01/02/10

Roteiro sentimental



O interesse pela baía do Pungoé - designada então por baía de Massansane ou baía do Mesquita - vem desde 1882 quando o explorador Joaquim Carlos Paiva de Andrada chamou a atenção da Sociedade de Geografia de Lisboa para a ocupação da vasta zona compreendida entre Sofala, Manica e Sena, sendo esta a porta natural para a reocupação de todo aquele território.
As origens e o desenvolvimento da cidade da Beira, cujo nome é uma homenagem ao príncipe herdeiro português D. Luís Filipe, tiveram a ver com a sua posição privilegiada numa futura rede de comunicações com o interior, que se viria a construir de acordo com as obrigações internacionalmente impostas a Portugal. A sua localização definitiva, na margem esquerda do rio Pungoé, à revelia das determinações oficiais de 1884, reflecte já a necessidade de encontrar melhor ancoradouro após o reconhecimento hidrográfico daquele rio.
A primeira ponte de desembarque viria a ser construída na margem direita do Chiveve, em 1895, estando na origem do actual complexo portuário que data de 1929. Uma linha ferroviária liga a cidade com o Zimbabwe (então Rodésia do Sul) desde 1896, sendo posteriormente aberto à exploração o transzambeziano, que tinha como ponto de partida o Dondo, a 27 quilómetros da Beira.
A fixação definitiva de portugueses na região, no interior duma pobre paliçada de paus e matope erigida nas terras desabitadas do Bangoé, só viria a dar-se em Agosto de 1887 após demoradas e difíceis negociações com Ngungunhane, senhor da região, a partir das invasões “nguni”(1835-1836).
Toda a região de Manica e Sofala viria a ser palco de graves conflitos internacionais nos quatro anos imediatos a essa instalação dos portugueses. Em 1891 chegou a estar iminente a sua ocupação pelas forças policiais da British South Africa Company.
A fixação e o desenvolvimento de tão vastos territórios viria a ser entregue a uma sociedade comercial (a primeira Companhia de Moçambique), como era comum na época. Instalada na Beira, procurou estabelecer a sua presença efectiva em Manica.
Só após o regresso da tranquilidade aos territórios e a constituição da segunda Companhia de Moçambique, em 1892 (com poderes majestáticos!), se iniciaram os grandes trabalhos que vieram a transformar a Beira.
A povoação nasceu verdadeiramente com os primeiros armazéns construídos pela primitiva Companhia de Moçambique, em 1888. Quatro anos depois, quando se fundou a segunda Companhia, as construções já se espalhavam, em desalinho, sobre uma estreita língua de areia, entre o Chiveve e o rio Pungué: as casas da Companhia ocupavam a margem direita, o acampamento da expedição militar e a aringa do comando militar do Aruângua, já em ruínas, a margem esquerda.

