr. António Sopa

12/11/09

Chineses da Beira

………..
Foi a partir de 1881 – já num contexto de implantação do capitalismo imperial - que a procura de «coolies» chineses se tornou consistente na colónia. A construção das duas principais cidades, Beira e Lourenço Marques, os respectivos portos e caminhos de ferro, as açucareiras do Baixo Zambeze (Sena Sugar States) e do vale do rio Búzi (Companhia do Búzi) e outros empreendimentos coloniais modernos careciam de artesãos mais ou menos hábeis e a baixo preço que a mão-de-obra especializada proveniente da Europa não satisfazia pelo seu elevado custo.

«Coolies» foi a designação usada pelos britânicos durante a segunda metade do século XIX e primeiro decénio do século XX para designar os contratados indianos e chineses nas suas possessões do Oceano Índico e da Ásia do Sudeste.

…………… em 1887, chegaram à região de Lourenço Marques os primeiros operários vindos de Cantão para a construção do Caminho-de-ferro de Lourenço Marques para a África do Sul, empreendimento que se realizou entre 1887 e 1889, e para o território de Manica e Sofala, mais a norte, sob administração da Companhia de Moçambique, também foram contratados «coolies» chineses para a construção do Porto e do Caminho-de-ferro para a Rodésia Beira-Umtali, 1892-1898. Tanto nestas como noutras tarefas “vieram a demonstrar vastos conhecimentos e muita perfeição, o que tornava impossível a concorrência de operários europeus”, lastimava Eduardo Costa. Os que ficaram pela povoação depois das obras nos portos e caminhos-de-ferro deram valiosa contribuição para o crescimento dos dois burgos, ajudando na construção dos edifícios públicos e das casas de particulares.
…………..
Os artesãos mais ou menos especializados da primeira vaga transformavam-se em horticultores na periferia das cidades da Beira e de Lourenço Marques quando não tinham trabalho nas obras ou quando chegaram familiares e não tinham emprego; dedicaram-se alguns à pesca e à colecta de holotúrias no Inhassoro e Mambone, na região centro-sul da colónia, entre o rio Búzi e o rio Save, e no norte, em Mocímboa, Ibo e outras praias do litoral do oceano Índico. Anos volvidos transformaram-se quase todos e suas famílias em «cantineiros» para o comércio com a população negra. Por fim, a partir dos anos 30, surgiram comerciantes na cidade de cimento dos colonos, e mais tarde, nos anos 50 e 60, alguns abriram fabriquetas de confecções e de outras indústrias, e os jovens saídos das escolas portuguesas passaram a trabalhar nas instituições públicas e privadas.
……….
A cidade da Beira nasceu num pântano à beira-mar por imperativos de um porto oceânico, onde desembocariam os caminhos-de-ferro e estradas que serviam o hinterland da Federação das Rodésias e Nyasaland e até do Katanga. A cidade foi também a “capital” dos territórios de uma Companhia Majestática governada por grupos financeiros internacionais. Quer a influência britânica da Federação quer da administração da Companhia e seus funcionários deram um cunho particular às relações sociais no burgo até 1949, ano em que o caminho-de-ferro foi adquirido pelos portugueses. Sem espaço para tratar desta questão neste artigo, direi em síntese que até aos anos 40 a existência da comunidade chinesa da Beira inscreve-se num contexto diaspórico chinês para territórios britânicos no oceano Indico, ao contrário da comunidade laurentina, que vivia numa cidade capital da colónia, mais portuguesa se assim o podemos dizer, embora o seu porto e caminho-de-ferro para o Transvaal também veiculassem, obviamente, enormes influências britânicas e sul-africanas. Na Beira, os sino-asiáticos estiveram até ao fim da IIª Guerra mais relacionados com os ingleses e isto no que respeita a títulos de viagem e passaportes, a documentos de residência e às relações com as terras de origem através de Singapura e de Hong Kong, territórios do Império britânico. E também dos negócios com a Ásia.
Mas para além disto, a formação e desenvolvimento da Beira caracterizou-se nos primeiros decénios pela chegada ao burgo de imigrantes europeus e americanos das mais variegadas proveniências na miragem do eldorado de Manica, e também pela presença de uma multidão de trabalhadores negros de diferentes origens, que viviam em compounds na periferia do núcleo urbano que se ia formando e em bairros de caniço que foram nascendo, como já assinalámos.

Censo de 1897
Portugueses 540, Ingleses 216, Alemães 46, Franceses 43, Gregos 40, Espanhóis 20, Holandeses 11, Italianos 11, Suíços 14, Suecos 11, Americanos 10, Indo-Ingleses 165, Indo-Portugueses 110, Chineses 85, Árabes 5, Africanos 2714
TOTAL 4041

Fonte: Rui Rodrigues, A cidade da Beira – ensaio de geografia urbana.
In: Geographica, revista da Sociedade de Geografia de Lisboa, n.º 14, Ano IV, Abril de 1968, pg. 81



Foi nas rotas dos compounds para o porto e para o caminho-de-ferro e nos bairros indígenas que os sino-asiáticos e os sino-africanos se instalaram para o comércio de comida e de bebida com a população negra. Ao longo da história colonial da cidade, a localização dos compounds foi-se alterando e novos bairros foram nascendo. No primeiro quartel da história da Beira os compounds situavam-se na proximidade do porto e do caminho-de-ferro, e os bairros do Maquinino e do Chaimite eram por excelência os bairros dos asiáticos (chineses, indianos), dos colonos mais pobres e dos mestiços. Depois foram surgindo os bairros da Munhava, Chipangara, Esturro, Matacuane, Manga, Macúti, etc.

Excertos de “Os sino-moçambicanos da Beira. Mestiçagens Várias.”
de Eduardo MEDEIROS

26/06/09

Cinema S. Jorge de Garizo do Carmo


[Diário de Moçambique, Beira, 17 de Junho de 1953, p. 5]
Os irmãos Paraskevas, devidamente autorizados a construírem nos talhões 151, 151A e 151B, na Praça Almirante Reis desta cidade, um edifício para instalação e funcionamento nele dum Cine-Teatro, salão de chá, cervejaria e boite, têm o prazer de comunicar que adjudicaram a construção do majestoso prédio à «Companhia de Construções de Moçambique Ldª», não se tendo pronunciado, por não ser ainda a altura, sobre as propostas recebidas, para instalações de carácter especial e técnico, das seguintes firmas:
Wright & Compª Ldª de Lisboa, representada por J. Bustorff Silva; General Motors de Port Elisabeth, respresentada por Pendray & Sousa Ldª da Beira e Carriers Limitada de Johannesburg, representada por Johnson & Fletcher da Beira.
Beira, 15 de Junho de 1953.
P.P. Irmãos Paraskevas, Nicolau Paraskeva.

