19/10/07

Crónicas de José Cardoso (7)

Era conhecida a capacidade comprovada da Beira, para mobilizar os seus citadinos em manifestações de repúdio e desagravo a atitudes de injustiça e prepotência.
O aumento dos preços dos bilhetes de ingresso aos cinemas, sem aviso prévio e justificação razoável, foi motivo mais do que suficiente, para ferir a dignidade de toda a população branca, que era a que frequentava os cinemas por razões discriminatórias, ou de grande parte dela, e levá-la a manifestar-se.
Perante a recusa arrogante dos proprietários em reconsiderar a sua decisão, a 1 de Setembro de 1966, a população da cidade manifestou-se e “decretou” uma greve geral aos cinemas, que se manteria por cerca de um ano. Até a “Gillete”, figura emblemática da cidade e conhecida como a cinéfila nº1, que não perdia uma estreia, aderiu ao movimento, solidarizando-se com a vontade da maioria. (refira-se que o epíteto desta velha e extravagante senhora, pelos seus “folclóricos” trajes e exuberantes cosméticas, se devia a ser esposa do Gil, mecânico dentista muito conhecido na praça, não tanto pelas suas qualidades profissionais que constava serem excelentes, mas por ser marido de quem era, e demonstrar uma tranquila tolerância com as excentricidades da esposa.)
A manifestação decorria de forma pacífica, sendo essa a orientação aconselhada nos inúmeros panfletos que foram distribuídos por toda a cidade e a prová-lo, estavam a presença no meio da multidão, de mulheres grávidas e de crianças.
Este movimento pacifista de protesto, viria a transformar-se numa “batalha campal” com alguma violência, quando os “cinzentos” - uma espécie de polícia anti-motim, vinda apressadamente de Lourenço Marques, com cães de guerra a acompanhá-los – irromperam contra aquela enorme massa humana, que lutava apenas com arremessos de palavras, provocando-a e distribuindo chambocadas sem olhar a quem.
Esta e outras imagens de igual violência, teriam inspirado o meu amigo e poeta beirense Heliomotor Baptista, quando, alguns anos mais tarde, escrevia em “Por Cima de Toda a Folha”: “ Oh, as palavras. A semente delas. A colheita vindoura/ sem capatazes de chamboco no ar.”
As pessoas não se intimidaram, porque os tempos do medo eram páginas já passadas, e à violência responderam com violência, batendo a quem batia, partindo vidros e destruindo cadeiras. Ninguém poderia supor que aquela gente, tivesse tanta raiva acumulada e tanta energia guardada para os maus momentos.
É elucidativa a razão porque o átrio do cinema Nacional ficou parcialmente destruído, à excepção de uma vitrina, onde um cartaz anunciava para breve, o filme “TODOS CONTRA UM”. Metaforicamente TODOS, era a população da Beira e UM, a “Empresa de Cinemas da Beira”.
A teimosia desta empresa, e o desprezo que demonstrava ter pelos cidadãos que lhe davam tanto dinheiro a ganhar, levou-a a anunciar uma sessão para a noite seguinte no cinema “São Jorge”, já com os abusivos e polémicos preços. Uma provocação!...
Para lá se dirigiu a multidão, voltando ordeiramente a manifestar-se, na tentativa de boicotar a sessão, com esclarecimentos às poucas pessoas que se dirigiam à bilheteira, cerca de duas dezenas, e a maior parte delas oriundas da Rodésia, que ali passavam as suas férias.
E, mais uma vez. houve nova demonstração de força, levada a cabo pelos “cinzentos”, coadjuvados por agentes da polícia local. Houve quem tivesse visto inclusivamente, montar uma metralhadora no telhado do cinema, e a notícia ameaçadora espalhou-se como um rastilho de pólvora.
Os ânimos voltaram a aquecer, e outra ameaça, vinda dos “cinzentos”, caiu sobre a multidão: a de que, se os acontecimentos o justificassem, lançariam sobre eles a matilha de cães que os acompanhavam.