Por iniciativa do engenheiro Joaquim José Machado, na tentativa de obviar aos inconvenientes existentes, tal como se verificava com as primitivas barracas do Bairro da Alfândega (hoje completamente desaparecido), viria a ser delineada a primeira planta da povoação, onde se indicavam as principais ruas e bairros, numa estrutura regular e geométrica.
Evitou-se assim o crescimento desordenado e definiu-se um esquema de arruamentos ajustado à configuração do espaço. Espaço esse, que se foi ampliando conforme as necessidades da sua expansão, dividindo-se o terreno edificável em talhões com uma orientação definida.
Os planos de urbanização posteriores respeitaram o traçado primitivo, ajustando-o apenas às novas concepções urbanísticas. Na margem esquerda do Chiveve, onde se encontravam o farol, a alfândega, o hospital e o mercado, o traçado inflectiu sucessivamente para leste, facto ainda hoje facilmente verificável pelo percurso da Rua António Enes, acompanhando a estreita língua de areia, estendendo-se o extenso alinhamento até junto do mar, na actual Praça da Independência (conhecida, no período colonial, por Praça da Índia). No seu extremo, encontrava-se o Bairro da Ponta Gêa, onde desde cedo a Companhia construiu algumas infra-estruturas, como um posto semafórico/farol (1892-1893), estando este edificado numa península de areia.
Na margem direita do Chiveve, conhecido por Maquinino, erguiam-se também alguns dos principais edifícios da povoação, como o quartel, a cadeia, a igreja, o cemitério e um campo desportivo de cricket!
A ligação entre as duas margens era fundamental, tendo-se inicialmente construído uma ponte de madeira, que em 1910 foi substituída por uma ponte metálica.
A ligação com o interior viria a fazer se com uma estrada na direcção do norte, visando evitar o pântano, no sentido do Esturro, de onde inflectia para Matacuane. Deste local o traçado dirigia-se para a elevação arenosa da Chota, desviando-se depois no sentido da Manga Loforte. Mais tarde, foi aberta a estrada da Munhava e, a partir desta, no lugar do Esturro, uma outra directamente para a Manga.
A estrada de acesso ao Macúti, onde já existia um farol (1904), e à missão católica de Marora, não foi traçada ao longo da linha da praia por se recear a sua conservação, visto o vento a cobrir frequentemente de areia. Foi após a conclusão daquele arruamento, em Novembro de 1930, que se pensou em estudar para esse local a criação de uma “povoação de europeus”. O seu desenvolvimento viria a ocorrer vinte anos mais tarde, quando se construíram as 100 vivendas que constituíam o Bairro da Sofil (1953), se instalou algum comércio (o “Leão de Ouro” e o “Emporium”) e um clube náutico (1953).
Também se estabeleceu uma zona turística ao norte do farol, compreendendo, entre outros, um acampamento turístico e um hotel a partir de Abril de 1957.

O ante-projecto de urbanização da cidade, de autoria do engenheiro Joaquim de Oliveira Ribeiro Alegre e do arquitecto José Luís Porto, aprovado em 1947, marcaria o futuro da cidade até hoje.
A Beira dividia-se em bairros, tanto do ponto de vista étnico - europeu (estendia do sul do Chiveve até ao Macúti), asiático (Maquinino, Esturro e Matacuane) e africano (Manga) - como pela funcionalidade - comercial (na parte ocidental), industrial (a poente da estrada da Manga), ferroviário (onde actualmente ainda se encontra localizado) e campo de aviação (Manga). O Chiveve seria transformado num lago que, com o campo de golfe, daria lugar a um grande espaço livre, necessáriopara arejamento e desafogo da cidade, muito embora, posteriormente, para esse local tivesse sido preconizado um Centro Cívico e Comercial.
Só a partir da segunda metade dos anos 50 do século passado e da década seguinte se deu uma evolução na mancha urbana, de certo modo rápida, nas zonas do Macúti, Matacuane e Munhava-Nova, acompanhada com a construção de edifícios de grande porte, como o Grande Hotel da Beira, o Banco Nacional Ultramarino, os cinemas São Jorge e Nacional, e os prédios Bulha, Entreposto, A Teixeira, Souglides, F. L. Simões, Cocorozis, Nauticus, Nunes e Barreto.
Simbolicamente, a expressão mais visível das transformações urbanas ocorridas nesse novo período é a Praça do Município, surgida após a demolição das velhas casas de madeira e zinco ali existentes, tendo as obras da mesma ficado concluídas em Dezembro de 1954.

Não existe até hoje um inventário pormenorizado dos edifícios com interesse histórico ou arquitectónico da cidade da Beira. Das velhas edificações de madeira e zinco, muitas das quais resistiam ainda após a independência, praticamente já nada existe. O uso generalizado destes materiais nos princípios do século XX faria com que a Beira fosse conhecida internacionalmente como a “Cidade do zinco”. Quando a povoação se começou a expandir, a partir de 1891, dando origem à actual rua António Enes ligando o Comando Militar à zona da alfândega, encheu-se de casas deste tipo, de um e outro lado da rua - eram as chamadas “Casas do Governo”.
Com a passagem dos territórios para a Companhia de Moçambique, estas viriam a ser ocupadas pelos diversos serviços: Intendência, Tribunal, Conservatória e as residências dos respectivos funcionários.
O edifício da Intendência, que seria também a residência e sede do Governo do Distrito de Sofala, era na altura a melhor casa da Beira. Distinguia-se pelo enorme mastro, à entrada, ali colocado pela tripulação do navio de guerra “Mandovi”. Foi um dos últimos a desaparecer do chamado Bairro do Governo, demolido em Setembro de 1958. Hoje é o parque de estacionamento ao lado do cinema Nacional.
Ainda que o uso do zinco se mantivesse até à década de 1920, já no final do século XIX começaram-se a construir alguns edifícios de alvenaria.