[Diário de Moçambique, Beira, 5 de Dezembro de 1953, p. 1 e 6]
«Estou com muito satisfeito com o ritmo de construção do novo cine-teatro S. Jorge tanto mais que se trata dum trabalho delicado, difícil e fora do vulgar: A manter-se este ritmo e se qualquer imprevisto não surgir, o S. Jorge estará pronto para Julho do próximo ano» - declarou ao «Diário de Moçambique» o arquitecto Garizo do Carmo.
[...] momentos depois estávamos em frente do arquitecto Garizo do Carmo, autor do projecto deste novo edifício ao qual ficará ligado também o nome do engº Alfredo Lorena Birne, autor dos cálculos e que nesta construção, segundo nos informou o sr. arquitecto Garizo do Carmo, tem excelentes obras de engenharia.
[...]
- Que pensa sobre o local em que fica situado o S. Jorge?
- Penso que é esplêndido e não tive qualquer dificuldade em aprovar a indicação da Câmara Municipal. Mesmo sob o ponto de vista urbanístico, está muito bem escolhido. Lembre-se que o S. Jorge ficará a servir uma zona residencial importante. E não esqueça que dará origem a um descongestionamento.
- Desejávamos saber alguma coisa sobre a sala de espectáculos...
- A sala de espectáculos é, como sabe, mista de teatro e cinema. O nosso objectivo quanto ao teatro está no facto de não haver na Beira um palco onde se trabalhe em condições. É claro que a questão comercial, para este caso, pouco ou nada interessou, uma vez que o teatro, vindo da Metrópole, aqui nos chega decadente. Mas, pelo menos, este palco trará à cidade da Beira um melhoramento apreciável e que é este de qualquer Companhia ali poder dar as suas representações, trabalhando à vontade em local apropriado que satisfaça plenamente todas as exigências da peça.
- Quantos lugares há?
- A pequena superfície do terreno obrigou a dificuldades quanto ao tamanho da sala de espectáculos. No entanto, ela comporta 1140 lugares e ainda com possibilidades de se alcançarem 1200. É claro que poderíamos chegar a esta cifra, mas, compreende, com sacrifício do público que assim deixaria de estar à vontade.
- Mais alguma coisa importante? Por exemplo, sobre o ecran, ar condicionado...
- Pode escrever que a sala ficará, possivelmente, equipada com um ecran de 38 pés e será a primeira, pelo menos na África Oriental pois eu não sei o que se passa em Angola, a apresentar o cinemascópio. E pode acrescentar que haverá nela ar condicionado e do mais perfeito fabricante, que é a fábrica «Carrier».
- Quantos lugares tem o balcão?
- Perto de 500. E há aqui um facto muito importante: o balcão avança dez metros sobre a plateia, sem uma única coluna. Isto, sob o ponto de vista da engenharia, é um trabalho de valor.
- A iluminação da sala apresenta algum aspecto interessante?
- Sim. E não só a da sala, mas também a dos «foyers». A iluminação é feita por meio de luz indirecta. E da aplicação desta luz, nasce um dos principais partidos decorativos.
- Mais alguns pormenores sobre o interior do edifício...
- Aqui tem uma coisa importante: tanto a plateia como o balcão, têm os seus «foyers» privativos. Poderá calcular, pelo que eu lhe disse sobre a superfície do terreno, que houve um pouco de sacrifício em dar um «foyer» a cada lado. No entanto conseguiu-se e eles lá estão para comodidade do público.
- Ouvimos dizer que o S. Jorge terá um salão de chá...
- Sim, um salão de chá com cozinha e copa e uma pastelaria privativa com forno eléctrico. Este salão de chá tem comunicação interna com a sala de espectáculos e dentro dele haverá um bar. E já agora, escreva que a «boite» ficará equipada com ar condicionado – 5 unidades da «Carrier».
- Passemos agora, sr. arquitecto, para o exterior do edifício...
- Posso começar por lhe dizer que houve a preocupação de valorizar artisticamente o edifício, coisa que não se costuma fazer por estas terras. Portanto ele terá, na fachada, três painéis em cerâmica policromada. Estes painéis são de autoria de Jorge Garizo do Carmo, meu irmão, um rapaz de 24 anos que esteve em Paris a cursar arquitectura e que derivou para a pintura. Conhece hoje, profundamente, a técnica da cerâmica, tendo frequentado a fábrica de cerâmica de Sèvres.
- O que representam os painéis?
- O do lado esquerdo, a figura de S. Jorge que dá o nome ao cine-teatro. O painel que envolve a entrada principal, representa o som e a luz – a síntese do cinema. Finalmente, o do lado direito apresenta-nos a música, a dança e o teatro- Todas estas figuras simbólicas são muito curiosas pela sua cor e movimento e embelezam grandemente a fachada do edifício. Posso também dizer-lhes que todos os quebra-luzes desta fachada serão em alumínio anodizado, uma coisa muito bonita e que dura eternamente...
- [...] o sr. arquitecto está satisfeito com o ritmo da construção?
- Estou muito satisfeito, tanto mais que se trata dum trabalho delicado, difícil e fora do vulgar. A manter-se este ritmo e se qualquer imprevisto não surgir, o S. Jorge estará pronto para Julho do próximo ano. [...]


[Diário de Moçambique, Beira, 12 de Novembro de 1954, p. 5]
O S. Jorge inaugura-se no dia 17 do corrente com a presença do governador Ferreira Martins
A nossa cidade vai assistir no próximo dia 17 a um acontecimento que muito a vai beneficiar no campo de diversões. Na tarde desse dia, às 15,30 hotas, o sr. Governador de Manica e Sofala, Ferreira Martins, inaugurará oficialmente o novo cinema S. Jorge, estando presentes entidades oficiais e individualidades de maior destaque do nosso meio.
Será exibido um filme de curta metragem, para que os assistentes possam apreciar o funcionamento da aparelhagem moderna de que dispõe o novo cinema, incontestavelmente um dos melhores de toda a província.
À noite, com início às 21 horas, realizar-se-á a primeira sessão, que será de gala, com trajes de «soirée». Pela ela passará o excelente filme da «Metro Goldwyn Mayer» em deslumbrante colorido, e em que Ester Williams e Van Johnson têm um desempenho admirável, coadjuvados pelo talento de Tony Martini.
Com a inauguração do Cinema S. Jorge, a Beira fica dotada de mais uma excelente casa de espectáculos, de linhas elegantes e com todos os confortos modernos, o que muito concorre para a valorizar.

[Diário de Moçambique, Beira, 18 de Novembro de 1954, p. 1]
Nascidos na Beira, os irmãos Paraskeva – Sócrates, Cleo, João, Nicolau, Alexandre e Manelau – têm sabido seguir o exemplo e as tradições, que lhes deixou seu pai, que na Beira trabalhou e aqui veio a morrer. Possuidores hoje de bens avultados, abalançaram-se à construção do cinema S. Jorge, resolvendo empregar, na terra que os viu nascer e onde têm ganho o seu dinheiro, algo que valoriza a capital de Manica e Sofala.
Não foram poucas as dificuldades a vencer para conseguirem chegar à inauguração, que ontem se efectuou e quase coincidiu com a notícia recebida telegraficamente nesta cidade e que lhes deu a saber que o Conselho Ultramarino negara, por unanimidade, provimento ao recurso interposto pela Empresa de Edificações da Beira Limitada, respeitante a um despacho de Sua Exª o Governador Geral que autorizava a construção do cine-teatro S. Jorge.

O edifício do novo cinema
A sala de espectáculos é ampla e bela, embora o balcão suspenso pareça reduzir-lhe algo das dimensões que possui, mas dando-.lhe, por outro lado, características desusadas. Comporta a nova sala de espectáculos 1200 espectadores.
O palco possui 6 camarins, podendo ser aumentado o seu número. Uma caixa de palco com 10 metros acima do proscénio recolherá, em caso de espectáculos teatrais, a estrutura do «écran».
Possui o novo cine-teatro ampla cabine de projecção, uma cabine de som, uma cabine para bombeiros, cabine de filmes e enroladeira e cabine para baterias-acumuladores.