Perante o facto, que podia ou não consumar-se, em pouco tempo alguns citadinos municiaram-se com varapaus, tubos de chumbo, correntes de bicicleta e (louvada seja a capacidade inventiva do homem) um antídoto especial contra as investidas dos animais que, além de inédito, seria seguramente eficaz: - sacos com assanhados gatos, prontos a serem largados em debandada geral, arrastando consigo os seus ancestrais inimigos!...
A 3 de Setembro de 1966, publicava o “Diário de Moçambique” sob o título “À margem dos acontecimentos ocorridos na noite de ante ontem na Beira”: - “Não se pode pensar que aquilo que aconteceu na noite de 6ª feira frente ao cinema Nacional tenha sido a efectivação de algo preconcebido.
De forma nenhuma se pode admitir que as centenas de casais ali presentes, tenham levado os seus filhos, muitos deles de tenra idade, para uma confusão daquele género, se imaginassem o que viria a acontecer.
Acreditamos sem relutância que a população da Beira pretendeu apenas ordeiramente protestar contra o aumento dos preços dos bilhetes de cinema, baseando-se numa razão que lhes cabe de não compreenderem semelhante aumento.
A Empresa dos Cinemas da Beira, não veio, até hoje, explicar à população (que lhes dá o dinheiro a ganhar) a razão desse aumento, numa altura em que nada, mesmo nada de mais, lhes dá em contrapartida. A maioria dos filmes continua a ser de má qualidade; os ordenados dos empregados daquela empresa, não consta que tenham sido aumentados; os impostos, quando os há, são suportados pelos espectadores...”
E agora segue-se a gracinha de mau gosto ou a bajulação costumeira, que eu faço questão de reproduzir, embora soubesse que era um subterfúgio frequentemente utilizado, para desviar as atenções da censura, de outras referências de fundo mais importantes: “ E esta pacata população da Beira, que corresponde de boa maneira a todos os sacrifícios que o Governo pede, com a consciência de que tudo se deve fazer no sentido de ajudar Portugal na sua luta contra o inimigo, esta ordeira e laboriosa população reagiu, contra uma prepotência duma empresa que manobra protegida por um monopólio...”
Mas a laboriosa população não correspondeu ao “sacrifício” de satisfazer as exigências de uma empresa que era e sempre foi apadrinhada pelo Governo e reagiu, com a consciência de que tudo se deve fazer no sentido de contrariar as manobras dos seus verdadeiros inimigos.
Assim, após os acontecimentos relatados que levaram à greve geral que se prolongaria por cerca de um ano – a Beira tornava-se pródiga em episódios pouco comuns em território português, com direito a figurar nos registos da “Guinness” – a cidade mobilizou-se, subscrevendo durante esse tempo, as acções emitidas com vista à constituição de uma nova empresa e construção de outra sala de espectáculos, acabando assim com a prepotência vergonhosa de um monopólio, protegido pelas autoridades coloniais e protagonizado pelo Monteiro e Victor Gomes.
Não foi tarefa fácil porque os obstáculos criados pelas autoridades locais e centrais foram muitos, o poder dos favores e influências corruptas movimentaram-se, mas o movimento era imparável e significativo, muito forte e determinado, não havendo forma de o contrariar, embora o tivessem tentado.
E assim nasceu o “Novocine”, sobre as margens lodosas do Chiveve, como bastião da vontade de uma cidade que se dispôs a enfrentar e a sacudir do seu meio, alguns dos seus mais destacados “chupa sangue”.

In “Memorandos da Vida” III volume, a publicar de José Cardoso.

2 comentários:

Mário Nunes disse...

E já agora convido-vos a todos a entrarem no Kafe Kultura, entrarem na máquina do tempo e visitarem Lourenço Marques ou Maputo, nos anos 20.
Em http://kafekultura.blogspot.com

Rui Salbany disse...

Fernando,
E, ao que se me consta, o Sr Vitor Gomes, proprietário dos cinemas da Beira até era o sócio maioritário do Novocine...