Mas das “construções de ferro” restam ainda belos exemplares, sendo a Casa Portugal o mais conhecido.



Texto do Dr. António Sopa

20/11/09

"A virgem da Babilónia" de Adelino Timóteo

Este seu ultimo romance foi lancado hoje na Casa dos Bicos.

Veja tambem

Diário de um sociólogo

12/11/09

Chineses da Beira

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Foi a partir de 1881 – já num contexto de implantação do capitalismo imperial - que a procura de «coolies» chineses se tornou consistente na colónia. A construção das duas principais cidades, Beira e Lourenço Marques, os respectivos portos e caminhos de ferro, as açucareiras do Baixo Zambeze (Sena Sugar States) e do vale do rio Búzi (Companhia do Búzi) e outros empreendimentos coloniais modernos careciam de artesãos mais ou menos hábeis e a baixo preço que a mão-de-obra especializada proveniente da Europa não satisfazia pelo seu elevado custo.

«Coolies» foi a designação usada pelos britânicos durante a segunda metade do século XIX e primeiro decénio do século XX para designar os contratados indianos e chineses nas suas possessões do Oceano Índico e da Ásia do Sudeste.

…………… em 1887, chegaram à região de Lourenço Marques os primeiros operários vindos de Cantão para a construção do Caminho-de-ferro de Lourenço Marques para a África do Sul, empreendimento que se realizou entre 1887 e 1889, e para o território de Manica e Sofala, mais a norte, sob administração da Companhia de Moçambique, também foram contratados «coolies» chineses para a construção do Porto e do Caminho-de-ferro para a Rodésia Beira-Umtali, 1892-1898. Tanto nestas como noutras tarefas “vieram a demonstrar vastos conhecimentos e muita perfeição, o que tornava impossível a concorrência de operários europeus”, lastimava Eduardo Costa. Os que ficaram pela povoação depois das obras nos portos e caminhos-de-ferro deram valiosa contribuição para o crescimento dos dois burgos, ajudando na construção dos edifícios públicos e das casas de particulares.
…………..
Os artesãos mais ou menos especializados da primeira vaga transformavam-se em horticultores na periferia das cidades da Beira e de Lourenço Marques quando não tinham trabalho nas obras ou quando chegaram familiares e não tinham emprego; dedicaram-se alguns à pesca e à colecta de holotúrias no Inhassoro e Mambone, na região centro-sul da colónia, entre o rio Búzi e o rio Save, e no norte, em Mocímboa, Ibo e outras praias do litoral do oceano Índico. Anos volvidos transformaram-se quase todos e suas famílias em «cantineiros» para o comércio com a população negra. Por fim, a partir dos anos 30, surgiram comerciantes na cidade de cimento dos colonos, e mais tarde, nos anos 50 e 60, alguns abriram fabriquetas de confecções e de outras indústrias, e os jovens saídos das escolas portuguesas passaram a trabalhar nas instituições públicas e privadas.
……….
A cidade da Beira nasceu num pântano à beira-mar por imperativos de um porto oceânico, onde desembocariam os caminhos-de-ferro e estradas que serviam o hinterland da Federação das Rodésias e Nyasaland e até do Katanga. A cidade foi também a “capital” dos territórios de uma Companhia Majestática governada por grupos financeiros internacionais. Quer a influência britânica da Federação quer da administração da Companhia e seus funcionários deram um cunho particular às relações sociais no burgo até 1949, ano em que o caminho-de-ferro foi adquirido pelos portugueses. Sem espaço para tratar desta questão neste artigo, direi em síntese que até aos anos 40 a existência da comunidade chinesa da Beira inscreve-se num contexto diaspórico chinês para territórios britânicos no oceano Indico, ao contrário da comunidade laurentina, que vivia numa cidade capital da colónia, mais portuguesa se assim o podemos dizer, embora o seu porto e caminho-de-ferro para o Transvaal também veiculassem, obviamente, enormes influências britânicas e sul-africanas. Na Beira, os sino-asiáticos estiveram até ao fim da IIª Guerra mais relacionados com os ingleses e isto no que respeita a títulos de viagem e passaportes, a documentos de residência e às relações com as terras de origem através de Singapura e de Hong Kong, territórios do Império britânico. E também dos negócios com a Ásia.
Mas para além disto, a formação e desenvolvimento da Beira caracterizou-se nos primeiros decénios pela chegada ao burgo de imigrantes europeus e americanos das mais variegadas proveniências na miragem do eldorado de Manica, e também pela presença de uma multidão de trabalhadores negros de diferentes origens, que viviam em compounds na periferia do núcleo urbano que se ia formando e em bairros de caniço que foram nascendo, como já assinalámos.