Decoração interior e exterior desta moderna casa de espectáculos
O escultor Arlindo Rocha concebeu e realizou «Alegoria às Descobertas», «As Comadres» e «Romance de Pierrot e Columbina», que embelezam o proscénio, o balcão e a plateia.
Os painéis são da concepção e execução artística do ceramista e decorador Jorge Garizo do Carmo.
Ambos estes artistas, alunos da Escola de Belas Artes do Porto, onde Arlindo Rocha completou o seu curso de escultor, cada um a seu modo e no seu campo, deram beleza e graças às paredes e interiores da melhor casa de espectáculos que a Beira possui agora.
O painel de São Jorge é mais acessível ao comum dos observadores, e a coloração dos seus motivos principais está feita de tal maneira que as figuras principais têm movimento e vida.
É provável que não falte quem estranhe e não compreenda a linguagem dos demais painéis, todos alusivos às artes mais usadas numa casa de espectáculos, ou seja à música, a dança, o teatro ou o cinema. Todavia, o arrojo da arquitectura nova estava, em certo modo, a pedir algo de novo, mais moderno e abstracto, nas decorações.

Arquitecto: João Afonso Garizo do Carmo
A concepção arquitectónica do Cine-teatro S. Jorge pertence ao arquitecto sr. João Afonso Garizo do Carmo.
Natural da Beira, pode orgulhar-se de ter contribuído para uma obra que embeleza a terra que lhe foi berço.
Diplomado pela Escola Superior de Belas Artes com a classificação de 17 valores, o arquitecto João Afonso Garizo do Carmo deixou o seu valor e competência provados em trabalhos de decoração de várias casas comerciais de Lisboa, tais como a «Casa Galeão», da rua Augusta, «Centena e Neves», da rua da Prata, etc.
A Câmara Municipal de Lisboa entregou-lhe o projecto e direcção de execução dum bloco de 108 prédios para o bairro de Alvalade, plano de urbanização da Baixa e o projecto de arranjo da Praça da Figueira, de colaboração com o arquitecto Faria da Costa.
Deixou ainda vincada a sua passagem pela cidade do Porto, onde, de colaboração com o arquitecto Viana de Lima, planeou e dirigiu o arranjo e remodelação do «Hotel Império».
Arquitecto dos tempos novos, o cine-teatro S. Jorge é obra do seu espírito moço e do seu saber e experiência.

Engenheiro Alfredo Lorena Birne [ver também Diário de Moçambique, 24 de Julho de 1955, p. 1 e 10]
Com o arquitecto Garizo do Carmo, como engenheiro do cine-teatro S. Jorge, trabalhou incansavelmente o sr. engº Lorena Birne.
Formado pelo Instituto Superior Técnico, em 1936, o engº Lorena Birne, após a sua formatura, ingressou no quadro dos engenheiros das Obras Públicas, mediante concurso, tendo nos Serviços de Hidráulica Marítima e Fluvial projectado, calculado e dirigido trabalhos em betão armado, designadamente, as ponte-cais de Alcoutim e Vila Nova de Milfontes.
Veio para a província de Moçambique em 1945, em comissão de serviço, como funcionário os caminhos de ferro, encontrando-se actualmente, a trabalhar como particular.
Na nova casa de espectáculos, o pórtico do palco e o balcão balanceando 12 metros sobre a plateia mereceram especiais cuidados ao distinto engenheiro, que hoje pode olhar para esta obra, que se construiu também com o seu auxílio, com certo orgulho e legítima satisfação.

Electrificação do cinema
O projecto de electrificação do cine-teatro S. Jorge é da autoria do sr. engº Eugénio Rodrigues Sopa, chefe dos Serviços Municipalizados de Electricidade da Câmara Municipal da Beira.
O sr. Engº Rodrigues Sopa, que outrora exerceu com brilho as lides jornalísticas, é outro profissional competente que saiu duma das escolas do Porto, a Faculdade de Engenharia. [...]

A Companhia de Construções de Moçambique e o engenheiro Joaquim Vaz
O sr. engº Joaquim Vaz entra no número daqueles que tomaram parte relevante na construção do cine-teatro S. Jorge, porque é hoje quem dirige tecnicamente a Companhia de Construções de Moçambique, empresa construtora da nova, aparatosa e rica casa de espectáculos.
O engº Joaquim Vaz é natural do Porto, onde se formou em engenharia civil no ano de 1939.
Primeiramente funcionário das Obras Públicas, estabeleceu-se por sua conta no Porto, em 1942, tendo realizado importantes obras de empreitada, especialmente no ramo de canalizações a abastecimento de águas, a que se dedicou. Por ele foram realizadas as instalações desta especialidade dos modernos edifícios do Porto do Palácio Atlântico, Mercado do Bom Sucesso, Hotel da Praça D. João I, grande parte dos recentes prédios da parte nova da Rua Sá da Bandeira e parte alta da Avenida dos Aliados, o Seminário de Santa Joana em Aveiro, etc.
Veio para a Beira em 1952 por lhe ter sido adjudicada a empreitada das canalizações e instalações sanitárias do Grande Hotel da Beira. Aqui realizou também a empreitada dos ramais de ligação da água da Companhia às casas da cidade.
Em Agosto do ano passado foi convidado a dirigir a Companhia de Construções de Moçambique, onde actualmente emprega toda a sua actividade. [...]

[Diário de Moçambique, Beira, 22 de Janeiro de 1955, p. 5]
Inauguração do ar condicionado no cine-teatro S. Jorge
O cinema «S. Jorge» vai inaugurar amanhã, domingo, nas suas salas, ar condicionado.
Desta forma, os espectadores vão usufruir, além das excepcionais condições que a casa oferece e que todos conhecem, mais uma, a de um ambiente fresco que é, sem dúvida da maior importância.
Com a inauguração deste melhoramento, far-se-á a estreia do discutido filme italiano «Três histórias proibidas».

[Diário de Moçambique, Beira, 27 de Fevereiro de 1955, p. 9]
Sessão privada para a imprensa no Cinema S. Jorge
Realizou-se ontem, com início pelas 15 horas, no cinema S. Jorge, uma sessão privada de «cinemascope» para a imprensa e rádio desta cidade [...]
A magnífica aparelhagem com que foi dotada esta sala de espectáculos e as cuidadas condições acústicas que a caracterizam, permitiram que a projecção em cinemascope com sonorização estereofónica, feita durante cerca de uma hora, constituísse um espectáculo sem dúvida agradável e interessante de que, gostosamente, fazemos eco.
O novo sistema de projecção, que o São Jorge exibe com as dimensões de 13mx3m é, na realidade, uma fase verdadeiramente avançada da «arte das imagens animadas» a que temos de reconhecer o poder de convicção que exerce sobre o espectador, não sendo de esquecer mas, pelo contrário, de realçar, o efeito da «estereofonia». [...]

[Diário de Moçambique, Beira, 25 de Junho de 2007, p. 5]

Em Centro Cultural, na Beira: UP sem fundos para conclusão da transformação do «3 de Fevereiro», por António Cumbane
As obras de transformação do «Cinema 3 de Fevereiro» da Beira em Centro Cultural da Universidade Pedagógica (UP), delegação desta cidade, que iniciaram praticamente nos meados do ano passado, estão desde princípios de 2007 interrompidas devido à falta de fundos, segundo apurou a reportagem do «Diário de Moçambique» junto do director daquele estabelecimento de ensino, Jó António Capece.
De acordo com as suas palavras, a demora na reabilitação e mudança do cenário daquela infra-estrutura prende-se essencialmente com o facto de o dinheiro para custear a empreitada ser do fundo do Orçamento Geral do Estado, daí que a sua disponibilização dependa das prioridades do país.
«No ano passado recebemos oito milhões de meticais e foram usados todos nos trabalhos iniciais da obra. Agora, para este período, recebemos apenas um milhão, o que mostra que as prioridades que o país tinha são enormes e não deu para mais» - disse, acrescentando que em virtude disso, a obra está interrompida e os respectivos empreiteiros, nomeadamente a JD’Sousa Construções, Shichil e ACEL estão momentaneamente parados.
«Os empreiteiros não abandonaram a obra, eles saíram porque não há dinheiro, logo que houver eles voltarão ao trabalho» - garantiu Capece.
As actividades de transformação do «Cinema 3 de Fevereiro» da Beira começaram praticamente no ano de 2005, período marcado principalmente pelo lançamento público do concurso de reconstrução do referido empreendimento e trabalhos de arquitectura.
No ano em referência, segundo a fonte, ficou marcado que a empreitada ficaria concluída 24 meses depois, o que significa que, mesmo havendo demora, até meados de 2007 o trabalho estaria concluído. [...]

(textos do DM recolhidos pelo Dr Antonio Sopa)

25/06/09

Cine-clube da Beira - a sua criacao (1953-57)

[DIÁRIO DE Moçambique, Beira, 11 de Fevereiro de 1953, p. 4]

Conseguiremos ter na Beira um grupo de amadores de cinema constituindo um núcleo organizado?
Entre nós, não são raras as organizações quer de carácter cultural, quer de carácter filantrópico, a que indivíduos, de vontade firme, têm lançado ombros. Alguns destes esforços têm vingado, outros, porém, vimo-los perecer quando o êxito deixava aperceber-se. Não obstante essas manifestações de sorte contrária, os empreendimentos não param, cada vez animados de uma fé mais forte cada vez mais convincente que vencerão.
E assim, prosseguindo nesse tema de fazer algo de proveitoso, que um grupo de indivíduos da Beira iniciou os trabalhos para a fundação entre nós de um «Grupo de Amadores de Cinema».
Logo que fomos informados de que ideia tão merecedora de encómios começava a ser efectivada, resolvemos saber pormenores que nos elucidassem sobre tal empreendimento.
Conforme nos informaram, este grupo teria uma finalidade um pouco mais larga do que a normalmente atribuída aos «Cine-Clubes» e «Films Societies» (a de mostrar aos seus associados, com sentido crítico e histórico, aqueles filmes que merecem ser vistos e revistos), pois procuraria facilitar aos seus associados a aquisição de conhecimentos técnicos sobre a «sétima arte» de que um dia – e esta é a nossa opinião – poderiam vir a ser técnicos, embora amadores. Outro fim deste núcleo é organizar um biblioteca composta por livros e revistas da especialidade, o que no nosso meio ainda não existe.
Outro pormenor, e da maior importância, é que este núcleo promoveria sessões cinematográficas versando assuntos científicos, artísticos e outros, para cuja realização prevê o aluguer de filmes de 16 mm sobre as mais variadas actividades humanas.
Naturalmente que, existindo um «Grupo» desta natureza, seria iniciado um intercâmbio interessante e de alto valor educativo com as restantes províncias ultramarinas, Metrópole e até com o estrangeiro, onde as associações desta natureza são numerosas.
Sabemos ainda que, espalhada a ideia entre um grupo de amigos, esta se difundiu de maneira a serem já em grande número os adeptos que manifestam um interesse que não pode deixar de ser aproveitado.
Os fins, que o núcleo em questão tem em vista são por demais eloquentes para que haja necessidade de os realçar. Apenas podemos afirmar que a ideia é digna de louvor e que aqueles que estão empenhados na sua efectivação não se devem, de modo algum, poupar a esforços para a ver transformada em realidade, pois que, pelos resultados que pode vir a ter, merece todos os sacrifícios.

[DIÁRIO DE Moçambique, Beira, 16 de Fevereiro de 1953, p. 5]

Firma-se o «Grupo de Amadores de Cinema» da Beira
No nosso número do dia 11 do corrente, fizemos referência desenvolvidamente a um «Grupo de Amadores de Cinema» que se encontra em organização entre nós deixando-nos aperceber já largas possibilidades de êxito com que muito se beneficiará no campo cultural.
Consoante fomos informados, sabemos que as diligências necessárias para a efectivação do empreendimento em questão têm vindo a ser feitas com pleno êxito.
Na passada sexta-feira, aproveitando uma das salas do Grupo Eduardo Brazão, amavelmente cedida pela sua direcção, foi feita uma experiência com alguns documentários de curta metragem de 8 e 16 milímetros, documentários esses filmados essencialmente por membros do futuro núcleo e que em prol do mesmo empenham a sua actividade.
..........
É curioso notar-se que se encontrava presente para assistir a esta primeira sessão experimental todo o «núcleo» dos que trabalham em prol do «Grupo de Amadores de Cinema» da Beira, aproximadamente trinta pessoas.

[DIÁRIO DE Moçambique, Beira, 9 de Março de 1953, p. 5]

O Núcleo de Cinema da Beira levou a efeito a sua segunda sessão experimental
Conforme informámos oportunamente os nossos leitores, graças à iniciativa de alguns amadores de cinema desta cidade, foi há algumas semanas atrás dado início aos trabalhos que dizem respeito à criação entre nós de um núcleo de arte cinematográfica de projecções notáveis.
Não deixa de modo algum de ser interessante esta oportuna iniciativa resultante de uma ideia amadurecida que cria deste modo um centro ou agremiação onde a «sétima arte» terá o seu templo condigno nesta parcela do território português no continente africano.
Temos acompanhado de perto as «démarches» em que uma comissão entusiasta e simultâneamente compenetrada se tem empenhado e, baseados em factos, podemos afirmar que brevemente este «Núcleo Cinematográfico» será uma realidade.
Em sessões experimentais têm sido passados filmes dos associados, quer de 8 quer de 16 milímetros procedendo-se deste modo, insensívelmente, a uma selecção daqueles que num próximo futuro podem alargar com êxito as suas produções na curta metragem passando quiçá para âmbitos mais elevados.
A segunda sessão experimental foi levada a efeito na passada sexta-feira, pelas 20 e 30 horas, nas salas do «Grupo Eduardo Brazão» amavelmente cedidas pelos seus dirigentes.
Foram passados três filmes, um de 8 mm e dos de 16 mm, sendo o primeiro o trabalho de M. Paraskeva e os dois restantes do engenheiro Lecanides.
.................
Esta sessão experimental, que é a segunda, teve uma assistência numerosa composta pelos sócios que se contam já por várias dezenas.