Censo de 1897
Portugueses 540, Ingleses 216, Alemães 46, Franceses 43, Gregos 40, Espanhóis 20, Holandeses 11, Italianos 11, Suíços 14, Suecos 11, Americanos 10, Indo-Ingleses 165, Indo-Portugueses 110, Chineses 85, Árabes 5, Africanos 2714
TOTAL 4041

Fonte: Rui Rodrigues, A cidade da Beira – ensaio de geografia urbana.
In: Geographica, revista da Sociedade de Geografia de Lisboa, n.º 14, Ano IV, Abril de 1968, pg. 81



Foi nas rotas dos compounds para o porto e para o caminho-de-ferro e nos bairros indígenas que os sino-asiáticos e os sino-africanos se instalaram para o comércio de comida e de bebida com a população negra. Ao longo da história colonial da cidade, a localização dos compounds foi-se alterando e novos bairros foram nascendo. No primeiro quartel da história da Beira os compounds situavam-se na proximidade do porto e do caminho-de-ferro, e os bairros do Maquinino e do Chaimite eram por excelência os bairros dos asiáticos (chineses, indianos), dos colonos mais pobres e dos mestiços. Depois foram surgindo os bairros da Munhava, Chipangara, Esturro, Matacuane, Manga, Macúti, etc.

Excertos de “Os sino-moçambicanos da Beira. Mestiçagens Várias.”
de Eduardo MEDEIROS

11/11/09

ArtBarCafe Novembro de 2009







Ciclo do Cinema Alemao: nao perca este filme

21/10/09

"Minarete de medos e outros poemas" de Mbate Pedro

Lancamento deste livro de poemas. Mais uma parceria do Centro Cultural Portugues e da Casa do Artista.

"uma bela manha
tentaram silenciar-nos

um livro de poesia
pulou da nossa boca
e
tingiu de palavras
o rosto do outro

amada
tentaram silenciar-nos"

17/09/09

"As Andorinhas" de Paulina Chiziane


Lançamento do livro de contos "As Andorinhas" no Centro Cultural Português promovido pela "Casa do Artista".


"Uma andorinha canta alegre no espaço. De pança também cheia, baila. Liberta os intestinos e a caganita balança na cloaca. Cede à gravidade e cai no olho do imperador."

09/09/09

"Uma Vida Qualquer" de Chakil Abbobakar


Em mais uma iniciativa da "Casa do Artista" em parceria com o "Centro Cultural Português" foi feito o lançamento do livro de contos "Uma Vida Qualquer" de Chakil Aboobakar, membro fundador e vice-presidente da "Casa do Artista".

O prefácio é da autoria de Adelino Timoteo.

27/08/09

Exposicao de Fotografia ACIS


A Associação Comercial e Industrial de Sofala (ACIS) e o Instituto Camões - Pólo na Beira apresentam no Centro Cultural Português uma exposição de fotografia. A inauguração teve lugar hoje dia 27 de Agosto e estará patente ao publico até ao dia 7 de Setembro.

22/08/09

"No colo da Lua" de Sonia Sultuane










Mais um lançamento de um livro no Centro Cultural Português promovido pela "Casa do Artista".

02/07/09

abcARTEBARCAFE - Julho