[DIÁRIO DE Moçambique, Beira, 25 de Maio de 1953, p. 5]

Grupo de amadores de cinema da Beira (em organização)
Tendo acompanhado desde o início, os trabalhos que têm vindo a ser levados a efeito por um núcleo de indivíduos no sentido de se constituir legalmente o «Grupo de Amadores de Cinema da Beira», noticiamos agora que se encontra concluída a elaboração dos Estatutos.
No próximo mês de Junho reunirá a Assembleia Geral para aprovação dos referidos Estatutos, que serão, seguidamente, remetidos ás estâncias superiores, para aprovação.
A fim de poder prosseguir com a sessão mensal de passagem de filmes feitos por amadores, foi já permutada correspondência com as vizinhas colónias, visto os trabalhos efectuados pelos amadores locais, filiados ser ainda em número insuficiente.
O «Grupo» em organização, que se encontrava no segundo andar do prédio Scala, mudou as suas instalações para o primeiro andar, ocupando agora um recinto mais vasto que lhe permite montar a biblioteca e o ficheiro.
Numerosos livros e revistas exclusivamente de cinema foram oferecidos uns adquiridos outros de maneira que já existem elementos de consulta para os numerosos sócios que ultrapassam já uma centena contando já alguns elementos do sexo feminino. [...]

[DIÁRIO DE Moçambique, Beira, 10 de Setembro de 1953, p. 7 e 8]

Depoimento: Nível intelectual – Clube de Cinema, por A N. Cordeiro
Estamos tão longe dos grandes meios intelectuais artísticos que, por vezes, talvez influenciados pelo ambiente, parece chegarmos a descrer nas possibilidades de se vir a fazer alguma coisa que venha a sacudir este marasmo.
Entre nós, de notável apenas há a registar o trabalho sério que tem vindo a fazer a Delegação do Círculo de Cultura Musical, apresentando artistas da mesma elevada categoria no mundo musical, e a tentativa da Câmara Municipal com a louvável resolução de promover um ciclo de conferências, como se tem visto, e o prazer espiritual que provocam os concertos é apenas experimentado por reduzido número de auditores – auditores estes que, em bom número, ali vão apenas por snobismo e alguns, até, para dormitar, como várias vezes temos visto.
No entanto, quando alguma coisa nova surge, capaz de contribuir para a elevação do nível cultural do público, renasce em nós a esperança num desabrochar de interesse e acreditamos sinceramente na eficácia de todas as tentativas que se façam n o sentido de levar a ideia a bom termo.
Vem isto a propósito do Clube de Cinema que, entre nós, se está a organizar.
De maneira alguma duvidamos da capacidade daqueles que, corajosamente, deitaram mãos a tão difícil tarefa. Basta conhecê-los, conhecendo assim as suas ideias e nobres intenções, para que qualquer dúvida que, por acaso, existisse se desvanecesse.
Há vontade de trabalhar e persistência – e isso é meio caminho andado para triunfar.
Conseguirão demover as dificuldades de ordem moral e material que irão encontrar pelo caminho?
Conseguirão chamar a si o interesse do público?
Cremos, sinceramente, que sim. E, porque cremos, aqui estamos, prontos a colaborar.
O que é um Cine-Clube?
Transcrevemos o artigo 5º dos Estatutos da Federação Internacional dos Cine-Clubes que, melhor do que nos, o dirá:
«É considerado um Cine-Clube toda a associação com fins não lucrativos, tendo por objectivo principal a projecção de filmes em sessões privadas. Os Cine-Clubes contribuem, por todos os meios, para o desenvolvimento da cultura e da arte cinematográficas; para o desenvolvimento das trocas culturais cinematográficas entre os povos e para o encorajamento do filme experimental.»
Como se vê, têm os Cine-Clubes uma vastíssima missão a cumprir. O que se torna necessário é conduzir todos os esforços no sentido de interessar o público por eles; pelo que é indispensável levar ao seu conhecimento o que se vai fazer e os fins que se pretendem atingir.
Não será apenas exibindo e comentando filmes em sessões reservadas aos seus associados que se vai fazer a divulgação da história e da arte e da técnica cinematográfica, mas, também, promovendo uma intensa campanha na imprensa da especialidade, ou por outros meios legais ao seu alcance, que o Cine-Clube contribuirá para levar a bom termo essa divulgação. Para isso terá de chamar a si colaboradores honestos e competentes, capazes de desenvolver uma acção eficaz: apontando e ensinando ao público as fitas que merecem ser vistas e desmascarando tudo quanto de mau nos quiserem impingir».
A preparação do espectador, por meio da elevação do seu nível de cultura cinematográfica, deve ser, em princípio, um dos principais objectivos do Cine-Clube.
Diz-nos Manuel Azevedo, grande impulsionador do cine-clubismo em Portugal e delegado do nosso país ao Congresso Internacional de Cine-Clubes, realizado em Setembro de 1947, em Cannes:
«... Quanto mais preparado e qualificado for o espectador médio dos nossos cinemas melhor terá de ser a nossa produção cinematográfica, pois um espectador qualificado torna-se exigente. Passa a não aceitar passivamente qualquer banalidade e, em vez de constituir a habitual desculpa do produtor («Temos de fazer o cinema de que o público gosta»), torna-se um juiz severo e consciente inimigo dos produtores que apenas têm em consideração os lucros materiais e desprezam inteiramente a parte básica que deve informar todo o cinema: a sua acção educativa e a sua qualidade artística».
Assim deve ser, de facto. Há que reconhecer que quanto mais exigente for o público melhor categoria virão a ter as películas que se venham a realizar. E é por meio duma acção conjunta, entre o público e o artista (realizador), quando aquele for devidamente orientado por uma crítica íntegra e construtiva e este souber acompanhar a sua evolução da forma mais adequada, que chegaremos ao ponto de possuir um cinema de elevado nível técnico e artístico, sem receio da concorrência dos inimigos da Arte e do próprio Homem – daqueles que, para obterem os lucros materiais a que aspiram, mentem, falseiam e induzem em erro os espectadores menos esclarecidos.
O cine-clubismo tomou um incremento extraordinário em todos os países cultos. O conhecimento do que por seu intermédio se pode criar um cinema de vanguarda, capaz de influir na transformação da própria mentalidade do indivíduo, não passou despercebido. Por isso as camadas cultas de muitos países, aproveitando a grande expansão do cinema, procuram mostrar a Arte impecável que nele existe, tentando desenvolver no espectador a sua educação estética e um perfeito senso crítico.
Em Portugal, como não podia deixar de ser, também o conhecimento dos benefícios da acção dos Cine-Clubes chegou. Só é de louvar, de manter e de encorajar esse entusiasmo.
E porque se trata duma ideia que procura o desenvolvimento cultural da população, pois o cinema é quase uma necessidade do homem de hoje, é de esperar que, entre nós, os organizadores do Cine-Clube da Beira encontrem da parte das autoridades com quem tenham de tratar as maiores facilidades e a melhor boa compreensão.
Ânimo, pois.

[DIÁRIO DE Moçambique, Beira, 11 de Janeiro de 1956, p. 5]

Clube de Amadores de Cinema da Beira
A Comissão Organizadora do Clube de Amadores de Cinema desta cidade, promove pelas 17 horas e 30 minutos do próximo dia 16 do corrente, uma reunião que se realiza na sede da Casa do Algarve.
Nesta reunião proceder-se-á à arrumação de contas até à data da suspensão de actividade deste clube, e serão tomadas decisões sobre os destinos da agremiação.

[DIÁRIO DE Moçambique, Beira, 17 de Janeiro de 1956, p. 5]

Cine-Clube da Beira (em organização)
Conforme estava anunciado, realizou-se ontem na Casa do Algarve, a reunião de sócios do Clube dos Amadores de Cinema da Beira.
Apreciadas as contas respeitantes à actividade deste Clube, decidiu-se por unanimidade que os haveres existentes, bem como o saldo em dinheiro, passassem à nova organização que se designará por Cine-Clube da Beira. Seguidamente procedeu-se à eleição da comissão organizadora da nova agremiação, tendo esta proposto a aprovação dos associados presentes resoluções relativas à futura actividade.
Assim ficou deliberado que a quota mensal fosse de vinte escudos para os homens e dez escudos para as senhoras, ficando também assente que as finalidades imediatas do Cine-Clube se limitarão à exibição de filmes escolhidos, formação de uma biblioteca especializada, edição de um boletim e distribuição de programas escolhidos adequados às películas a exibir.
Comunicou também a comissão organizadora o entusiástico ambiente que tem encontrado de parte do público e o esplêndido acolhimento que à ideia têm dispensado as empresas exibidoras de cinemas locais.
Dentro de breves dias conta a comissão organizadora poder comunicar ao público onde ficará provisoriamente instalada a sede e as horas em que estará aberta a fim de aí se prestar todos os esclarecimentos aos interessados.

[DIÁRIO DE Moçambique, Beira, 2 de Fevereiro de 1956, p. 5]

Cine-Clube da Beira
A franca actividade em que entrou agora o Cine-Clube da Beira (em organização), permite-nos esperar que este «Clube» especial vai atingir brevemente o fim em vista embora caminhando cautelosamente no intuito de criar bases seguras.
No próximo sábado, pelas 16 horas, realiza-se no cinema Palácio gentilmente cedido pela sua gerência, uma sessão de cinema promovida pela comissão organizadora deste cine-clube. Antes de iniciada a sessão o sr. engº Victor Rodrigues Patrício proferirá algumas palavras de apresentação. Seguir-se-á a exibição do filme de André Cayatte, «Antes do Dilúvio». [...]

[DIÁRIO DE Moçambique, Beira, 22 de Fevereiro de 1956, p. 5]

Cine-Clube da Beira (em organização)
Aviso
A Comissão Organizadora do Cine-Clube da Beira comunica que promoverá, hoje, 22, no Cinema S. Jorge, por amável deferência da Empresa deste cinema, a segunda sessão cinematográfica, com o seguinte programa:
1) Palavras de apresentação.
2) Exibição em ante-estreia do filme sueco «Vertigem» - Grande Prémio do Festival de Cannes.
Esclarece-se que nesta mesma data começa a cobrar-se as cotas, sendo facultativo o pagamento da cota de Janeiro e obrigatório para a de Fevereiro. Também se distribui um convite pessoal e intransmissível a cada sócio. Como é óbvio, só a apresentação deste convite dará ingresso à sessão, deduzindo-se que é vedado aos sócios fazer-se acompanhar de quaisquer pessoas que não estejam inscritas como associados.
Agradece a Comissão Organizadora aos sócios cuja situação seja irregular (ou por falta da entrega da proposta, ou por falta de pagamento) que procurem regularizar a sua situação, tanto mais que o volume de sócios obrigará dentro em breve à limitação de inscrições.
Os associados que ainda não receberam o convite podem adquiri-lo no S. Jorge, onde lhes será entregue.
A Comissão Organizadora.

[DIÁRIO DE Moçambique, Beira, 19 de Março de 1956, p. 5]

Cine-clube da Beira
Realizou-se anteontem à tarde, no «Palácio», mais uma sessão de cinema promovida pelo «Cine-Clube da Beira.
Nesta sessão, a que assistiram a maioria dos sócios, foi projectado o filme «Ela só dançou um verão» e o documentário «À memória de um herói – Napoleão».

[DIÁRIO DE Moçambique, Beira, 25 de Abril de 1956, p. 5]

Cine-Clube da Beira (em organização)
O Cine-Clube da Beira acaba de distribuir aos seus associados uma circular (nº 3) do seguinte teor:

3ª Sessão cinematográfica
Realizar-se-á no cinema Rex, pelas 10 horas do próximo dia 29, a 3ª sessão cinematográfica com o filme mexicano «O Monte dos Vendavais» de Luís Bunuel.
A entrada para esta sessão far-se-á mediante a apresentação do talão da cota de Março.

Próximas sessões
Nos primeiros dias do próximo mês de Maio efectuar-se-á a 4ª sessão, com o filme «Marty», de Delbert Mann, a exibir também no Cinema Rex.
Ainda durante o mês de Maio terá lugar a 5ª Sessão, preenchida com a exibição de um filme, em exclusivo para o cine-clube.

Pagamento de cotas
Os associados que, por qualquer motivo, tenham a sua cotização em atraso e que desejem regularizá-la, podem fazê-lo na sede do Clube, das 17 às 19 horas, ou à entrada para a sessão. [...]

[DIÁRIO DE Moçambique, Beira, 30 de Maio de 1956, p. 5]

Cine-clube da Beira
Amanhã, quinta-feira, terá lugar no cinema S. Jorge a 5ª sessão cinematográfica promovida pelo Cine-Clube da Beira. Nesta sessão, que se realizará pelas 10 horas da manhã, será exibida a película «Feriado em Paris» do realizador Duvivier, devendo os sócios apresentar à entrada o talão da cota referente ao mês de Abril.

[DIÁRIO DE Moçambique, Beira, 26 de Julho de 1956, p. 5]

O dia a dia: Cinema de Amadores
O Cine-Clube da Beira acaba de distribuir uma circular aos seus associados, falando do início da actividade da secção «Cinema de Amadores». Diz-se ainda que não se ignora as dificuldades a vencer mas que se trata de preencher uma lacuna, satisfazendo deste modo, os anseios de uma grande parte da massa associativa.
De início, a actividade daquela secção visará, muito especialmente, os seguintes pontos:
1º Aquisição de aparelhagem completa de 8 mm (máquina de filmar, projectar, etc.);
a) Destina-se esta aparelhagem a ser emprestada aos sócios.
2º Montagem de uma pequena cinemateca de filmes de 8 mm destinada ao empréstimo de filmes a sócios.
3º Obtenção de descontos especiais para os sócios, nas casas de especialidade desta cidade (para filmes, máquinas, etc.).
4º Realização de sessões periódicas, para a projecção de filmes de 8mm, produzidos pelos sócios.
5º Realização de um festival anual para premiar a melhor realização em 8mm.
6º Criar no Boletim do Clube uma secção a ser preenchida com colaboração dos sócios.
Da simples leitura destas alíneas, verifica-se o muito que se poderá realizar em prol do desenvolvimento do gosto pelo filme de carácter experimental e recreativo – finalidade de «Cinema de Amadores». Na Beira, há já alguns elementos que têm dedicado o seu tempo e o seu dinheiro a trabalhos desta natureza e estamos em crer que, dadas as facilidades que o Cine-Clube irá procurar conceder aos seus associados e até o estímulo já previsto num festival anual, o número de amadores irá, pelo menos, corresponder à boa vontade da comissão organizadora. Para esta vão as nossas felicitações por tal iniciativa.

[DIÁRIO DE Moçambique, Beira, 30 de Agosto de 1956, p. 7]

Cine-clube da Beira
Amanhã, pelas 17.30, no Cinema S. Jorge, realizará o Cine-clube da Beira a segunda sessão extraordinária, exibindo, em ante-estreia privativa para os associados, o filme italiano «Belissima», realização de Luchino Visconti, com desempenho de Anna Magnani.

[DIÁRIO DE Moçambique, Beira, 31 de Agosto de 1956, p. 5]

Cine-clube da Beira (em organização)
A sessão cinematográfica anunciada para esta tarde no Cinema S. Jorge, com o filme «Belissima», está suspensa, em virtude de, até ontem, não ter chegado o referido filme.
A Comissão Organizadora não se poupou a esforços no sentido de cumprir com o que fora anunciado e pede aos sócios a sua atenção para o noticiário do meio-dia da Emissora do Aero Clube da Beira, no qual se confirmará a realização da sessão de hoje, ou se anunciará a sua transferência para outra data, esclarecendo que esse noticiário será, nas presentes circunstâncias, o único meio eficaz de poder entrar em contacto com os associados.
Desja ainda a Comissão Organizadora manifestar a expressão do seu reconhecimento a todos os que directa, ou indirectamente lhe dispensaram facilidades.


[DIÁRIO DE Moçambique, Beira, 7 de Outubro de 1956, p. 7]

Cine Clube da Beira
O Cine Clube da Beira promove, amanhã, segunda-feira, uma nova sessão de cinema com filme francês «Um carnet de baile» de Julien Duvivier.
A sessão, que inclui uma pequena palestra pelo engº Eugénio Lisboa, terá lugar às 15.15 horas no cinema S. Jorge.

[DIÁRIO DE Moçambique, Beira, 6 de Novembro de 1956, p. 7]

Cine-clube da Beira
O Cine-clube da Beira leva efeito a sua 3ª sessão extraordinária no Cinema Nacional apresentando o filme «Casei com uma Feiticeira» de René Clair. A sessão terá início pelas 17,30 horas.

[DIÁRIO DE Moçambique, Beira, 17 de Novembro de 1956, p. 17]

A actividade do Cine-clube da Beira
Do Cine-clube da Beira recebemos a comunicação do que tenciona fazer no futuro:
Para principiar, há que dizer que já estabeleceu a programação das sessões cinematográficas a efectuar durante o ano de 1957.
Foi prevista a realização de 18 sessões ordinárias, preenchidas com filmes de formato de 35 mm, ficando em estudo a possibilidade de efectuar sessões extraordinárias com filmes de 35 mm e 16mm.
Interessa à Comissão Organizadora informar os associados de que a realização deste programa importa em despesas de cerca de uma centena de contos, pelo que espera de todos os sócios uma interessada colaboração, principalmente no aspecto do aumento da massa associativa – o que poderá traduzir um aumento de possibilidades de toda a ordem, possibilidades estas convertíveis em mais largos privilégios para os sócios.
Esclarece a Comissão Organizadora que a selecção de filmes obedeceu, antes de tudo, às facilidades ou dificuldades que as empresas distribuidoras apresentaram, cumprindo desde já anunciar que, até à data, não foi possível remover as distribuidoras dos países vizinhos de uma infundada atitude de incompreensão perante a actividade do Cine-clube da Beira. Tal atitude obriga-nos a recorrer unicamente às distribuidoras da Metrópole, o que implica a quase integral proibição de se exibir filmes de língua inglesa, contrariando, assim, um dos desejos daquela Comissão.
Não desiste a mesma Comissão Organizadora de procurar estabelecer novos contactos com firmas distribuidoras, com os consulados e embaixadas dos países representados em Moçambique – sendo muito grato, mais uma vez, registar a ajuda e compreensão do Exmo Cônsul da França -, com a Cinemateca Nacional, Federação dos Cine-Clubes Portugueses – neste caso tendo em vista a condigna representação do cinema nacional – e com os organismos congéneres de Angola. Foi, também, apresentada ao Cine-Clube de Lourenço Marques aquela programação, no sentido de estabelecer uma total colaboração, o que representará, sem dúvida, uma valiosa ajuda na consecução dos objectivos comuns.

[DIÁRIO DE Moçambique, Beira, 10 de Dezembro de 1956, p. 5]

Cine-Clube da Beira
Hoje, com início às 17.30 horas, leva a efeito o Cine-Clube da Beira a sua habitual sessão de cinema nas salas do S. Jorge.
Nesta sessão será apresentado o filme francês «La Bandera», realizado por Julien Duvivier, com desempenho de Jean Gabin, Annabella, Robert Le Vigan, Aimos, Pierre Renoir, Gaston Modor e Viviane Romane.
Antes da exibição desta película usará da palavra para fazer a sua apresentação o sr. Noronha Marques.

[DIÁRIO DE Moçambique, Beira, 30 de Janeiro de 1957, p. 7]

Um esclarecimento do Cine-Clube da Beira
Da Comissão Organizadora do Cine-Clube da Beira recebemos com o pedido de publicação o esclarecimento que a seguir muito gostosamente publicamos:
«Para conhecimento dos leitores do seu conceituado jornal pedimos o favor da publicação dos seguintes esclarecimentos relativos a particularidades da actividade do Cine-Clube da Beira (em organização) e das incipientes relações que foram estabelecidas com a comissão organizadora do Cine-Clube de Lourenço Marques.
1º É destituída de qualquer fundamento a notícia posta a circular, na imprensa, de que as sessões cinematográficas organizadas por este Cine-Clube, exclusivamente para os seus associados, tenham sido feitas com filmes emprestados e em salas emprestadas. Exclui-se desta regra uma curta-metragem obsequiosamente cedida pelos serviços de propaganda da SHELL, que incluímos no programa da nossa última sessão e documentários igualmente cedidos pelo Consulado Francês, que ainda não tivemos oportunidade de exibir.
Da mesma forma é falsa a informação também publicada, na qual se refere que este Cine-Clube tem estado a capitalizar o produto da cobrança de quotas ao longo dos 11 meses da sua existência. Foi graças a esse rendimento que se tornou possível a actividade desenvolvida pelo CCB, como de resto pode ser verificado por quem desejar consultar as contas deste seu primeiro ano de existência.
A título de curiosidade, informa-se que à data da primeira sessão, realizada em 4|2|956, tinha o CCB 48 associados.
Desconhece este Cine-Clube a intenção que orienta quem quer que seja quando presta informações que, como estas que desmentimos, falseiam ou deturpam a verdade.
2º Temos fortes razões para supor que a Comissão Organizadora do Cine-Clube de Lourenço Marques não está, efectivamente, interessada no estudo, em comum, dos problemas que afectam o movimento cineclubista em Moçambique. Ao nosso desejo de rever esses problemas dentro dum espírito de lealdade e frutuosa colaboração não foi dada qualquer satisfação. Apesar disso pode o Cine-Clube de Lourenço Marques contar, agora e sempre, com a lealdade e colaboração do CCB desde que não haja, em circunstâncias nenhumas, possibilidades de desvios da ética que caracteriza estas associações culturais, graças à qual o movimento se tem conseguido impor.
[...] A Comissão Organizadora do Cine-Clube da Beira.»

[DIÁRIO DE Moçambique, Beira, 9 de Janeiro de 1957, p. 7]

Cine-Clube da Beira
Hoje, com início às 17.30 horas, o Cine Clube da Beira leva a efeito a sua habitual sessão de cinema, no «Palácio», sendo corrido o filme colorido «Pamposh», realizado por Erza Mir, que é também autor do argumento.
Antes da exibição do filme, como é costume haverá uma curta palestra por Fernando Couto.

[DIÁRIO DE Moçambique, Beira, 5 de Fevereiro de 1957, p. 5]

Exposição das actividades cineclubísticas
Entre os dias 5 e 13 de Fevereiro próximo, estará patente ao público da Beira no segundo piso do cinema «Nacional», uma exposição de actividades cineclubistas no nosso país.
Esta exposição, que se deve ao CCB, só foi possível realizar-se graças à excelente colaboração dos cine-clubes da Metrópole e de Angola, que, de boa vontade, se prontificaram a ceder os elementos e material necessário para a sua efectivação.
Nela poderá ser observada a excelente obra cultural já levada a efeito pelos cine-clubes e a enorme expansão que o movimento cineclubista está tendo no nosso país.

[DIÁRIO DE Moçambique, Beira, 21 de Abril de 1957, p. 17]

Cine-Clube da Beira
Pede-nos a direcção do Cine-Clube para tornarmos público que, por motivo de força maior, foi adiada a sua 16ª sessão para amanhã, segunda-feira.
Consta esta sessão do filme «A comédia e a vida», dum trecho musical de Ravel, dum documentário sobre a Itália dos nossos dias e duma palestra, que será proferida pelo engº Costa Ribeiro.
A 17ª sessão realiza-se, como foi anunciado, depois de amanhã, terça-feira, constando do filme «É preciso ter azar», dum trecho musical de Beethoven e duma palestra pela dra. Maria Aurélia Patrício.
O espectáculo de amanhã, realiza-se pelas 17.30 horas, no cinema S. Jorge, e o de terça-feira no cinema Nacional, pela mesma hora, sendo o primeiro para maiores de 13 anos e o segundo para maiores de 18.
O ingresso nestas sessões só será permitido mediante a apresentação do bilhete de identidade e da quota referente ao mês de Março.

(excertos do DM recolhidos pelo Dr Antonio Sopa)

25/06/08

Recordando a velha Beira - Repressão colonial

No "Régulo Luís" com Manuel Mafambate, nascido em 1909.


video

19/06/08

Recordando a velha Beira - O Beira Terrace



O “Beira Terrace” estava implantado num amplo jardim, sobranceiro à muralha de protecção da cidade e com vista para a baía.

video

05/06/08

Recordando a velha Beira - O Clube Chines



O Clube Chines é hoje sede do ARPAC

video



O Clube ChinêsEm Outubro de 1922, realizou-se uma assembleia geral da colónia chinesa da cidade que decidiu a criação de um Grémio para ser reconhecido pela Companhia de Moçambique e pela administração colonial portuguesa. Na reunião foram discutidos e aprovados os estatutos da colectividade que passou a designar-se Associação de Beneficência "A Oriental". A primeira direcção ficou constituída por Chen Hen Chin Pim, presidente, Eruil Shung Chin, secretário, e Ng Deep, também secretário. A 5 de Dezembro do mesmo ano os associados Ah Quin, Man Min, Hoo Yuen e Chin Hon requereram à Secretaria Geral da Colónia a aprovação dos referidos estatutos.
Pouco tempo depois, mas já em 1923, a Companhia de Moçambique, em concordância com as autoridades portuguesas, autorizou a legalização da associação na cidade da Beira. Os principais objectivos da agremiação resumiam-se a prestar assistência moral e material aos associados e a outros
chineses em situação difícil e promover eventos sociais, culturais e festivos.
O edifício do Grémio ficou concluído em 1923. Era então um dos prédios mais altos da cidade erguidos em alvenaria e passou a ser conhecido nos meios coloniais por Clube Chinês.
Fonte: Eduardo Medeiros, O Clube Chinês da Beira (Moçambique). Revista Macau, IIª Série, n.º 73, Maio, 1998:26-33.

30/05/08

Recordando a velha Beira - A Catedral


... e as pedras da Fortaleza de Sofala também serviram para a construção da Catedral da Beira


video

26/05/08

Recordando a velha Beira - A Mesquita

[AHM, Fundo do Governo do Distrito da Beira, Assuntos Municipais e dos seus Organismos Autónomos, Actas, 1942-1944, cx. 92 – Acta nº 6, Sessão Ordinária da Comissão Administrativa da Câmara Municipal da Beira de 8 de Fevereiro de 1945, p. 70 e 71]
Informação do Engenheiro Superintendente da Repartição Técnica
Em 15 de Junho do ano findo a «British Indian Mahomed Associaton», requereu licença para construir uma nova Mesquita no local da actual que se encontra em ruínas.
O projecto apresentado refere-se a um edifício de vulto que não ficaria convenientemente localizado se não se criasse espaço circundante necessário, de resto, a urbanização daquela zona exige um estudo cuidado de forma a criar o maior desafogo possível.
O estudo apresentado prevê o isolamento da nova mesquita entre as Ruas Pêro de Alenquer, Correia de Brito, rua Aires de Ornelas e uma rua nova, pela expropriação dos talhões 120, 120A, 121, 121A, 122 e 122A.
Destes serão ocupados pela Mesquita, na totalidade ou em parte, os talhões 120A, 121, 121A e 122, ficando os restantes a pertencer à via pública.
Entendo que é de autorizar a licença de construção da Mesquita de acordo com um novo projecto do edifício que se adapte à urbanização projectada e ficando o pagamento das expropriações a cargo dos interessados.
Repartição Técnica da Câmara Municipal da Beira, 7 de Fevereiro de 1945.
O Engenheiro Superintendente da Repartição Técnica (assinado) J. Pinto de Sá.
A Comissão deliberou deferir nos precisos termos da informação da Repartição Técnica.

video

Nota: "Recordando a velha Beira" é um documentário realizado em 1991 por Maria Pinto de Sá e Ferreira Mendes, do qual vou publicar alguns excertos no blog. Inicio com esta entrevista a Amad Sene Abdulah, chegado à Beira em 1921 vindo de Sofala.

13/05/08

As vicissitudes da torre da capela de S. João Baptista


Informação|Proposta 6|1969, de 22 de Janeiro de 1969, da Comissão dos Monumentos Nacionais.
Assunto: Recorte nº 124 – Torre da 1ª Igreja da Beira
  1. Embora este imóvel não tenha interesse monumental, tem contudo valor como relíquia histórica daquela cidade, uma vez que se trata da primeira igreja construída na Beira, no ano de 1893, pelas Forças de Polícia da Companhia de Moçambique, ali aquarteladas.
  2. Consequentemente, deverá ser proclamado «Imóvel de interesse público» ao abrigo do disposto no Artº 30º do Decreto 20985, de 7 de Março de 1932, mandado aplicar à Província pela Portaria 12185, de 16 de Dezembro de 1947.
  3. Para a conssecução desse objectivo, está a ser organizado o respectivo projecto de classificação, afim de subir à consideração superior.
  4. Tal como aconteceu com a «Primeira Residência do Governo do Distrito de Lourenço Marques», deverá este imóvel ser entregue à Câmara Municipal da Beira, a quem competirá a sua conservação.
  
Da capela de S.João Baptista só resta a torre.